Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

Veteranos dos quadrinhos e suas entrevistas sarcásticas, comprometedoras ou mágicas

Érico Assis
23.10.2020
18h13

Como acontece toda vez que o nome de Alan Moore passa na frente de um jornalista sem pauta, mais uma entrevista de Moore reclamando dos super-heróis chegou ao mundo este mês. Mesmo que o barbudo não tenha dito nada de nada de nada de inédito sobre o assunto, circularam suas aspas requentadas de repúdio ao cinema de super-herói e à ideia do “super-herói adulto” que ele ajudou a criar.

Circulou bem menos uma entrevista em que sua filha, Leah Moore – também escritora de HQ – dedica vários minutos a falar sobre o pai e sobre o que ela pensa das entrevistas com papai.

Alan Moore em "The Show"

“Quando ele topa dar essas entrevistas, e a entrevista vai rolar porque, sei lá, vai sair Jerusalém… e ele está empolgado que o livro vai sair, porque é um negócio em que ele vem trabalhando todas as horas do dia nos últimos vinte anos… aí ele vai dar a entrevista e o cara pergunta: ‘o que você acha de Watchmen? E do filme? E do seriado?”

Moore-filha diz que não é à toa que se criou a imagem de Moore-pai como o velho ranzinza praguejando contra as nuvens. Seu desprezo pela indústria de quadrinhos, pelo estado dos super-heróis e pelos filmes (que ele não assistiu) é genuíno. Questioná-lo sobre o assunto pela ducentésima vez não ajuda. Ela chama de “Vamos ver se aquele brabo do Alan Moore continua brabo”.

Jornalistas que se prezem leram, no mínimo, V de Vingança e Watchmen, HQs que Moore produziu respectivamente com David Lloyd e com Dave Gibbons e John Higgins. Parece que esqueceram que Moore e companhia inventaram, respectivamente, A Voz de Londres e Adrian Veidt, dois exemplos brilhantes de manipulação da mídia.

“Eu acho que ele é mal entendido na maioria das entrevistas”, diz Leah Moore, “porque acreditam que ele está falando sério e, nove em cada dez, ele está sendo debochado e sarcástico.”

Tem outros bons trechos da conversa com Moore-filha – quando ela conta que a família nem tinha latrina dentro de casa antes de o pai ganhar a grana de Watchmen. E, tal como o progenitor, ela sabe que precisa falar do Alan Moore brabo pra chamar atenção a seus projetos. O mais novo é uma antologia em quadrinhos baseada no álbum The Doors: Morrison Hotel, que está saindo este mês e envolve gente de qualidade como Marguerite Sauvage e Danijel Zezelj.

TRUE BELIEVER

Foto: AARP

A quase dois anos completos do seu falecimento, Stan Lee voltou às notícias. Está em disputa o que vai passar por oficial em sua biografia, desde seus supostos grandes feitos até os últimos meses de vida.

Começando pelo final: uma longa matéria do mês passado na revista da Associação Americana dos Aposentados, a AARP, com o título “Os Últimos Dias de Stan Lee”. O jornalista David Hochman, que conheceu Lee em vida, foi atrás de quatro pessoas acusadas de explorar o autor nonagenário e sua fortuna nos últimos anos.

Algumas histórias circularam antes mesmo da morte de Lee: gente que estava mexendo na sua conta bancária sem permissão; relatos de que ele tinha brigas sérias, de bate-boca a violência física, com a filha J.C. Lee; um auxiliar que saía com itens de colecionador da casa de Lee a cada visita (e jura que eram presentes); e o parceiro de negócios que convenceu Lee a fazer autógrafos especiais com sangue, depois sumiu com as ampolas de sangue do velhinho.

A matéria levou à reação de pelo menos um acusado, Keya Morgan, que postou um vídeo inédito de Lee falando da legitimidade da parceria entre os dois a um advogado. Morgan, porém, é a única pessoa formalmente acusada de exploração de idoso e está preso. O caso ainda está em julgamento em Los Angeles.

