Enquanto Isso | Como escolher o que comprar

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Enquanto Isso | Como escolher o que comprar

E Rodolphe Töpffer, Jeff Smith pré-histórico, Barry Windsor-Smith monstruoso e mais

Érico Assis
23.04.2021
15h58
Atualizada em
23.04.2021
19h14
Atualizada em 23.04.2021 às 19h14

A Pipoca & Nanquim anunciou mais de dez lançamentos até o fim de 2021. A Mythos vai lançar 50 volumes de Ken Parker. A Skript promete nova edição de Krazy Kat. Shiko garante Carniça 2 pro mês que vem. O Catarse está cheio de projetos que vale a pena financiar e de autores acompanhar, como a Ilustralu e o Pablito. A Ugra bota vários independentes na loja todo mês. A Conrad tem brasileiros toda semana. Daqui a pouco a Darkside solta uma nova leva, assim como a Veneta, assim como a Figura, assim como a Novo Século, a NewPop, a Comix Zone, a Devir, a Nemo, as enchentes mensais da Panini e tudo mais, mais e mais.

Calma. Você curte quadrinhos, tudo aí é quadrinho, mas ninguém compra tudo que é quadrinho. Não é só porque não existe bolso para comprar tanto quadrinho, nem prateleira pra guardar tanto quadrinho, nem tempo pra ler tanto quadrinho. Além desses limites, você deveria dar atenção ao limite maior: seu gosto em quadrinhos.

Carniça e a Blindagem Mística 2, de Shiko

Lembro de uma matéria do Universo HQ, há coisa de uns 15 anos, anunciando que não havia mais como comprar todos os lançamentos em quadrinhos no Brasil. Pra quem cresceu nos anos 1990 ou antes, isso era novidade.

Se você quisesse comprar todos os gibis lançados no Brasil em abril de 1996 – mas todos mesmo – você gastaria em torno de R$ 170. Mesmo com a correção da inflação, que subiria esse valor para uns R$ 750, é pouco comparado ao que se lança e se cobra hoje. Só os checklists da Panini em abril de 2021 somam mais de R$ 4 mil.

Existe alguém que compre tudo isso? Improvável. E ainda bem que é assim. Quadrinhos estão longe de ser uma coisa homogênea, uma categoria de gosto único. Quadrinhos são uma mídia. Ninguém ouve todas as músicas, assiste todos os filmes, joga todos os games. Nem quer.

Se houve época em que era possível comprar e ler todos os quadrinhos no Brasil, era porque o mercado era limitado. Bastante limitado. Hoje, felizmente, tem quadrinhos para vários gostos.

Arlindo, de Ilustralu (Seguinte)

“Mas o problema, doutor, é que meu gosto é caro.”

Calma. Em primeiro lugar, eu estou falando de gosto, e não de colecionismo nem de lombadeirismo. De ler, não de exibir na estante. Dou todo apoio a quem quer exibir sua estante, mas não aqui. Pra ser colecionador ou lombadeiro, você precisa de outras estratégias e outros bolsos.

Querer ler agora o que está sendo lançado agora e que chama sua atenção agora – mas que bate no limite do seu bolso. É disso que eu quero falar.

Vamos começar por esse limite: o bolso. Acho que aquela estratégia de chegar na banca ou na loja, escolher a capa que atiça os olhos e, se couber no dinheiro contadinho, sair dali lendo já não é o comum para o brasileiro. Imagino que o mais comum do leitor atual é fuçar gibis na tela de uma loja virtual e escolher o que vale a pena ler daqui a uma semana ou mais. Só não mudou o dinheiro contadinho.

Mas como se faz esse contadinho valer? Como escolher e não cair em roubada por conta de promoção, de nome, de marketing, de hype?

Calma.

Monstro do Pântano por Alan Moore vol. 1 (Panini)

Gosto de quadrinhos desde que eu me entendo por gente. Faz uns trinta e poucos anos que eu comecei a escolher quais gibis comprar de acordo com o que a mesada deixava. Por um lado era mais fácil, porque a oferta era menor; por outro era mais difícil, porque o bolso era mais curto.

Teve choro para a mesada dar conta de tudo que é Marvel ou DC. Teve fases de comprar só Marvel, fases de comprar só DC. Teve os natais de ganhar dinheiro da vó e arriscar num Almanaque da Mônica ou da Disney. Em época de monopólio da Abril, dava para seguir quase tudo da Abril. Se saía algo por outra editora, eu tinha que parar e pensar – até porque as outras eram mais caras. Doía, mas era o que o bolso mandava.

Depois de uns 15 anos comprando religiosamente, mensalmente, parei assim que comecei a me sustentar. Não teve discussão, só a obrigação. Coincidiu com o começo da explosão de quadrinhos em livraria. Eram gibis mais caros, mas eu não compraria todos nem se quisesse. Descobrir que eu não precisava de alguns gibis foi um grande momento na vida.

