Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

Os atrasos de Dan Slott em Marvel 616, o romance de Marcello Quintanilha e mais novidades dos quadrinistas brasileiros em 2021

Érico Assis
29.01.2021
17h26
Atualizada em
30.01.2021
14h44
Atualizada em 30.01.2021 às 14h44

O que você produziu de melhor em 2020?

E quais são seus projetos para 2021?

Mandei essas duas perguntas para uma lista de quadrinistas do Brasil. Publiquei as respostas nas colunas do mês de janeiro.

Falei com Pedro Cobiaco, Verônica Berta, Camilo Solano e Jéssica Groke na primeira, com Lelis, Ing Lee, Deborah Salles e Wagner Willian na segunda, com Gidalti Jr., Brendda Maria, Paulo Crumbim e Cris Eiko na terceira e com Gustavo Duarte, Laura Athayde, Alcimar Frazão e Luli Penna na quarta. Hoje é a última da série.

Quanto ao melhor de 2020, vale tudo: uma HQ inteira, uma página, uma tira, uma capa, uma charge, uma ilustração. Só pedi que me enviassem uma imagem.

Quanto a 2021, cada um pode interpretar como quiser, falando sobre a vida ou sobre trabalho.

BIANCA PINHEIRO E SUA LIXEIRA

“Comecei quatro gibis em 2020. Só um deles talvez veja a luz do dia”.

Bianca Pinheiro (Bear, Alho Poró, Graphics MSP da Mônica) me contou de um monte de projetos, mas não me deixou contar muita coisa. Tem aquela HQ sobre o marido morto, tem aquela que está praticamente certa com a editora tal, tem aquela que ela quer recomeçar do zero, tem umas que ela começou mas vai deixar para depois…

“Produzi quase 200 páginas de diversos quadrinhos que foram todos cancelados e para o lixo”, ela disse.

Algumas são colaborações com seu marido, o roteirista Greg Stella – eles assinaram juntos Sob o Solo, Eles Estão por Aí e outros. Perguntei se os projetos não poderiam dormir na gaveta, em vez de ir para o lixo.

O maior (em número de páginas) que a gente começou no ano passado definitivamente vai para o lixo hahahah! Foram feitas 70 páginas na segunda versão, mas a gente foi reler, vimos que elas estão horríveis. Então se ele chegar a ver a luz do dia, teremos que recomeçar do zero. Os outros dois não estão no lixo, mas engavetados. Hum... na verdade, um deles terá que ser refeito do zero também... caramba! Como a gente joga coisa fora! Mas o outro tem páginas boas (pelo menos por enquanto!)... então dá pra salvar!”

Mas há uma novidade que ela me autorizou a falar: o terceiro volume de Bear sai em março na França, com vinte páginas inéditas na edição brasileira. Lá, como você viu na capa, a série se chama Raven et l’ours (Raven e o urso) e é publicada pela Boîte à Bulles.

“Que a bagunça de 2020 tenha pelo menos servido de chacoalhão para nos deixar mais fortes”, ela concluiu no e-mail.

QUINTANILHA ROMANCISTA

Marcello Quintanilha (Luzes de Niterói, Tungstênio, Talco de Vidro) me perguntou se teria problema em falar de literatura numa coluna sobre quadrinhos. No ano passado ele lançou seu primeiro romance, Deserama“desejo + orama (do grego ‘o que se descortina’, ‘a vista’, ‘o espetáculo’)”, ele me explica – e parece que gostou de trabalhar sem figurinhas.

Respondi que não haveria problema algum, pois a pergunta era sobre o que os quadrinistas tinham de planos para 2021. Se iam fazer quadrinhos, literatura, bolo de cenoura ou jogar bola, me interessa.

Quintanilha já tinha escrito bastante prosa em Cidades Ilustradas: Salvador, de 2005, mas nunca tinha pensado em escrever literatura propriamente dita. “No entanto, antes que pudesse perceber, algumas frases soltas escritas no computador ganharam a companhia de outras frases e essas outras frases ganharam a companhia de outras tantas e, incontrolavelmente, cerca de 260 páginas foram escritas.”

