Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Crise criativa ou crise no bolo?

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Crise criativa ou crise no bolo?

A equity e a diferença entre trabalho autoral e nas grandes editoras de HQ

Érico Assis
09.10.2020
17h11
Atualizada em
09.10.2020
22h54
Atualizada em 09.10.2020 às 22h54

Fala-se muito em crise criativa nos quadrinhos de super-herói. Que há tempos não se tem grandes HQs, novos clássicos, nem se cria um grande personagem. Que os filmes, os games ou a TV tratam o Homem-Aranha e o Batman melhor que uma fila de roteirista e desenhista de gibi. É estagnação de ideias ou outro problema?

É outro problema. Como tanta coisa no mundo, é um problema de grana.

Ou melhor: de quem fica com a grana. A crise não é de criatividade. É de divisão do bolo.

Jack Kirby e criações.

Você deve conhecer a história dos criadores do Superman, que venderam o personagem por cento e poucos dólares e passaram a vida tentando conseguir uma fatia dos bilhões que Super rendeu. Ou de Jack Kirby, responsável por metade ou mais do sucesso da Marvel Comics, que também não participou dos lucros com Capitão América, Hulk, X-Men, Vingadores etc. etc. etc.

São várias histórias iguais com autores. Apesar de alguns avanços, elas seguem acontecendo.

Mas houve avanços. Sobre eles, em linhas gerais:

- Hoje, se você trabalha para a Marvel Comics, você recebe um valor por página trabalhada. Se o seu gibi vender muito, mas muito, você ganha mais uns trocados. Se o seu gibi virar enredo do filme do Thor ou seu personagem ganhar seriado na Disney+? Você ganha special thanks na tela e é isso. Há raras exceções.

- Hoje, se você trabalha para a DC Comics, você recebe um valor por página trabalhada. Se o seu gibi vender muito, mas muito, você ganha mais uns trocados. Se o vilão que você criou entrar no filme do Aquaman ou a trama do seu gibi virar um episódio de Flash? Você pode ganhar mais que uns trocados. Há exceções.

Impulso

Quando um gibi vende muito, os autores dividem os lucros com a editora. Chama-se isso de royalties. As editoras preferem chamar de incentives, porque royalty implica em propriedade. Mas deixo para explicar os royalties ou incentives em outra coluna. É uma matemática complicada.

A participação nos lucros em adaptações – quando o personagem que você criou vira filme, seriado, game, estátua, boneco, pôster, lancheira, camiseta, cama, mesa e banho – chama-se equity. É tipo uma participação acionária: você é dono de um pedacinho daquele personagem. Os contratos da Marvel não costumam prever equity; os da DC, sim.

Quanto isso rende? Os contratos são sigilosos e ninguém gosta de falar de quanto ganha. Mas, em 2013, o roteirista Mark Waid explicou o seguinte:

“Peguem o Impulso, personagem que criei com o artista Mike Wieringo. Eu e o Mike assinamos um contrato que nos rende uma porcentagenzinha de todo lucro que a DC tiver com bonequinho articulado do Impulso, com produto licenciado, quando ele aparecer no desenho da Justiça Jovem ou em Smallville, esse tipo de coisa. Não é grana que dá pra comprar um barco; tiro uns duzentos, trezentos dólares quando lançam um boneco (por conta da equity) e uns centavos a cada lançamento de coletânea do gibi ou venda no digital (por conta dos royalties). Mas isso vai se acumulando, chega na minha conta e paga um restaurante bom a cada dois, três meses.”

Com o investimento crescente da DC no audiovisual, esses pagamentos de equity cresceram. Em 2015, o roteirista Gerry Conway pediu ajuda dos fãs para lembrar aos autores, principalmente os que já saíram do mercado, quando um personagem obscuro fosse usado em Arrow, Flash, Legends of Tomorrow etc. Cada aparição da Katana ou do Anti-Monitor rende uns caraminguás a escritores e artistas da velha guarda.

