Enquanto Isso | O (meu) cânone dos quadrinhos

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Enquanto Isso | O (meu) cânone dos quadrinhos

Cem quadrinhos que me fizeram, cem quadrinhos de formação, cem quadrinhos para ter na estante…

Omelete
24 min de leitura
20.12.2022, às 15H02.
Atualizada em 20.12.2022, ÀS 17H53

Você já ouviu aquela máxima de que a Era de Ouro aconteceu quando você tinha doze anos. Ou seja, que o grande momento da arte que for – música, cinema, literatura, quadrinhos etc. – é individual. Não tem a ver com um monte de coisa boa dessa arte ter se concentrado no período histórico x, mas sim na concentração de coisas que você leu naquela época em que formou seu gosto. Aí pelos doze anos, segundo a máxima. Em outras palavras: gosto é gosto, cada um forma o seu.

Isso tem uma importância fundamental quando me perguntam: Mas qual é o seu quadrinho preferido? Ou quando eu resolvo fazer um artigo como este para responder: Quais quadrinhos você tem que ler? Quais quadrinhos você precisa na estante? Por onde um leitor de quadrinhos começa? Ou, sendo mais erudito: Qual é o cânone dos quadrinhos?

 

All-Star Superman

A resposta é absolutamente, intransferivelmente, inegavelmente pessoal. Depende do que eu já li - e, por conseguinte, de tudo que eu não li - e depende de quando eu li.

Se eu tivesse nascido cinco anos antes, vai que eu gostasse mais do Jack Kirby. Se eu tivesse nascido vinte anos antes, talvez eu tivesse minhas histórias queridas do Tex. Se eu tivesse nascido dez anos depois do que eu nasci, talvez eu lesse mais mangá ou mais autoras.

Se eu fosse mais novo ou mais velho, pode ser inclusive que eu nem lesse mais quadrinhos. As asas da borboleta podiam ter batido pra outro lado e hoje eu não seria um jornalista especializado em HQ e sim um pipoqueiro que de vez em quando pega um gibi do Homem-Aranha.

Watchmen

Existe um livro de dois acadêmicos, Bart Beaty e Benjamin Woo, chamado The Greatest Comic Book of All Time. Os autores questionam o que faz de um gibi “o melhor gibi de todos os tempos” e cada capítulo vê a pergunta por um lado: É o melhor porque é o mais comentado pelos críticos? Porque é o que mais provoca nostalgia? Porque é o mais vendido? Porque foi criado por um autor ou autora de minorias? Porque é do Alan Moore?

Enfim: melhor de todos os tempos no quê?

Beaty e Woo falam da mania dos leitores por fazerem listas de melhores e das listas, digamos assim, mais “científicas”, feitas por comitês de entendidos. A de 100 melhores do século 20 do Comics Journal, a do livro 1001 Quadrinhos para Ler Antes de Morrer e outras. Todas, sejam feitas por alguém ou sejam feitas por vários alguéns, são pessoais.

Não existe o quadrinho que é o melhor; qualidade não é valor intrínseco e está nos olhos de quem vê. E depende da formação desse ou desses “quem vê”: de que país, quais foram os primeiros gibis com que tiveram contato, que outras referências tiveram fora dos gibis. Uma pilha de fatores.

Ou, como dizem Beaty e Woo, toda lista devia começar dizendo: “Com base nas minhas experiências como leitor e meus hábitos culturais, fico à vontade em afirmar que ‘Este é o Melhor Gibi de Todos os Tempos’ porque é um exemplo do que eu aprendi a valorizar em um gibi.”

Então, vamos lá: Com base nas minhas experiências de leitura e meus hábitos culturais, fico à vontade em afirmar que “Estes, Abaixo, São os Cem Melhores Quadrinhos de Todos os Tempos”, porque são exemplos do que eu aprendi a valorizar nos quadrinhos.

Esta é a Enquanto Isso número 100 e foi a maneira que eu imaginei de marcar o número.

Tem quadrinhos na minha lista que são bastante óbvios; são aqueles que todo leitor de quadrinho cita. E há motivo para eles serem muito citados: se Maus, Fun Home ou Watchmen não criaram alguma conexão com você, é inevitável que você ouça algum quadrinho ser comparado a Maus, Fun Home ou Watchmen e acabe lendo os três para entender a referência. É um ciclo vicioso: eles são comentados porque foram muito lidos e muito lidos porque foram muito comentados. Mas você também pode chamar de ciclo virtuoso, se ler e gostar dos três. Eu diria que, se ainda não leu, você vai gostar.

