Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

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Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

Roterista goiano premiado na Europa sem falar francês ou inglês; e os destaques da edição 300 da Heavy Metal

Érico Assis
21.08.2020
23h45
Atualizada em
22.08.2020
00h43
Atualizada em 22.08.2020 às 00h43

Wander Antunes, um dos roteiristas brasileiros mais publicados no exterior, está voltando aos quadrinhos após uma longa pausa. E vai voltar tanto nos roteiros quanto nos desenhos.

Mas calma. É possível que você nunca tenha ouvido falar de Wander Antunes. Nem que ele é um dos roteiristas brasileiros mais publicados no exterior. Nem que existem roteiristas brasileiros que publicam no exterior.

Goiano criado em Cuiabá, hoje morando em São Paulo, Antunes tem sete álbuns publicados no concorrido mercado franco-belga. Todos como roteirista. Já ganhou prêmios por lá, concorreu no Festival d’Angoulême e chegou a ter uma série com outro brasileiro, José Aguiar.

Tudo isso sem falar uma palavra em francês. Mas voltamos a este assunto mais à frente.

Nada do que Antunes publicou no exterior foi publicado no Brasil. Aqui, Antunes talvez seja lembrado como editor da revista Canalha e roteirista de álbuns como Crônicas da Província e A Boa Sorte de Solano Dominguez, os dois com Mozart Couto. Ou da adaptação de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, com Lélis.

O Corno que Sabia Demais, que ele escreveu para o desenho de Gustavo Machado, virou a série Cidade Proibida, na Globo, em 2017. No mesmo ano, o material foi reeditado por aqui pela Noir com o nome Zózimo Barbosa – do detetive protagonista.

Antunes andava sumido. Recentemente publicou no Facebook que tem um novo trabalho na França: Les Ailes de l’Esperance (as asas da esperança). O álbum se encaixa em um gênero amado no quadrinho franco-belga: a ficção histórica de guerra. No caso, de um subgênero, o das batalhas de aviões – com fuselagens e uniformes meticulosamente pesquisados e milimetricamente desenhados.

O desenho é do belga Thomas Du Caju. Ailes se passa na Segunda Guerra Mundial e destaca Ruby, prostituta que vive perto de uma base da RAF, a força aérea britânica, para atender os aviadores.

“Ela é viúva e mente para o filho que a frequência daqueles homens em casa é porque está escolhendo um novo pai para o garoto”, conta Antunes. “É sobre uma mãe tentando cuidar do filho em tempos de guerra.”

Ailes sai em 2021 pela Paquet. E não é o único trabalho que o brasileiro agendou na Europa.

L’Homme qui Corrompit Hadleyburg, ou O Homem que Corrompeu Hadleyburg, adaptação do conto de Mark Twain, está previsto para 2022 pela La Boite À Bulles. Dessa vez, Antunes escreve e desenha.

“É um belo conto, que me acompanha desde sempre”, diz o autor. “Grosso modo, é sobre a virtude que nunca foi posta à prova. Hadleyburg é a cidade mais honesta da América, eles têm orgulho disso e são invejados. Um homem que se sentiu ofendido pelos habitantes de Hadleyburg decide testar toda essa honestidade. É, como se pode ver, sobre hipocrisia.”

Desenhar um álbum é um sonho antigo, que ficou anos parado. “Uma vez, acho que em 84, estive em São Paulo, mostrei meus desenhos pro Jayme Cortez e foi um desastre. Ele disse que eu nunca seria um desenhista. Foi muito foda e fiz a viagem São Paulo - Cuiabá chorando.”

Foi só bem mais tarde que ele voltou a se aproximar dos quadrinhos, agora escrevendo. Depois de publicar bastante como roteirista, resolveu se “jogar de cabeça no desenho”. Sua ausência dos créditos na última década tem a ver com esse mergulho na prancheta.

“Agora que o desenho tá meio que rolando decidi voltar a escrever pra outros desenhistas.”

E essa história de escrever para a França sem falar francês?

“Eu tenho dois tradutores muito bons, um pro francês e um pro inglês”, ele me responde. Aliás, ele tem outro projeto engatilhado com uma editora dos EUA – mesmo que também não fale inglês.

“Eu só falo, de modo risível, espanhol.”

Mas lê francês ou inglês?

“Nem uma linha. Nem de um nem de outro.”

Mas como?

“Todo es posible en la dimensión desconocida.”

MINA DE HQ

O site Mina de HQ vai virar revista. Não só de minas e não só de HQ.

Dezenove quadrinistas, entre mulheres e pessoas não-binárias, vão participar da primeira edição. O trabalho delas, coordenado pela editora Gabriela Borges, é temático: trata da pandemia e sobreviver a este ano maluco. Além de reproduzir material do site, a revista vai trazer histórias inéditas.