Enquanto isso, começam a circular comentários sobre a biografia mais esperada de Lee, True Believer, escrita pelo jornalista Abraham Riesman. Riesman publicou no Washington Post uma espécie de prévia da biografia, que dá o tom do que ele vai afirmar e fundamentar no livro (que devia ter saído este ano, mas foi reprogramado para fevereiro).

Em “5 mitos sobre Stan Lee”, Riesman afirma que pesquisou a fundo e não achou nenhuma prova nem depoimento – fora da esposa de Lee – de que ele foi o principal nome por trás da criação do Universo Marvel. Há relatos e provas documentais, por outro lado, da concepção de Homem de Ferro, Homem-Aranha, X-Men e outros por parte de Jack Kirby e Steve Ditko.

Os outros mitos são os de que Lee era roteirista dos gibis (aquele velho problema com o “Método Marvel” de roteirizar), que era de esquerda (ele se declarou contra radicais e apoiou a guerra do Vietnã), que ganhou muita grana com Hollywood (bem menos do que você acha) e que era um apaixonado por gibis e super-heróis (sua meta era a literatura ou o cinema).

Sobre este último ponto, vale a pena ler uma declaração de Lee na matéria da AARP:

"Para falar a verdade, nunca me considerei um cara de sucesso. Quando eu era mais novo, tinha vergonha do que eu escrevia. Eu pensava: tem gente que constrói pontes, que faz pesquisa na Medicina. E eu aqui, escrevendo gibi ridículo."

O entrevistador diz que o autor ficava contente com o reconhecimento dos fãs, porém. Lee seguiu na resposta:

"Vem gente me dizer, por exemplo, ‘Quando eu era criança, minha mãe saiu de casa e meu pai era um bêbado, mas seus gibis não me abandonaram.’ Esses personagens têm uma importância pras pessoas que eu nem entendo. Mas isso é sucesso? Isso é fortuna? Eu conheço gente muito mais rica do que eu. Isso me deixa 100% feliz? Ninguém é 100% feliz. Mas eu também sei que ninguém vai parar na rua um cara que construiu pontes e dizer: ‘Nossa, as suas pontes! Que emocionantes!’”

JODO

Mais um velhinho: Alejandro Jodorowsky, 91 anos, em entrevista ao Hollywood Reporter por ocasião dos quarenta anos de O Incal:

"Olha, eu não sou normal. É sério, eu não sou normal. Minha imaginação é imensa. Eu escrevo tão rápido quanto o Moebius desenha[va]. Se eu tenho uma ideia, eu executo. Não sou cineasta, não sou roteirista de cinema, nem escritor de quadrinhos. Eu sou tudo. Não gosto [de uma coisa só]. Eu gosto do que eu faço.

Estou com 91 anos e meio. Sou do século 20. Nosso século é o 21. (...) Quanta diferença entre os dois séculos! No anterior, o telefone era o telefone. Agora você pega um celular, e o celular é telefone, mas também é câmera, fotografia, cinema, música. Pode ser tudo. Um homem desse século não é uma coisa só, e isso vale pra vida. Hoje toda pessoa é Leonardo Da Vinci. Pode fazer todas as artes. Ser um artista multifacetado."

Faz poucos dias que assisti Jodorowsky’s Dune, o documentário sobre o projeto megalomaníaco que Jodo tinha nos anos 1970 para adaptar o livro de Frank Herbert, e que nunca rolou. Ainda me arrependo de não ter assistido antes. É tipo uma injeção de criatividade e ânimo pra vida.

Correm boatos de que O Incal deve ganhar nova edição no Brasil em breve. Ainda sobre Jodo e seu trabalho com Moebius: um fio espetacular do quadrinista espanhol David Rubín (Beowulf, El Héroe) sobre quando encontrou o escritor chileno numa convenção. Clique abaixo pra começar:

SOLUÇÕES E OUTROS PROBLEMAS

Não fico só nos velhinhos: Allie Brosh, 35, ressurgiu pro mundo este ano. A autora de Hyperbole and a Half – saiu aqui pela Planeta em 2014, com tradução de Flavia Yacubian – tinha milhões de seguidores da sua mistura de blog com webcomic, ia lançar um segundo livro em seguida e, de repente, sumiu.