Tem alguns abaixo que, assim espero, não são óbvios. Tem quadrinhos que pouca gente leu – que eu inclui não por conta disso, mas porque me marcaram de algum jeito. Tem quadrinhos que estão entre os primeiros que eu li quando estava aprendendo a ler e talvez tenham me marcado por isso. Mas também tem quadrinho que eu li em 2022.

Batman: o Cavaleiro das Trevas

São cem quadrinhos que eu li mais de uma vez e leria de novo hoje? São.

São cem quadrinhos que eu acho que você devia ter na estante? São.

São cem quadrinhos que me fizeram leitor de quadrinhos? São. Tem também os que ainda me fazem leitor.

São cem quadrinhos que mudaram minha vida de leitor? São.

Os cem estão em ordem de preferência? Não. Estão em ordem alfabética.

Você vai ficar indignado ou indignada com alguns que estão na lista e por outros que não entraram na lista? Com certeza. Use essa indignação para fazer a sua lista.

Mais do que tudo, é a lista dos quadrinhos que me formaram. É impossível você ter a mesma formação que eu, mas acho que, a partir da lista, talvez você consiga entender por que eu gosto do que eu gosto.

Amy Racecar

Akira, de Katsuhiro Otomo
Só vou fazer uma notinha aqui para dizer que não vou escrever notinhas sobre todos os quadrinhos da lista. Entenda que, se não tem explicação, é porque não precisam de explicação. Akira é um caso.

América, de Robert Crumb
Eu não sou um grande fã de Crumb, mas acho Crumb indispensável para formação em quadrinhos. Este álbum tem uma boa amostragem do que ele faz, incluindo a clássica “Uma breve história da América”.

Amy Racecar, de David Lapham
É um quadrinho pouquíssimo falado, mas que eu releio sempre que posso. Faz parte da série Balas Perdidas – que também vale – mas também teve existência à parte.

Qualquer HQ do Angeli
Vou fazer isso na lista: soltar um nome de autor ou autora e você se vira. Quando faço isso, é porque considero importante conhecer alguma coisa desse autor ou autora. Na falta de mais instruções, leia o quanto quiser dessa pessoa.
Mas se você quer uma boa dose concentrada de Angeli, vá de Todo Bob Cuspe.

Aquele Verão, de Mariko e Jillian Tamaki

Aqui, de Richard McGuire
Tenho que dizer que a “Aqui” original de seis páginas, lançada em 1989, me marcou mais do que a graphic novel de 300 que saiu décadas depois. Mas as duas foram importantes para seus momentos.

Ao Coração da Tempestade

Asterios Polyp, de David Mazzucchelli

Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo
Qual álbum do Asterix? É difícil. O que me marcou na infância, não sei por quê, e ao qual eu voltei algumas vezes foi Asterix e Cleópatra. Se você for conhecer Asterix, dê preferência a um ou alguns dos primeiros 24 álbuns – os de quando Goscinny era vivo.

Ao Coração da Tempestade, de Will Eisner
Eisner sempre convém, mas, a meu ver, este álbum semi autobiográfico é o melhor suco de Eisner.

The Authority, de Warren Ellis, Bryan Hitch, Mark Millar, Frank Quitely e outros
As duas primeiras fases da equipe que redefiniu super-heróis. Cenas de ação e caracterização brilhantes numa época que estava precisando de outro jeito de fazer super-heróis.

Batman: Ano Um, de Frank Miller, David Mazzucchelli e Richmond Lewis

Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, Klaus Janson, Lynn Varley e John Constanza

Bone, de Jeff Smith

Cinco Mil Quilômetros por Segundo

Qualquer HQ de Brubaker & Phillips
Todas valem, mas se você quer minhas preferidas, vamos lá: Criminal vol. 6: o Último dos Inocentes, Um Fim de Semana Ruim e o primeiro encontro dos dois: Sleeper.

Bulldogma, de Wagner Willian

Calvin & Hobbes, de Bill Watterson
Se eu recomendo uma tira, você devia ler todas? Claro que não. Leia o quanto quiser. Apenas leia. No caso de Calvin, não existe uma fase melhor que outras. Todas valem a pena.