Fora os quadrinhos, a Revista Mina de HQ terá matérias de jornalistas da área, sobre temas relacionados.

O projeto está no Catarse até 14 de setembro. Nesse momento, está bem perto da meta – embora seja uma campanha flex, então sua revista está garantida a partir do apoio de R$ 15. Compre aqui.

A lista de envolvidas? Amanda Miranda, Carol Borges, Manzanna, Cecilia Tangerina, Marília Marz, Gabriela Güllich, Didi Mamushka, Sirlanney, Ana Paloma Silva, Carol Ito, Ellie Irineu, Verônica Berta, LoveLove6, Aline Zouvi, Germana Viana, Aline Lemos, Helô D’Ângelo nos quadrinhos, Anne Quiangala, Samanta Coan, Mariela Acevedo, Dandara Palankof e Amanda Justiniano nas matérias. A capa da revista e a ilustração acima são de Bennê Oliveira.

MOEBIUS ERA UM SACANA

A Heavy Metal, tradicionalíssima antologia de HQs de fantasia e sci-fi, chegou à edição 300 esta semana nos EUA. Tem um fantasma que paira sobre a edição: Moebius.

Moebius, ou Jean Giraud, foi um dos fundadores da Métal Hurlant, a antologia francesa que inspirou a Heavy Metal. Jean-Pierre Dionnet, outro fundador, fala sobre ele na edição comemorativa.

“Tinha muito senso de humor e passava o dia fazendo piada ruim. Mas muito ruins.

Ele conseguia copiar qualquer artista do mundo. Passava absorvendo cada um. Ele tinha que saber de tudo para criar o que criava. Era o cara mais legal do mundo, mas também tinha como ser o cara mais cruel do mundo.

Teve uma vez que Moebius desenhou uma capa horrível de Incal. O desenho não fechava. Tinha uma perna muito comprida. Eu olhei, cheguei em casa e liguei pra ele. ‘Jean, temos um problema. Pode passar no escritório amanhã de manhã?’ Nos encontramos e ele disse: ‘Eu fiz aquela capa feia porque achei que Moebius pode fazer o que quiser e ninguém dá bola. Mas essa é a capa de verdade.’ Ele fazia essas sacanagens com todo mundo.”

Tem também o relato de um jornalista dos EUA, Geoff Boucher, sobre a entrevista que Moebius concedeu a ele – talvez a última de sua vida, pois ele faleceu poucos meses depois, em 2012 – e como foi conhecer o ídolo. O perfil que Boucher escreveu está aqui. Trecho de uma resposta de Moebius:

“Depois de tantos anos, comecei a ter problemas de visão. Tenho catarata no olho esquerdo. Aí tiraram meu olho e levaram numa oficina. Mexeram nele tipo sushiman (ele faz uma mímica de tábua de corte), depois botaram de volta e agora tenho um olho especial. Tipo o do Exterminador do Futuro.”

Apesar de ter uma historinha curta de Moebius (e pornográfica, mas um pornô-moebius – ver trecho acima), outras de Richard Corben e Liberatore, a Heavy Metal não impressiona mais.

Há poucos meses se falou que a versão francesa voltará a sair em 2021. O lema da nova Métal Hurlant será “o futuro já é amanhã”. As histórias vão tratar do futuro bem próximo, poucos anos à frente. Meio Black Mirror, quem sabe.

UMA PÁGINA

Duas, na verdade. De Paul Está Morto, dos italianos Paolo Baron e Ernesto Carbonetti (com tradução de Thiago Ferreira). A edição da Comix Zone começou a ser pré-vendida no início da semana e, segundo a editora, 500 exemplares saíram no primeiro dia.

A graphic novel trata da lenda em torno da morte de Paul McCartney em 1966 e como isto teria afetado os Beatles. À venda aqui.

De Kriança Índia n. 1, de Álvaro Maia. A série digital da personagem anti-ruralistas de Rafa Campos Rocha estreia com histórias que já circularam em edições independentes e na internet, além de inéditas. Segundo a Editora Guará, será mensal. E custa só R$ 4,90.

Campos, o criador e desenhista da maioria das histórias, declara:

"Sou um artista comunista. Significa que faço minha arte tendo no horizonte a coletivização dos meios de produção, o fim da sociedade de classes e o fim do estado nacional. Significa também que quero que o liberal se sinta pessoalmente ofendido com minha obra, como se ela ameaçasse a sua vida.

‘Ain, mas você coloca na internet, em editora privada, que é coisa de capitalista.’ Sim, coloco meu gibi nesses lugares enquanto não consigo enfiar ele no seu c*" 

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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