Em entrevista à Rolling Stone, ela explica por quê: problemas de saúde, dois divórcios (dela e dois pais dela) e o suicídio da irmã. Para uma autora cujo principal tema é a depressão – e que escreve com uma franqueza invejável sobre viver com depressão – você imagina o baque.

Mas Brosh felizmente se recuperou, tranquilizou os fãs preocupados com o sumiço, e a continuação de Hyperbole saiu nos EUA: chama-se Solutions and Other Problems, tem mais de 500 páginas e segue na mistura de texto com desenho tosco, com Brosh se retratando como aquele... peixe de saia?... para contar a própria vida.

Tem um trecho no blog da autora e outro, hilário, na New Yorker. Ainda não há informação sobre o lançamento no Brasil.

FORA DA CAIXINHA

Como chegar no quadrinho independente, nos novos autores, descobrir novidade e ter quase aquela experiência de ir na convenção – as que não aconteceram em 2020 – e sair com um monte de zines embaixo do braço?

Tem uma solução: uma caixa.

O projeto Fora da Caixinha está no Catarse por mais alguns dias. É um pacote que inclui um livro e três zines, mais adesivos e cartão postal.

A ideia é reunir autores de várias partes do Brasil, principalmente de estados pouco representados na produção nacional. Na primeira caixa, o material é de Aureliano (Rio Grande do Norte), Ana Toyoda (Amazonas), Diana Salu (Brasília), Paulo Bruno (Maranhão), Marília Mafé e Mariabelhas (as duas de Pernambuco).

“A ideia de fazer a caixinha surgiu quando passamos a perceber que nosso consumo de conteúdo é centralizado no sudeste”, disse Aureliano, que assina o livro O Menino que Desaprendeu a Chorar, da primeira Caixinha. “É normal se pegar nas mídias sociais circulando pelos mesmos perfis, até pela praticidade da ferramenta, mas é algo que nos deixa acomodados. E a produção acontece em todos os lugares, basta estar atento o suficiente pra entender. Nesse sentido, a curadoria do Fora da Caixinha buscou esse time bem plural pra mostrar que existem outros brasis dentro do Brasil.”

Dá para apoiar até 7 de novembro.

UMA CAPA

É uma foto, mas também é a capa de “Freaks Like Us” (“bizarrinhos que nem a gente”), nome que Douglas Rushkoff deu para o podcast/entrevista com o amigo Grant Morrison.

Você tem que se esforçar pra entender o escocês de Morrison, mas vale a pena. Fazia tempo que ele não entrava nas pirações de magia, caos, arte e como isso tudo tem a ver com contar histórias. Rushkoff – escritor, crítico, professor, cara legal pra falar de mídias digitais e sociedade, que de vez em quando escreve uns gibis – dá corda para o amigo pirar.

A foto é de 1998. Morrison é o de calça prateada à esquerda, Rushkoff está acuado no meio, e a moça reclamando com o fotógrafo é Victoria B. Sim, eles estão numa banheira.

UMA PÁGINA

Adaptações da literatura para os quadrinhos dão mais errado do que certo. Quando se tem um clássico contemporâneo, como é o caso de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, a chance de dar errado é ainda mais alta.

Contra todas as expectativas, a adaptação de Matadouro que acaba de sair nos EUA - pelos brilhantes Ryan North (Garota-Esquilo) e Albert Monteys (Universe!) - consegue, ao mesmo tempo, ser um tributo ao livro original, ficar alto na lista de quadrinhos do ano e desrespeitar o original na medida certa - a medida certa para virar um ótimo quadrinho.

Ainda não tem previsão de lançamento no Brasil, mas torça que venha logo.

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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