Deserama se passa na Niterói dos anos 1990 e tem “pós-punk, indie e britpop transvazados por axé e pagode, tudo que embalou a juventude da classe semi-média da época na história de uma paixão capaz de pulverizar qualquer um que tenha experimentado sentimento parecido.”

Perguntei se havia a imagem que ele mais havia gostado de produzir em 2020.

“Essa escala não existe. Meu trabalho não se processa dessa forma. Não se trata de prazer, não se trata de curtição. Eu o vivo da forma mais intensa e completa que posso, e tudo que consigo fazer é a expressão do que eu sou.”

E planos para 2021?

“A vida nos ensina que não é prudente esperar nada de ninguém — nem de alguma coisa.”

ANA LUIZA KOEHLER VAI FICAR EM PORTO ALEGRE

Ana Luiza Koehler lançou um dos quadrinhos mais comentados do ano passado: Beco do Rosário, um desbunde de aquarela e de pesquisa sobre Porto Alegre nos anos 1920. Também foi uma produção imensa, que levou quase dez anos do início à publicação.

O próximo trabalho não vai demorar tanto. Koehler planeja para março o lançamento de “Música no Ar”, uma HQ curta, que vai sair na internet. Ela mandou a imagem acima de prévia.

Toda a pesquisa feita para Beco do Rosário vai continuar rendendo quadrinhos. “Meus planos para 2021 são produzir pelo menos mais duas histórias curtas no universo da história de Porto Alegre no início do século 20.”

THIAGO SOUTO: FANTASMAS, PACTOS, RITUAIS E MÚSICA CLÁSSICA

A primeira novidade do paulista Thiago Souto (Mikrokosmos, Por muito tempo tentei me convencer de que te amava): Labirinto, seu maior projeto até agora, vai ser relançado com páginas extras e por uma nova editora (que ele ainda não pode revelar).

A história de ficção científica e fantasia trata de um amigo procurando outro em um mundo de paisagens e criaturas espetaculares. Ganhou um prêmio Angelo Agostini em 2018 e foi publicado na Polônia no ano seguinte.

“Para o segundo semestre de 2021", diz o Thiago, "tenho o ousado plano de finalizar meu novo livro: uma aventura juvenil que envolve fantasmas, pactos, rituais e música clássica. Será meu maior trabalho: 350 páginas. Todo roteiro e layouts de páginas estão prontos e estou no desenho/arte final.”

O novo projeto ainda não tem nome fechado e a editora também é misteriosa. Mas 350 páginas de Thiago Souto valem toda espera.

MARVEL 616 E A PREGUIÇA DE DAN SLOTT

Estreou hoje na Disney Plus brasileira a série de minidocumentários Marvel 616, que mostra vários bastidores da Marvel, dos seus autores aos seus leitores. São oito episódios, não só sobre os quadrinhos.

Um deles gerou controvérsia por lá em novembro, quando estreou para os gringos. A polêmica foi basicamente em torno do profissionalismo de Dan Slott.

Slott é um roteirista cinquentão que está perto de fechar vinte anos exclusivos na Marvel. Passou mais de uma década escrevendo o Homem-Aranha, teve sucesso de crítica no Surfista Prateado (com Mike Allred) e andou circulando por Quarteto Fantástico e Homem de Ferro.

A proposta do episódio “O Método Marvel” era mostrar como se cria uma revista na editora, da concepção até a chegada na comic shop. Escolheram Homem de Ferro 2020 n. 1, que saiu no início de 2020 por lá (e até já foi publicada no Brasil).