A Canção de Roland, de Michel Rabagliatti

A Chegada, de Shaun Tan

Cinco Mil Quilômetros por Segundo, de Manuele Fior

O Combate Cotidiano, de Manu Larcenet

Concreto, de Paul Chadwick

Crise nas Infinitas Terras, de Marv Wolfman, George Pérez, Jerry Ordway e outros
É um dos primeiros quadrinhos que eu tenho lembrança de ler e de ficar empolgado. E isso é uma coisa curiosa: é um quadrinho complicado, que dizem que “exige” altos conhecimento do universo de heróis da DC. Eu mal sabia ler quando li Crise nas Infinitas Terras pela primeira vez e curti do mesmo jeito. Pode ser que ela contenha todo o espectro do drama que se consegue em gibi de super-herói.

Qualquer HQ da Eleanor Davis
A quadrinista que é a minha predileta dos últimos anos tem álbuns, HQs curtas e muita coisa na internet. Vale investir umas horas só com o que se encontra online. Se e quando puder, leia uma curtinha chamada “Hurt or Fuck”, que é de gênia. Leia bem devagar, depois releia.

Uma fase boa do Demolidor
Para quem não sabe, a benção do personagem endemoniado é ter várias fases boas. Vale conferir todas na íntegra ou ter uma provinha de cada uma. Tem a de Frank Miller e Klaus Janson nos anos 1980, a de Miller e David Mazzuchelli na mesma década (“A Queda de Murdock”), Ann Nocenti e John Romita Jr. logo depois, Brian Bendis e Alex Maleev nos anos 00. Há quem recomende a de Mark Waid, Chris Samnee e cia., mas eu deixo essa por último.

Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud
Já falei inúmeras vezes que este quadrinho mudou minha vida – intelectual, profissional, pessoal – então não vou me repetir. Mas olha só, já repeti: mudou minha vida.

Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbell

Dr. Slump, de Akira Toriyama
Eu li Dragon Ball, li Dragon Ball Z e curto as duas. Mas, pra mim, o gênio cômico de Toriyama está na robozinha Arale Norimaki.

Éden, de Kioskerman
Veja o que escrevi sobre tiras quando falei de Calvin.

Elektra: Assassina, de Frank Miller, Bill Sienkiewicz e Jim Novak

Flex Mentallo, de Grant Morrison, Frank Quitely, Tom McCraw, Peter Doherty e Ellie de Ville
Você tem que espremer com força para tirar algum sentido dessa HQ. Eu espremi e ela me disse muito sobre ser um leitor encantado com os universos de papel. Recomendo espremer. Mas esprema forte.

Fun Home, de Alison Bechdel

Gen: Pés Descalços, de Keiji Nakazawa

Ghost World, de Dan Clowes

Martha & Alan

Grandes Astros: Superman, de Grant Morrison, Frank Quitely, Jamie Grant, Phil Balsman e Travis Lanham
Eu tremo com a ideia-mestra daquela história em que Superman roda uma simulação da Terra e descobre que qualquer Terra criaria um Superman. E com a cena em que Superman ouve que o coração de seu pai parou de bater. Acabei de tremer de novo.

A Guerra de Alan e continuações, de Emmanuel Guibert
Talvez eu goste mais das continuações (inéditas no Brasil): L’Enfance d’Alan e Martha & Alan. 

Gus, de Christophe Blain

Hellblazer, de Garth Ennis, Steve Dillon, Will Simpson e outros
Sim, eu também gosto de Preacher, mas prefiro Ennis/Dillon sem firulas, direto no coração, com a relação de Kit Ryan como pano de fundo e verdade para o horror que é a vida do John Constantine.

O Homem que Passeia, de Jiro Taniguch

Homem-Aranha de Roger Stern, John Romita Jr. e cia.

Homem-Animal, de Grant Morrison, Chaz Truog, Doug Hazzlewood, Tatjana Wood, John Constanza, Peter Milligan e outros.
A fase de Morrison e a sequência curtinha do Peter Milligan.