Mas ainda são caraminguás, ninharias em comparação a outros mercados. Jason Momoa ganhou mais para interpretar Aquaman do que o total que se pagou a todos os quadrinistas que trabalharam em Aquaman desde 1940 e bolinha. E Momoa tem participação no bilhão que Aquaman fez na bilheteria, assim como têm roteiristas, produtores e outros atores envolvidos no filme. Os sindicatos de Hollywood ajudam a garantir essa participação, que costuma render mais que caraminguás.

(Os quadrinhos não têm sindicato nos EUA. Isso é outra história.)

A Marvel Comics, como dito acima, não costuma pagar equity. Mas há exceções. Em 2013, Len Wein ganhou “um bom cheque” da editora, como uma espécie de agradecimento pelo desempenho de Wolverine no cinema – Wein criou Wolverine junto a dois artistas em 1974. O contrato dele não previa essa equity e a Marvel só agiu de bom grado (depois que Wein reclamou, vale lembrar).

Rob Liefeld diz que tem participação em Deadpool, num dos poucos contratos de equity que a Marvel assinou na história da editora. Acredita-se que Brian Michael Bendis tenha equity de Miles Morales/Homem-Aranha e Riri Williams/Coração de Ferro, mas os contratos são sigilosos. Em Escrevendo para Quadrinhos, livro recém lançado no Brasil, Bendis reforça que autores devem prestar atenção no contrato e pedir participação quando criam propriedade intelectual rentável para uma editora grande.

Riri Williams por Mike Deodato

O brasileiro Mike Deodato, que passou 24 anos trabalhando para a Marvel Comics, não tem equity em nenhum personagem que criou para a editora, como o Patriota de Ferro, a agente da S.H.I.E.L.D. Victoria Hand, nem a já citada Coração de Ferro. Tem special thanks nos créditos de Agents of S.H.I.E.L.D. e Marvel Rising: Ironheart, porém.

Na fase atual da carreira, porém, Deodato investe em somar propriedades. “O que eu aprendi nesse mercado é que tudo é negociável”, disse, em conversa com a coluna. Berserker Unbound, por exemplo, é propriedade totalmente sua e do roteirista Jeff Lemire, que a Dark Horse Comics publica praticamente como uma licenciada. Se Berserker virar filme, seriado, bonecos, publicação no exterior ou outro produto derivado, todo rendimento é de Deodato e de Lemire.

Do mesmo modo, as colaborações do brasileiro com a nova editora AWA Studios, por mais que virem propriedade da editora, também preveem equity. “Como estou na criação de The Resistance [com o roteirista J.M. Straczynski], qualquer menção a qualquer personagem, em qualquer filme que venha a ser produzido, me rende uma participação”.

Outro artista brasileiro, Rafael Albuquerque, tem experiência com participação desde que criou Vampiro Americano, junto a Scott Snyder, para a DC/Vertigo, em 2010. No caso, ele tem 50% dos direitos da série – o que nem se chama de equity, mas de propriedade intelectual.

Aliás, foi um dos últimos contratos com essa participação dos autores na Vertigo. Logo depois, a linha começou a oferecer contratos mais restritos, de olho no uso próprio da Warner. A Vertigo foi encerrada este ano e a DC, a princípio, não tem mais um selo que lance projetos autorais.

Vampiro é propriedade minha e do Scott, e a DC tem uma espécie de licença para publicar”, ele disse durante conversa com a coluna – enquanto desenhava Vampiro Americano 1976, última saga da série. Se Vampiro virar filme ou seriado, quem dá as cartas e recebe os lucros são ele e Snyder.

Huck, que Albuquerque criou com Mark Millar, também foi criada no esquema 50/50. Quando Millar vendeu suas criações para a Netflix, Albuquerque recebeu metade do valor pelo personagem. (Prodígio, outra criação de Millar e Albuquerque, foi desenvolvida a serviço da Netflix.)

O desenhista diz que também criou personagens secundárias em HQs do Besouro Azul e de Batman, mas que, até agora, não foram reutilizadas nem lhe renderam nada.

