Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Como os franceses leem gibi

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Como os franceses leem gibi

O que um país faz para cultivar leitores de quadrinhos?

Érico Assis
12.09.2020
11h14
Atualizada em
12.09.2020
11h59
Atualizada em 12.09.2020 às 11h59

Metade da população francesa lê quadrinhos. Eles têm começado a ler mais cedo: antes era aos nove, agora é aos sete. Aos nove, hoje, só uma em cada dez crianças francesas não lê gibi. No geral, quem larga os quadrinhos larga por volta dos 14. Mas, aos 75 anos, um francês em cada quatro ainda preza seu Asterix.

São dados de uma pesquisa extensa divulgada esta semana pelo Centre National du Livre, encomendada ao instituto Ipsos. Dois mil franceses foram entrevistados sobre hábitos de leitura de bande dessinée em janeiro de 2020.

A pesquisa é extensa pra caramba: uma bateria de perguntas sobre quantidade de gibis que cada um lê, quantas horas lê por dia, que gêneros, motivos para ler, onde lê, onde compra, por que parou de ler, como leria mais. Todos os detalhes estão aqui.

Para começar: a leitura de gibi ainda é mais do francês do que da francesa: 84% dos meninos leem, 70% das meninas leem. Dos 15 aos 75 anos, 53% dos homens e 33% das mulheres leem com regularidade.

A preferência de todas as idades e gêneros é pelo quadrinho do próprio mercado franco-belga. Asterix está no topo – talvez por conta do aniversário recente da série, que incluiu um lançamento milionário em outubro do ano passado – e Tintim ainda é forte mesmo sem novidades há décadas.

O mangá já teve participação maior no mercado, mas One Piece e Naruto continuam na cabeça das crianças até os 35 anos. O gibi de super-herói dos EUA cresceu, mas ainda tem participação tímida. Parece que Les Sisters, série infanto-juvenil de William, destronou o Titeuf de Zep, sucesso que vendia milhões nas últimas décadas.

Crianças e adultos leem em média pouco menos de meia hora por dia, um pouco mais nos fins de semana – só de quadrinhos, não contando outras leituras.

Crianças e adultos gostam de ler no quarto. A faixa dos 56 aos 75 anos prefere ler no sofá. 21% dos adultos admite que lê no banheiro.

Os pais têm importância determinante no gibizismo dos filhos – principalmente para comprar os gibis, é claro. Quem mais influencia o que a criança vai ler são os amigos. É só pelos 16 anos, se mantiver o hábito de quadrinhos, que o leitor começa a formar seu gosto próprio.

É importante comentar que os franceses leem muito na biblioteca. Há 16 mil bibliotecas públicas na França, segundo o Ministério da Cultura, uma para cada 4 mil habitantes. Muitas têm os lançamentos. Ou seja, esse monte de leitores não está necessariamente gastando grana para ler.

Como qualquer ser humano decente, todas as idades reclamam de falta de tempo para ler mais gibi. Se tivessem mais tempo, ler HQ seria a quarta atividade que mais fariam – depois de videogame, família + amigos e esportes, entre as crianças; família + amigos, esportes e ler outras coisas, entre os adultos.

Quadrinhos são uma tradição francesa, parte do orgulho nacional e um hábito muito, mas muito bem trabalhado pelas editoras de lá há quase cem anos. Embora no Brasil a gente conheça mais os best-sellers (Asterix, Tintim, Persépolis) ou os nichos mais autorais (Bastien Vivès, Penélope Bagieu), há vários segmentos de mercado francês – ficção histórica, jornalísticos, muitíssimo humor, infinitos infantis – que pouco são exportados, mas atendem às demandas do gauleses. E esse material é calibrado pelas editoras conforme pesquisas como esta.

Em comparação com o Brasil? Na pesquisa Retratos da Leitura do ano passado, 13% dos leitores brasileiros falaram que leem gibis. (Uma nova pesquisa sai na próxima segunda-feira.) Os “leitores brasileiros”, no caso, são pouco mais 100 milhões, metade da população do nosso país. Não se tem uma pesquisa detalhada como a francesa sobre hábitos de leitura do gibizeiro brasileiro. Faz falta.

