Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

Mais Carniça, #@*%!!!, a primeira lista de melhores do ano e Sean Connery de gibi

Érico Assis
06.11.2020
18h29

“É o termo que se inventou para os adultos não acharem que estão comprando gibi”, disse Joe Sacco. “É o gibi que você tem que ler com marcador de livro”, disse Art Spiegelman. “O povo tem medo de dizer essa palavra, ‘comics’. Porque aí vem aquela imagem do homem adulto com espinhas, rabo de cavalo e pança. Se você troca por ‘graphic novel’, essa imagem vai embora”, disse Marjane Satrapi.

Graphic novel é um termo que ainda gera discussão. É marketeiro, não é nada preciso, joga um nome pomposo numa coisa que já tem nome – quadrinhos, gibi, comics – que, sim, carrega um monte de preconceitos, mas que tal combater o preconceito? Grefic nóveu é um termo nutella.

Um novo livro quer se meter nessa discussão, com coragem e com muita referência. Nobu Chinen, o professor paulistano, autor dos ótimos HQ Conceitos Básicose Linguagem Mangá: Conceitos Básicos – e um dos organizadores das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos anualmente na USP – agora ataca de Graphic Novel: Conceitos Básicos, pela Editora Criativo.

Muitíssimo ilustrado, o livro vai desde a origem do termo, passa pela importância de Will Eisner como seu difusor (muita gente acha que ele inventou graphic novel, mas não foi) e encara o panorama atual, em que se chama Walking Dead de graphic novel.

“Eu fiz um levantamento em cerca de 40 livros que, de alguma forma, tentam definir o termo”, Chinen explicou por e-mail. “O que os acadêmicos gostariam é que se aplicasse a obras fechadas, mais extensas e com temática mais madura, ou seja, um romance gráfico. Mas o mercado (editoras e livrarias) usa como um nome pomposo, justamente nutella, para valorizar um produto. É uma maneira de aproximar quadrinhos da literatura, considerado um campo mais nobre.”

Nem autores, diz Chinen, gostam de dizer que “estou escrevendo ou desenhando uma graphic novel”. Mas o marketing é forte, as duas palavrinhas já têm história e, de uns tempos pra cá, as livrarias colaram letrinhas de vinil dizendo “graphic novel” nas prateleiras.

E, já que estamos discutindo graphic novel, diz Chinen, por que não discutir outros termos ruins pra falar em quadrinhos? “Aproveitei para comentar outras denominações igualmente imprecisas como comics, comic book, bande dessinée e historieta. Tudo para defender o quanto considero ‘história em quadrinhos’ um nome muito adequado e que define bem o fenômeno a que se refere.”

O livro está à venda pela Editora Criativo.

CARNIÇA

“Enfie o punhal pelo vão da saboneteira. Deixe escorregar devagar até o coração. Olhe na cara dele e sustente. Olhe no olho dele até estrebuchar. Depois limpe o punhal e guarde com você. Ele agora é seu.”

É graphic novel? Pode ser. Carniça e a Blindagem Mística, novo trabalho de Shiko, se encaixa.

Na descrição curta que foi divulgada, o álbum é o primeiro de três que vão contar “a história do bando mais improvável do cangaço”. Pedi pro Shiko explicar:

“É basicamente uma ficção fundamentada na realidade, em pesquisa histórica. Ficcionalizando a realidade.”

Os cangaceiros da HQ são baseados em vários personagens históricos, sobretudo a partir das leituras que Shiko fez dos pesquisadores Frederico Pernambucano de Mello (Guerreiros do Sol: o banditismo no nordeste do Brasil, Estrelas de couro: a estética do cangaço) e Adriana Negreiros (Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço).

“Peguei coisas que aconteceram com personagens históricos, mas condensei tudo numa linha narrativa com personagens mais definidos”, diz Shiko. “Essa estrutura de roteiro ficou clara pra mim depois de uma conversa com André Toral”, ele complementa, citando outro quadrinista brasileiro que mistura pesquisa histórica e ficção (Holandeses, A Alma que Caiu do Corpo). “Devo muito ao Toral por ter criado coragem de fazer um quadrinho dessa maneira.”

O novo trabalho do autor paraibano está à venda com o próprio, aqui. Segundo sua assistente, Maíra Costa, nas primeiras 24 horas de pré-venda, foram 350 exemplares. A tiragem aumentou para 500 e esgotou em uma semana. No momento, eles estão pensando em tiragem de 750, mas mais de 80% já está comprometida.