Pelo menos uma boa fase do Homem-Aranha
Eu acredito mesmo que todo leitor devia sentar-se com uma fase longa e legal do Homem-Aranha, para ler do mesmo jeito que você maratona várias temporadas de um seriado. Tem a de Roger Stern, John Romita Jr. e cia. nos anos 1980, tem o Aranha versão Ultimate de Brian Bendis, Mark Bagley e cia. nos anos 2000. Mas antes de eu morrer, vou sentar para ler de novo, pela sexta ou sétima vez, as primeiras 80 ou 100 edições do Aranha dos anos 1960, por Stan Lee, Steve Ditko, John Romita e outros ilustres.

How to Be an Artist, de Eddie Campbell
Parte do ciclo “Alec” e minha preferida do ciclo.

Ice Haven, de Dan Clowes

O Incrível Hulk de Peter David, Todd McFarlane, Jeff Purvis, Dale Keown, Gary Frank e vários outros
Uma fase comprida e que engloba doze anos de quadrinhos cheios de altos e baixos. Vale na íntegra se você pensar como um exercício de como um mesmo idealizador – David, no caso – mantém uma série interessante (ou tenta) por doze anos. Não sei se existe resultado melhor.

Inuyashiki, de Hiroya Oku e estúdio
Depois que você passa vinte anos lendo gibi de super-herói, é difícil achar um que pareça diferente de tudo e bom. Inuyashiki é um desses.

It Never Happened Again, de Sam Alden
Sam Alden foi uma onda que passou. Não tenho mais notícias do autor, mas ainda guardo essa HQ como uma ótima lembrança. Acabei de reler.

Alguma HQ do Junji Ito
A instituição Junji Ito ganhou renome mundial e virou parte da formação do leitor de quadrinhos. É bom ter um ou dois Ito na prateleira pra ler de vez em quando, mas Uzumaki e “O Mistério da Falha de Amigara” (saiu em Gyo) são os que mais ferraram com meu cérebro.

Alguma HQ do Jason Shiga
Ele é mais conhecido pelas HQs de mil possibilidades que o leitor escolhe, como Meanwhile e Leviathan, mas gosto ainda mais quando ele mesmo escolhe as mil possibilidades – como em Demon.

Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo, de Chris Ware

Alguma HQ do John Byrne nos anos 1980
John Byrne é minha definição de Era de Ouro. Acho que foi com os quadrinhos dele que eu comecei a me empolgar com os quadrinhos – é certo que foi com ele que eu aprendi a procurar os créditos para guardar o nome de quem fazia gibi tão legal. Não sai da minha cabeça que todo leitor tinha que passar por uma maratona de Quarteto Fantástico do Byrne, uma maratona de Tropa Alfa do Byrne, de Vingadores do Byrne ou de Superman do Byrne.

Alguma HQ de Kyle Baker em carreira solo
Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show, You Are Here, I Die at Midnight, Nat Turner, Plastic Man. Baker é um gênio que podia ser mais lembrado.

Liberdade, de Frank Miller, Dave Gibbons e Robin Smith

Liga da Justiça Internacional, de Keith Giffen, J.M. DeMatteis, Kevin Maguire, Al Gordon, Bob Lappan e outros

A Liga Extraordinária, de Alan Moore, Kevin O'Neill, Ben Digmagmaliw, Todd Klein e outros
Gosto mais dos dois primeiros volumes do que dos seguintes, quando Moore e O’Neill ligam o turbo. 

“Lint”, de Chris Ware
Parte de Rusty Brown, mas uma obra prima por si só. 

Little Nemo, de Winsor McCay
Veja o que já escrevi acima sobre tiras de jornal. Você não precisa ser completista, querendo ler toda a série. Mas devia conhecer algumas tiras – ou, no caso de Little Nemo, páginas.

Os Livros da Magia, de Neil Gaiman, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess, Paul Johnson, Todd Klein, John Ney Rieber, Peter Gross, Gary Amaro, Peter Snejbjerg e outros
Gosto tanto da minissérie original quanto dos primeiros anos da série que veio em seguida. Depois, nem tanto.

Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima
Do início ao fim.

Love & Rockets, de Jamie e Gilbert Hernandez
Aqui vale a mesma lógica das tiras: não busque ler tudo dos Hernandez, mas tente conhecer um pouco dos irmãos. Até onde quiser. Eu mesmo comecei a ler os irmãos Hernandez por uma coleção chamada Fear of Comics, com histórias totalmente desconectadas daquilo pelo qual eles são conhecidos, me apaixonei por ali e ainda estou me embrenhando em tudo que eles produziram.