Com renda decente, achei um vício pior: importados. Tudo que era minimamente interessante entrava no carrinho, geralmente em pré-venda. Foi uma febre. Montei várias coleções. Também tenho muito gibi que eu comprei em 2006 e ainda não li.

Green River Killer (Darkside)

Teve uma conjunção de fatores que me fez mudar: vergonha de colocar mais estantes na casa, consciência de que eu não vou conseguir ler e reler tudo e, é óbvio, o dólar – que afeta não só os importados, mas também os preços no Brasil.

Com isso, me dei conta de que eu nem gostava de tudo que eu achava que gostava. Se antes eu tinha uma lista de uns 20 ou 30 autores que comprava sem pensar, hoje dá para fazer essa lista com uma mão. Não deixei de acompanhar os outros e as outras, de vez em quando. Só não tenho pressa. Espero para saber se o novo gibi da Alison Bechdel ou do Frederik Peeters vale a pena.

O hype – a “graphic novel do ano”, “você precisa na sua coleção”, “a consagração do gênio”, “a edição definitiva” – é só hype. As editoras brasileiras aprenderam a pegar pesado no hype nos últimos anos, copiando a terra do hype: os EUA, que pegam ainda mais pesado. E hype é o que a editora e o autor tem que fazer, então você precisa aprender a não dar bola.

Às vezes eu caio no hype. Às vezes ainda faço umas compras por impulso. Ainda acontece de eu comprar por colecionismo, inclusive por lombadeirismo. Mas estou aprendendo, espero.

Ilha dos Cachorros

Como escolher o que comprar? Como navegar nesse lamaçal de lançamentos “imperdíveis”, “definitivos”, “desconto só na pré-venda”?

Com essa palavra que eu já usei várias vezes: Calma. E com crítica.

Calma. Não há editora em nenhum lugar do mundo com 100% do catálogo feito para o seu gosto. Não se afobe a comprar tudo da editora X, mesmo que a pré-venda prometa um desconto que nunca vai se repetir. Vai se repetir sim. Espere o lançamento. Espere as críticas. Se esgotar e for bom mesmo, vai voltar.

A mesma calma vale com autores e autoras. Eles e elas não são seres constantes, que sempre vão ficar no nível daquele gibi que já fizeram e que você ama. Eles também têm direito a um ponto baixo na carreira, elas também podem se arriscar e fazer feio. Também pode acontecer de você deixar passar o quadrinho novo do bambambã e todo mundo achar que esse quadrinho novo é o segundo advento. Mas tudo bem: você vai ler depois de todo mundo, mas vai ler. Calma.

E a crítica é importante. Começando pela sua autocrítica, de olhar pra sua estante e pensar na leitura que você curtiu mesmo.

Depois, tem a crítica que você delega pros críticos. No Brasil, estamos numa fase de quantidade de críticos que nunca existiu, via youtube, instagram, sites, jornais, revistas. É óbvio que você não vai ler todas as críticas. Mas pode adotar críticos que lhe parecem consistentes no gosto e que fecham com o seu gosto.

Se você ainda não tem um crítico do coração, procure. Provavelmente o primeiro vai te decepcionar, o segundo vai fechar com o que você gosta mas aí vai recomendar um gibi terrível, e o terceiro também. Mas quando você chegar no quarto crítico – aquela menina, a de óculos, a do canal do YouTube que ainda vai crescer –, você vai saber dosar quando deve seguir o que ela diz e quando não deve. E pronto: aí está sua pauta para as compras.

O Retorno do Messias (Comix Zone)

Falei em “precisar” de certos gibis, mas você sabe que o que a gente precisa mesmo é de ar, água, proteína, carboidrato, teto, amigos, respeito e fazer alguém rir de vez em quando. O resto é extra. Ninguém “precisa” de gibis.

Mas, se você está lendo uma coluna que nem essa, você sabe que “precisa” sim. Real do Takehiko Inoue vem aí, o novo da Liv Strömquist é muito bom, o próximo dos Irmãos Solano promete, de quando em quando tem novidade da Eleanor Davis, do Chris Ware, do Marcelo D’Salete, vai aparecer mais uma edição “definitiva” do Little Nemo e um dia a Laerte vai acabar aquela graphic novel.

Já tenho meu dinheiro contadinho e separado para esses que eu “preciso”. Você deve ter para os seus “precisos”. Que ótimo. Quanto a todo o resto, todo o universo de lançamentos, de hype, de imperdíveis: calma e crítica.

TÖPFFER E A FAMA

O suíço Rodolphe Töpffer precisou ter calma. 175 anos depois de morrer – um pouco mais desde que ele inventou os quadrinhos mais ou menos como a gente conhece hoje –, Töpffer vai entrar para o Hall da Fama do Eisner Awards, maior prêmio de HQ nos EUA. A organização do prêmio anunciou os novos componentes do Hall no mês passado.