O FINAL 1

Já está circulando por bancas e livrarias brasileiras o volume 32 de The Walking Dead – o último. Chegou por aqui bem na semana em que o seriado de TV anunciou a última temporada (com um spin-off em seguida).

Nos EUA, a série de Robert Kirkman e Charlie Adlard acabou em julho do ano passado totalmente de surpresa na edição 193. (Leia a ótima resenha do Hessel sobre o final.) O volume 32 da Panini (R$ 39,90, tradução de Eric Novello) reúne do número 187 à última.

É um marco para a Panini, que assumiu a série no Brasil em dezembro de 2017 – publicando, em paralelo, do ponto onde a série havia parado por aqui, no volume 19, e também do primeiro volume em diante.

Há dois meses, Kirkman e Adlard lançaram um capítulo extra, o especial Negan Lives! Além disso, a série será completamente reeditada lá fora, agora colorida. Não há informações se a Panini pretende publicar esse material.

O FINAL 2

A Devir anunciou para outubro e novembro os dois últimos volumes de The Boys, de Garth Ennis, Darick Robertson e Russ Braun (tradução de Marquito Maia). Ou seja, um pouco depois do final da segunda temporada do seriado que está rolando agora na Amazon Prime.

Tem mais informações aqui.

Assim como Walking Dead, Boys teve um prolongamento recente nos EUA: a mini Dear Becky, que se passa doze anos após a série principal, e ainda está rolando lá fora.

O FINAL 3

A Biblioteca Don Rosa acaba este mês com o Volume 10: "Uma Carta de Casa" (R$ 79,90). É a primeira vez que todo o material dos Patos por Rosa é reunida em coleção no Brasil – que saiu metade pela Abril, metade pela Panini.

“Eu (re)traduzi e editei os cinco últimos volumes”, diz Marcelo Alencar, da Panini, em conversa por Facebook. “Acredito que esta coleção satisfaça os exigentes leitores de quadrinhos Disney, que têm em Don Rosa um legítimo e dedicado discípulo de Carl Barks. Embora admita não ser um profissional da área (ele se define como um fã que estava no lugar certo, na hora certa), o autor deixa um legado considerável, especialmente com a Saga do Tio Patinhas.”

O último volume, aliás, traz uma espécie de epílogo da Saga.

MINO DAY

Começou hoje e está rolando neste momento o Mino Day, edição 2020 do evento da Editora Mino que inclui várias lives – com artistas nacionais e estrangeiros – e promoções na loja própria e na Amazon.

O grande destaque na divulgação são as caricaturas dos autores da Mino, desenhados por Pedro Cobiaco. A do Mike Deodato é excepcional.

O “dia” da Mino vai durar, na verdade, três dias. As lives acontecem no canal da editora no YouTube. Você confere a programação logo abaixo:

UMA PÁGINA

Já falei de Strange Adventures aqui, mas é inevitável falar de novo. A série de Tom King, Mitch Gerards e Evan “Doc” Shaner sobre Adam Strange, o velho personagem galáctico da DC, deve ser a melhor coisa saindo nos EUA nesse momento.

A edição 5 dá mais foco a Alanna, a esposa de Adam. De costas você não vai ver, mas ela tem os traços da atriz Olivia Munn. (E Adam lembra Arnie Hammer.)

UMA CAPA

De Art Spiegelman, o cara de Maus. Não é uma capa oficial, mas sim uma pintura que Spiegelman fez sobre uma dessas capas em branco que a DC lança de vez em quando (como as que a Panini lança na CCXP para você pegar autógrafo). E é releitura de uma capa que o próprio Spiegelman fez para a New Yorker em 1993.

O Bat-beijo foi pintado para uma exposição em 2015 e agora volta a ser exibido – talvez vá a leilão – na Galerie Martel, a galeria dos quadrinistas em Paris. Se você estiver pela França neste domingo, a vernissage começa às 13h.

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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