Mafalda, de Quino

Marvels, de Kurt Busiek, Alex Ross, John Gaushell e Richard Starkings
A história da menina mutante na edição 2 me desmonta até hoje.

Maus, de Art Spiegelman

Maia, de Denny Chang
Um quadrinho brasileiro pouco falado, sumido, mas que eu tentei recomendar em toda oportunidade que tive.

Mensur, de Rafael Coutinho

Miracleman, de Alan Moore, Garry Leach, Alan Davis, John Totleben, Neil Gaiman, Mark Buckingham e outros

Moonshadow, de J.M. DeMatteis e Jon J. Muth

Morro da Favela, de André Diniz
Para mim, um ponto chave de todo o quadrinho brasileiro dos últimos vinte anos.

Morte: o Preço da Vida, de Neil Gaiman, Chris Bachalo, Mark Buckingham, Steve Oliff e Todd Klein
Por muito tempo foi minha resposta de bate-pronto quando perguntavam qual é a minha HQ preferida. Às vezes ainda respondo que é.

99 Ways to Tell a Story, de Matt Madden
Tanto quanto os quadrinhos do Scott McCloud, é uma aula para entender quadrinhos. Devia ser mais difundido (publicar no Brasil seria um ótimo começo).

Odisseia Cósmica, de Jim Starlin, Mike Mignola, Carlos Garzón, Steve Oliff e John Workman
Acho que foi a primeira HQ “adulta” que eu li, com heróis que fracassam e mortes que têm peso.

O Ônibus, de Paul Kirchner

Parker: o Caçador, de Darwyn Cooke
Tem outros trabalhos ótimos do Darwyn Cooke, inclusive os outros volumes de Parker, mas a sequência de abertura desta graphic novel, a primeira da série, é daquelas aulas de quadrinhos para ler e reler.

Pato Donald, de Carl Barks
Comece por onde quiser e leia o quanto quiser.

Patrulha do Destino, de Grant Morrison, Richard Case e outros
Eu sei que tem muito Grant Morrison nessa lista, mas você tem que ver o que escrevi lá em cima: minha Era de Ouro, a época em que eu li, etcetera. Li e reli muitas vezes a primeira história de Morrison e companhia na Patrulha, li o resto anos depois e aí passei a reler a última edição quando descobri que ela é um antidepressivo em forma de quadrinho. 

Peanuts, de Charles Schulz
Com preferência pelos anos 1960 e 1970.

The Perry Bible Fellowship, de Nicolas Gurewitch

Piratas do Tietê: a Saga Completa, de Laerte
Esta coleção já tem alguns anos e reuniu a fina flor do que Laerte fez de HQs curtas. Leio tudo e qualquer coisa que ela escreva, desenhe, pinte, mas tenho paixão especial por essa fase. Outra opção mais recente é uma coleção dela chamada Modelo Vivo.

Persépolis, de Marjane Satrapi 

Pílulas Azuis, de Frederik Peeters
Outra que eu costumo responder que é minha HQ preferida. Costumo dar de presente a quem não lê quadrinhos. Tal como acontece com muitos autores da lista, fez e ainda faz eu ler tudo do Frederik Peeters que eu consigo.

Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham
Melhor adaptação literária para quadrinhos que já se fez*, com uma dosagem perfeita de narrativa para enfiar facas no seu coração. (*Mas quase perdeu a vaga para a adaptação de Matadouro 5 por Ryan North e Albert Monteys.)

Polina, de Bastien Vivès

Quadrinhos dos Anos 10, de André Dahmer
Qualquer coisa do Dahmer, na verdade, mas valeria começar por esta coleção.

Regresso ao Éden, de Paco Roca
O quadrinho mais recente nesta lista – li este ano. Ainda não sei explicar tudo que eu gostei. Acho que gosto de Regresso justamente porque não sei explicar. Vale a pena ir mais longe na obra de Roca: A Casa, Rugas, Acasos do Destino, O Inverno do Desenhista

Retalhos, de Craig Thompson
Tem um significado especial para mim por ser minha primeira tradução. Mas tem significado para muita gente, então sei que não é só uma coisa minha.