Os juízes do Eisner indicam seis nomes que entram automaticamente para o panteão. Töpffer foi um; Thomas Nast (1840-1902), também dos precursores das HQs, foi outro. Lily Renée Phillips, uma das primeiras mulheres a trabalhar com HQ nos EUA, também entrou – ela ainda está viva e completa 100 anos daqui a vinte dias. Alberto Breccia (1919-1993), o mestre argentino que está sendo redescoberto no mundo inteiro (inclusive no Brasil), também entrou.

É curioso que tem vários nomes não-americanos na lista, departamento em que o Eisner costumava ficar devendo. Que bom.

Há mais 16 indicados em quem os associados do Eisner podiam votar. Os quatro mais votados entrarão para o Hall. As opções incluem Neil Gaiman, Scott McCloud, Moto Hagio e Dave Cockrum.

Os Eisner Awards 2021 serão anunciados em 23 de julho durante a Comic-Con@Home de San Diego. Quem quiser conhecer Töpffer, o novo velho famoso, pode conferir a coleção de material do suíço que saiu recentemente no Brasil pela Sesi-SP.

JEFF SMITH HÁ 2 MILHÕES DE ANOS

O criador de Bone ressurgiu com um projeto grande depois de anos. É Tuki, um personagem que vive na época em que ainda não se sabia qual raça de humanos ia sobreviver – e da invenção do fogo.

O material vai sair em duas graphic novels, TUKI: Fight for Fire e TUKI: Fight for Family via Kickstarter (o Catarse gringo). A campanha de arrecadação começa em 5 de maio e o lançamento das duas HQs está previsto para julho e outubro. Como campanha de HQ no Kickstarter está na moda nos EUA – e com o nome de Smith – acho que ninguém precisa se preocupar se o projeto vai virar.

Tuki começou há quase dez anos. (Eu mesmo escrevi sobre Tuki pro Omelete em 2013.) Smith chegou a publicar parte do material online e lançou uma edições impressas, mas parou tudo de forma abrupta. Agora vai tocar até o fim. Ele comentou que era um de seus projetos na prancheta na entrevista à CCXP Worlds 2020.

Smith também comemora 30 anos de Bone – e de publicação independente – em julho.

WINDSOR-SMITH, MONSTRO

Barry Windsor-Smith

Voltando a falar de calma, fãs de Barry Windsor-Smith precisam de muita. Monsters, a graphic novel que ele começou em 1984 (!), teve várias ameaças de lançamento em trinta anos, ia sair no ano passado e não saiu, ia sair em janeiro e não saiu… mas finalmente saiu.

Pelo menos ela aparece nas mãos do entrevistador Brian Hibbs, que fez uma live com Windsor-Smith no último domingo. O que foi uma surpresa: Windsor-Smith dá raríssimas entrevistas e não é muito de convenções ou de aparecer em público.

Vale a pena assistir com calma a hora e meia de conversa, onde ele conta desde que viajou da Inglaterra a Nova York para entrar na Marvel, porque ele é o melhor editor do próprio trabalho, de quando contou a origem do Wolverine sem perguntar se podia e de que desenhar, curiosamente, não lhe dá prazer algum.

E eu estou lendo Monsters. Bem devagar…

VIRANDO PÁGINAS

Flex Mentallo n. 1 saiu em 24 de abril de 1996, há 25 anos. É a primeira colaboração de Grant Morrison e Frank Quitely, essa junção escocesa que quase sempre rende obras-primas. É um dos meus quadrinhos preferidos, pois fala de amor por quadrinhos e de se salvar com os quadrinhos.

Bill Plympton completa 75 anos na próxima sexta-feira, dia 30. Mais conhecido como animador – carreira que rendeu um Oscar, em 1998, por “Your Face” –, Plympton também lançou quadrinhos como Aliens Mutantes, publicado no Brasil há vinte anos.

UMA PÁGINA

De Cecília Ramos, a Cartumante.

OUTRA PÁGINA

Dupla, de Die! Die! Die! n. 14, por Robert Kirkman, Scott M. Gimple, Chris Burnham e Nathan Fairbairn. Sim, é o Obama contra aliens num ringue de raios usando luvas de slogan assistido por todo o universo dos quadrinhos em uma homenagem a Superman vs. Muhammad Ali. Die! Die! Die! é uma série demente de tão boa. Pena que vai entrar em férias, talvez para sempre.

UMA CAPA

De Paolo Rivera, para Fantastic Four: Life Story n. 1. Sai no mês que vem nos EUA.

OUTRA CAPA

De Steve Parkhouse, para o lançamento de Bojeffries: A Saga – dele e de Alan Moore – na França. A Saga saiu no ano passado no Brasil pela Devir.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato e autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

 

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