Fala-se muito na Image Comics como um paraíso no quadrinho norte-americano, onde realmente se encontra muitas ideias e personagens novos, além de autores que ficam com a propriedade e o lucro do que criam. Uma coisa tem a ver com a outra.

O contrato padrão da Image é único no mercado: se você é autor, vai ter que pagar uma taxa fixa por cada gibi que publicar com eles. Se você vender dez gibis ou dez milhões de gibis, a taxa é a mesma – e não é um percentual, é fixa.

A Image não tem participação nos seus lucros, ela só administra a publicação: imprime, faz chegar nas lojas, ajuda na divulgação. Se o gibi virar filme, seriado etc., qual é o percentual da Image? Zero. É tudo dos autores e autoras.

Se a Image oferece tudo isso, por que ainda tem gente trabalhando para Marvel e DC? Bom, por vários motivos. A Image não aceita qualquer projeto, pois há um processo de seleção editorial. E embora Saga, Walking Dead e Criminal tenham milhões de gibis em circulação, sua série autoral na Image também pode vender nada – e te deixar em dívida com a editora.

Mas o principal motivo é que, na Image, você não está trabalhando em gibis do Deadpool nem da Arlequina, que têm venda mais do que considerável só pelo título na capa. E você vai receber por cada página de Deadpool ou Arlequina, independente de quanto venderem. Não há risco.

Vale o mesmo para Dark Horse, Comixology Originals, Boom! ou outras editoras que têm oferecido contratos similares aos da Image. Mesmo que algumas paguem adiantamentos, o autor corre um risco – e recebe menos do que a grana garantida de um trabalho para Marvel ou DC.

Para cada Mark Millar ou Robert Kirkman de sucesso, há dezenas de autores que não conseguem fechar a conta de seu projeto autoral.

Página de Berserker Unbound.

“Tenho que planejar minhas finanças para fazer um quadrinho autoral”, diz Rafael Albuquerque, “porque naqueles meses não vou receber muito bem. Tento fazer um ou dois projetos pra DC, seguro uma grana, aí posso passar metade do ano fazendo um projeto autoral.”

“A vantagem é a liberdade criativa”, ele segue. “E a gente tenta vislumbrar um lucro a longo prazo.”

Fora um adiantamento da Dark Horse, Berserker Unbound – lançada no ano passado – ainda não rendeu para Deodato e Lemire. “A Dark Horse tem que tirar a despesa dela, e depois de se pagar é que ela passa pra gente. Mais para a frente, tudo será meu e do Jeff”, diz Deodato.

“Ninguém se interessa em fazer um Piada Mortal novo, um novo Cavaleiro das Trevas”, conclui Albuquerque. “Tanto a DC não arrisca mais quanto não faz sentido contar uma baita história na DC. É melhor fazer seu Batman genérico e lançar na Image.”

O que interessa para editoras grandes, segundo o desenhista, é fazer manutenção dos ícones. “Duvido que surja outro Vampiro Americano no DC Black Label ou onde for. O coração da DC, agora, é o audiovisual.”

A crise criativa não vem da falta de criatividade. A crise criativa é consequência da divisão do bolo.

O bolo do rendimento com quadrinhos cresce a passo curto quando se fala só em vendas de gibi, mas a passo largo no mercado audiovisual e de outras adaptações dos gibis. A fatia dos autores e autoras é uma fatia para quem está de dieta. Isso quando eles e elas recebem um pedaço do bolo, que não é sempre.

Vários outros mercados criativos nos EUA – literatura, música, cinema, TV, até publicidade – pagam melhor ou têm um sistema de divisão do bolo mais convidativo. Mercados de quadrinhos como o franco-belga e o japonês são mais generosos com o bolo. As grandes dos EUA seguem remunerando mal os Jack Kirbys e torcendo que não aconteça motins como o que gerou a Image Comics, trinta anos atrás – criada justamente por causa das fatias de bolo muito finas. 

Vale lembrar toda vez que você ler um gibi e se perguntar por que DC e Marvel não geram mais clássicos: não há falta de criatividade. Há falta de noção na hora de dividir o bolo.

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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