Qualquer HQ do Joe Sacco

A Saga do Tio Patinhas, de Don Rosa

Sandman, de Neil Gaiman e trocentos colaboradores
Com preferência por Casa de Bonecas, Terra dos Sonhos e Entes Queridos.

Scott Pilgrim, de Bryan Lee O'Malley
Muita gente acha um amerimangá bobinho, mas o avanço na capacidade narrativa do O’Malley – que fica mais notável a partir do volume 4 – é coisa fina.

Qualquer HQ do Seth
Seth, como vários aqui, é uma experiência. Praticamente todas as HQs dele dão a mesma experiência – e a vontade de viver ali dentro. Se quiser uma só, vá de Wimbledon Green ou George Sprott.

The Spirit, de Will Eisner e estúdio
As histórias dos primeiros anos são as melhores.

Alguma HQ de Jim Steranko nos anos 1960
É fácil citar Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D., mas o que desgraçou minha mente de verdade foi aquela página de abertura de Captain America n. 111 com uma leitura em espiral para botar você no clima (tem aqui). Mas claro que você também tem que ver umas páginas de Nick Fury.

Superman: o que aconteceu ao homem de aço?, de Alan Moore, Curt Swan, George Pérez, Kurt Schaffenberger, Gene D'Angelo e Todd Klein

Tintim, de Hergé e seu estúdio
Tal como Asterix: pegue um álbum e leia o quanto quiser. Meu preferido é As Joias de Castafiore, mas é melhor começar por qualquer outro.

Alguma HQ de Adrian Tomine
Intrusos, por mais que não represente muito do que Tomine fez antes, mostra muito da sua evolução como autor. Se tiver que escolher por onde começar Tomine, é por ela.

The Unbeatable Squirrel Girl, de Ryan North, Erica Henderson, Rico Renzi, Derek Charm e outros
É uma série longa, com altos e baixos. Talvez valha mais no começo, mas também tem seus bons momentos no meio e no final. Mais do que uma série, é um estado de espírito.

X-Men de Chris Claremont e Paul Smith

Alguma série completa do Naoki Urasawa
Pluto, 20th Century Boys, Monster, Master Keaton. O importante é a experiência de acompanhar uma série do Urasawa do início ao fim. De preferência uma das longas, como Monster.

V de Vingança, de Alan Moore, David Lloyd, Steve Craddock e outros

Watchmen, de Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins

WE3, de Grant Morrison, Frank Quitely, Jamie Grant e Todd Klein 

Uma fase boa dos X-Men
Talvez seja daquelas coisas de “você tinha que viver na época”, mas acho que não há leitor de quadrinhos bem formado que não tenha aguentado uma longa fase do novelão X-Men. A fase hors concours é a de Chris Claremont e cia. (com Byrne, com Paul Smith, com Romita Jr., com Jim Lee etc.), mas também valem as de Grant Morrison e cia., a de Joss Whedon e cia., a de Jason Aaron e cia. (Wolverine & the X-Men).
De bônus: Novos Mutantes na época do Claremont, com Bill Sienkiewicz, Jackson Guice, Kyle Baker e outros. Um spin-off, mas parte do novelão.

Young Frances, de Hartley Lin

Podia ter mais de cem? É claro que podia. Pinóquio do Winshluss, Bienvenido do Liniers, Condado de Essex ou Sweet Tooth do Jeff Lemire (outro autor que está virando uma instituição), o Gavião Arqueiro de Fraction e Aja, Frequência Global de Warren Ellis e vários, Cages de Dave McKean, Maria y Yo de Miguel Gallardo, Planetes de Makoto Yukimura, Surfista Prateado de Dan Slott e o casal Allred...

Estes e outros quase entraram na lista. Mas esta é a coluna 100, então vamos ficar nos 100.

Cânones de quadrinhos revelam mais sobre quem faz o cânone do que sobre os quadrinhos, né? E revelam inclusive para quem monta seu cânone: eu não sabia que ia citar o Grant Morrison tantas vezes. Nem que a experiência de ler séries de super-heróis, como os novelões que são, era uma coisa que eu considerava tão indispensável. É claro que você não precisa concordar, mas eu acho que é.