Slott ainda usa o famoso “Método Marvel”: o roteiro que não é um roteiro, à moda Stan Lee. O escritor entrega uma sinopse da trama para o desenhista, o desenhista faz a decupagem e conta a história no desenho, depois essas páginas voltam ao escritor para criar os diálogos. A densidade da sinopse e o contato entre escritor e desenhista podem variar, mas é basicamente isso.

São poucos roteiristas que trabalham assim hoje em dia. As editoras costumam preferir o roteiro completo, já com decupagem e diálogos. Há inclusive a polêmica em relação a quanto este método soma à carga de trabalho (e à autoria) do desenhista.

Uma das tensões no minidocumentário é mostrar que, mesmo que use o método antiquado de roteiro – e que, digamos, facilita sua vida – Slott é demorado pra caramba. E não só em Homem de Ferro 2020.

Segundo o editor-executivo da Marvel, Tom Brevoort, os atrasos de Slott são crônicos. Tanto que ele tem uma espécie de suplente oficial, o escritor Christos Gage, que assume a função dos diálogos quando Slott atrasa demais. É o que acontece em Homem de Ferro 2020.

A editora Shannon Balesteros tem que ficar ligando para Slott e cobrar o roteiro. O artista Pete Woods (que faz desenho, arte-final e cores) fica de mãos abanando enquanto o roteiro não chega. O letreirista Joe Caramagna sabe que vai ter que fazer toda a diagramação da revista poucos dias antes de ela ir para a gráfica…

Então, por que um cara que desrespeita deadlines e prejudica as deadlines de vários colegas continua trabalhando para a Marvel há quase vinte anos? Essa foi a indignação de vários quadrinistas nas redes.

“Um monte de gente na Marvel ralando pra servir a um escritor branco e medíocre que não consegue cumprir prazo”, diz o tuíte de outra pessoa. “Acho que não precisamos mais discutir Dan Slott, pois parece que quem emprega ele se diverte com a mediocridade do homem”, disse uma crítica.

“Os editores nunca acham bonitinho quando eu perco o prazo só por capricho. Que inveja desse Dan Slott”, escreveu o desenhista Ramon Villalobos no Twitter (que depois complementou, dizendo que não estava criticando Slott, que também atrasa e sabe que o colega também sofre quando atrasa).

Matérias no Bleeding Cool e na C|Net reúnem estas e outras reações ao documentário. O site Bleeding Fool (atenção no “f”) também, e diz que as outras matérias sobre o assunto passam pano pra Slott.

Muita gente veio na defesa do escritor, como os já citados (e teoricamente prejudicados) Christos Gage, Pete Woods e Joe Caramagna. “Sinceramente, essa edição foi muito parecida com todas que eu já fiz. Aliás, já tive situações bem, bem mais estressantes”, escreveu Woods, o desenhista.

“Se vocês ficaram nervosos com minha parte no [documentário], imaginem se não tivessem cortado a parte em que eu falei de letreirar uma edição na sala do parto enquanto minha esposa dava à luz…”, disse o letreirista Caramagna, complementando que a situação limite não foi com um gibi de Slott.

Há quem conclua que o episódio é uma encenação, algo que foi exagerado para dar drama e tensão ao processo de criar um gibi – e que Slott não é tão incompetente quanto o documentário pinta.

Mas, mesmo se os atrasos constantes de Slott forem uma realidade que afeta todos os colegas, no próprio documentário Tom Brevoort fala por que ainda trabalha com o roteirista: “A sorte do [Slott] é que ele é tão bom no que faz que compensa ele ser seu próprio inimigo quando se trata de produzir alguma coisa dentro do cronograma.”

Ou, como complementa Pete Woods: “O Dan vende uma cacetada de gibi e nunca atrasa tanto a ponto de virar problema.”

Marvel 616 ainda tem dois episódios muito bons sobre quadrinhos: “Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido”, sobre a criação de Kamala Khan, e “Artistas Incríveis”, focado no cotidiano dos artistas espanhóis Javier Garrón (Miles Morales) e Natacha Bustos (Moon Girl and Devil Dinosaur). O episódio sobre o Homem-Aranha japonês também tem seus momentos. Mas esse sobre Slott, com todos seus defeitos, é histórico.