Carniça começa a chegar aos compradores no início de dezembro. O segundo e o terceiro volume estão previstos para março e julho de 2021. Tem mais do preview no Twitter do Shiko:

UMA SUCESSÃO DE CENAS E EVENTOS QUE, ISOLADAS, FAZEM TODO SENTIDO

Se entendi direito, o título é #@*%!!! O autor é o gaúcho Diego Gerlach. É uma das pérolas de quadrinhos de 2020.

Em raro momento de autobiografia, Gerlach, a seu estilo Condorito via Crumb, contou sua vida na pandemia e as perdas que sofreu nesses meses. É engraçadíssima e ao mesmo tempo toca fundo em quem está vivendo entre quarentena, medo e o noticiário irreal: todos nós.

Você lê no site do Instituto Moreira Salles, dentro do “Programa Convida”.

OS MELHORES DO ANO

Ainda é início de novembro, mas as listas já começaram. Como o calendário de lançamento de livrarias acabou nos EUA, a Publishers Weekly já escolheu seus melhores de 2020. Incluindo cinco quadrinhos:

  • Come Home, Indio: A Memoir, de Jim Terry: autobiografia, sobre crescer entre pais divorciados, incluindo uma mãe indígena na reserva
  • I Know You Rider: A Memoir, de Leslie Stein: parte de uma série autobiográfica da autora, que agora conta sua experiência com um aborto.
  • Kent State: Four Dead in Ohio, de Derf Backderf: o autor de Meu Amigo Dahmer faz uma reportagem sobre quando a Guarda Nacional abriu fogo contra manifestantes numa universidade dos EUA nos anos 1960.
  • A Solidão de um Quadrinho Sem Fim, de Adrian Tomine: cenas da carreira do quadrinista, do ridículo ao tocante.
  • Paying the Land, de Joe Sacco: o pai do jornalismo em quadrinhos enfoca os Dené, o povo indígena do norte do Canadá, sua história e como lidam com os tempos modernos.

Parece que a ficção esteve em defasagem nos quadrinhos este ano. Todos são autobiografias ou reportagens.

Além de Solidão, que já saiu aqui pela Nemo, o álbum de Sacco sai no Brasil no ano que vem. Pelo menos.

PORNOCHANCHADA LICANTRÓPICA

“Pornochanchada quadrinística”, diz o editor Márcio Paixão Jr. na apresentação de O Lobisomem Errante, trabalho inédito de Julio Shimamoto que sai pela editora MMArte.

É uma boa descrição da HQ, que foi feita há anos para um zine, mas acabou não saindo. “Acho que a editora ficou meio constrangida”, diz Shimamoto (81 anos), que a encontrou recentemente arrumando as gavetas.

Com 40 páginas e formato horizontal (9 x 21 cm), O Lobisomem Errante começa a ser vendida hoje exclusivamente no site da editora MMArte, por R$ 35. A tiragem é limitada a 220 exemplares e todos virão acompanhados de uma gravura em serigrafia de Shimamoto, numerada e assinada, da imagem acima.

CARA DE GIBI

Em 1960 ou 1961, Sean Connery estava no camarim de um teatro, com um amigo que lia as tiras do Daily Express. O amigo comentou: “Olha aqui, o James Bond é a sua cara”, apontando para a versão de 007 em quadrinhos. “Parece que vão fazer filme, quem sabe você se candidata?”

Ninguém confirma a anedota, mas tem grandes chances de ser verdade. O jeito como John McLusky (1923-2006) desenhava James Bond nos jornais – em adaptações dos livros de Ian Fleming – lembrava muito aquele ator escocês, então desconhecido. Pode ter sido inspiração. Ninguém sabe.

A anedota foi lembrada pelo crítico Paul Gravett no último sábado, quando Connery faleceu. Se a história for verídica, foi graças a uma tira que ele pôde nos deixar tranquilo, dormindo, com uma carreira de peso, aos 90 anos, numa ilha das Bahamas.

UMA CAPA

De Justice League International Omnibus volume 2, saindo agora nos EUA. Kevin Maguire, o desenhista icônico da “Liguinha” escrita por Keith Giffen e J.M. DeMatteis, foi recontratado para fazer o que faz de melhor: caras e bocas. E postou no Twitter a versão completa:

UMA PÁGINA

Duas. De Mundo Mulher, da canadense Aminder Dhaliwal, que acabou de sair pela Conrad (com tradução de Giu Alonso).

Lançado inicialmente como webcomic, o álbum imagina o que acontece quando uma doença extermina todos os homens. Numa das primeiras reuniões do mundo 100% feminino, elas escolhem sua bandeira: as coxas da Beyoncé.

 

(o)

 

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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