Se você me perguntar amanhã, a lista vai ser exatamente a mesma? Amanhã, sim. Semana que vem, provavelmente também. Pode ser que no mês que vem eu me arrependa pela falta de um quadrinho ou dois. Mas passei alguns dias pensando, olhando as estantes e conferindo listas de outros para montar o que você viu acima. Acho que esse cânone tem validade até o mês que vem.

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor dos livros Balões de Pensamento – textos para pensar quadrinhos e Balões de Pensamento 2 – ideias que vêm dos quadrinhos.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#99 – A melhor CCXP de uns, a pior CCXP de outros

#98 – Os prêmios e os quadrinhos que vão valer em 2047

#97 – Art Spiegelman, notável

#96 – O mundo quer HQ brasileira

#95 – A semana do Brasil e do quadrinho brasileiro

#94 – Todo fim de ano um engarrafatarse

#93 – Um almoço, o jornalismo-esgoto e Kim Jung-Gi

#92 – A semana mais bagunçada da nossa história

#91 – Ricardo Leite em busca do tempo

#90 – Acting Class, a graphic novel queridinha do ano

#89 – Não gostei de Sandman, quero segunda temporada

#88 – O novo selo Poseidon e o Comicsgate

#87 – O mundo pós-FIQ: você tinha que estar lá

#86 – Quinze lançamentos no FIQ 2022

#85 – O Eisner 2022, histórico para o Brasil

#84 – Quem vem primeiro: o roteirista ou o desenhista?

#83 – Qual brasileiro vai ao Eisner?

#82 – Dois quadrinhos franceses sobre a música brasileira

#81 – Pronomes neutros e o que se aprende com os quadrinhos

#80 – Retomando aquele assunto

#79 – O quadrinista brasileiro mais vendido dos EUA

#78 – Narrativistas e grafistas

#77 – George Pérez, passionate

#76 – A menina-robô que não era robô nem menina

#75 – Moore vs. Morrison nos livros de verdade

#74 – Os autores-problema e suas adaptações problemáticas

#73 – Toda editora terá seu Zidrou

#72 – A JBC é uma ponte

#71 – Da Cidade Submersa para outras cidades

#70 – A Comix 2000 embaixo do monitor

#69 – Três mulheres, uma Angoulême e a década feminina

#68 – Quem foi Miguel Gallardo?

#67 – Gidalti Jr. sobre os ombros de gigantes

#66 – Mais um ano lendo gibi

#65 – A notícia do ano é

#64 – Quando você paga pelo que pode ler de graça?

#63 – Como se lê quadrinhos da Marvel?

#62 – Temporada dos prêmios

#61 – O futuro da sua coleção é uma gibiteca

#60 – Vai faltar papel pro gibi?

#59 - A editora que vai publicar Apesar de Tudo, apesar de tudo

#58 - Os quadrinhos da Brasa e para que serve um editor

#57 - Você vs. a Marvel

#56 - Notícias aos baldes

#55 – Marvel e DC cringeando

#54 – Nunca tivemos tanto quadrinho no Brasil? Tivemos mais.

#53 - Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

#52 - O direct market da Hyperion

#51 - Quadrinhos que falam oxe

#50 - Quadrinho não é cultura?

#49 - San Diego é hoje

#48 - Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 - A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 - Um clássico POC

#45 - Eisner não é Oscar

#44 - A fazendinha Guará

#43 - Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 - A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 - Os quadrinhos são fazendinhas

#40 - Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 - Como escolher o que comprar

#38 - Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 - Desculpe, vou falar de NFTs

#36 - Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 - Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 - Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 - WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 - Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 - Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 - HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 - O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 - Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 - Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 - Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 - Mais brasileiros em 2021

#24 - Os brasileiros em 2021

#23 - O melhor de 2020

#22 - Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 - Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 - Seleções do Artists’ Valley

#19 - Mafalda e o feminismo

#18 - O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 - A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 - Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 - A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 - Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 - Cuidado com o Omnibus

#12 - Crise criativa ou crise no bolo?

#11 - Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 - Mais um fim para o comic book

#9 - Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 - Como os franceses leem gibi

#7 - Violência policial nas HQs

#6 - Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 - Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 - Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 - Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

#2 - Café com gostinho brasileiro e a história dos gibis que dá gosto de ler

#1 - Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

#0 - Warren Ellis cancelado, X-Men descomplicado e a versão definitiva de Stan Lee

 

(c) Érico Assis

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