DE ALAN MOORE PARA BRIAN K. VAUGHAN PARA BOB WIACEK

Em 1997, Alan Moore escreveu uma HQ de Gen13 para a editora Wildstorm. Começou o roteiro e nunca terminou. Enviou 35 páginas datilografadas para o editor Scott Dunbier, via fax, e Dunbier guardou na gaveta.

No mês passado, Dunbier leiloou o roteiro no eBay com consentimento de Moore. Quem ganhasse ficaria com as páginas impressas. A grana arrecadada iria para Bob Wiacek, arte-finalista veterano que está com glaucoma e precisando de ajuda financeira para o tratamento.

Quem ganhou o leilão? Brian K. Vaughan, o roteirista multipremiado de Saga, que pagou US$ 3433 (mais de R$ 18 mil) pelas páginas de Moore. E deu um passo além: escaneou as páginas e as disponibiliza em PDF a todo fã que doar qualquer quantia ao fundo de apoio a Bob Wiacek. Tem detalhes no post do Instagram, abaixo.

Segundo Vaughan, o roteiro inacabado de Moore “é uma sátira surreal a X-Men, Novos Titãs e a todo o mercado daquela época, e Moore raciocina mais sobre a descrição de cada quadro do que nós costumamos raciocinar a respeito de uma série inteira.”

VIRANDO PÁGINAS

Sal Buscema completou 85 anos na última terça-feira, dia 26. Irmão mais novo de John Buscema (1927-2002), ele entrou na Marvel em 1968 e praticamente nunca mais saiu, tendo passagens memoráveis por Homem-Aranha, Hulk, Capitão América e todo personagem da editora. Continuava na ativa pelo menos até 2019, mas espero que esteja curtindo a aposentadoria.

(Eu tinha vontade de pular histórias do Sal Buscema quando era criança. Demorei para reconhecer a clareza narrativa, a economia no traço. A página acima, com roteiro de J.M. DeMatteis, é minha preferida do aniversariante.)

Daredevil n. 227, o primeiro capítulo de “A Queda de Murdock” por Frank Miller e David Mazzucchelli, saiu em fevereiro de 1986, há 35 anos. É a história mais importante do Demolidor? Acho que sim.

Em fevereiro de 1996, há 25 anos, a Editora Abril encerrou a revista Vertigo após doze edições que – segundo a boataria – vendiam bem, mas deixaram a alta cúpula da editora chocada com o nível de terror e violência. A edição reunia a minissérie completa Sebastian O, de Grant Morrison e Steve Yeowell, e uma história de John Constantine por Garth Ennis e Steve Dillon.

UMA CAPA

De André Diniz, em Revolta da Vacina, sua nova graphic novel recém anunciada pela editora Darkside. A história gira em torno da revolta contra a vacina compulsória de Oswaldo Cruz para combater várias doenças no Rio de Janeiro no comecinho do século 20. Tema apropriado para hoje. Sai no mês que vem e está em pré-venda aqui.

OUTRA CAPA

De Camilo Maia, a partir de uma pilha de ilustrações de quadrinistas brasileiros, para o Brazil Comics Catalogue / Catalogue BD Brésil. O que você vê acima é só um quarto: clique aqui para ver completa.

Com textos em inglês e francês, o livro apresenta 100 álbuns ou projetos do quadrinho brasileiro e vai circular entre editores, leitores e interessados do mundo inteiro – em edição impressa (limitada) e na versão digital que será disponibilizada a partir de amanhã. Amanhã, aliás, é Dia do Quadrinho Nacional.

[ATUALIZADO:] O Catálogo está disponível para download neste link.

O Catalogue é um projeto do Ministério das Relaçoes Exteriores junto ao Consulado Geral do Brasil em Montréal e à Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Eu fui o editor convidado.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

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