Enquanto Isso... nos Quadrinhos | HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

Trabalho nasceu de experiência do norte-americano Sal Abbinanti no Rio. E mais dez lançamentos do primeiro semestre

Érico Assis
12.02.2021
17h05
Atualizada em
15.02.2021
09h11
Atualizada em 15.02.2021 às 09h11

Os meninos de rua do Rio de Janeiro cansaram. Cansaram da fome, da polícia, dos grupos de extermínio, da polícia, do descaso de todo mundo que não devia aceitar crianças vivendo na rua. Como a realidade nunca ajuda, os meninos recorrem ao sobrenatural. E é aí que começa The Hostage.

Uma HQ sobre um problema social brasileiro com nome em inglês? É porque a criação é de um norte-americano: Sal Abbinanti, de Chicago. E foi financiada recentemente no Kickstarter – o Catarse dos gringos – onde continua em arrecadação até o dia 26 deste mês.

Abbinanti é conhecido no mercado de quadrinhos como agente. Se você quer comprar originais de Alex Ross e Bill Sienkiewicz, você trata com ele. O agente de quadrinistas também é quadrinista e publicou anos atrás Atomika, série sobre um herói soviético com poderes divinos que quer dominar o mundo.

The Hostage, o novo projeto, foi inspirado por uma viagem que o autor fez ao Rio de Janeiro em 1986. “Eu era um universitário de 25 anos e aí um grande amigo brasileiro me convidou para visitar a cidade”, ele me contou por e-mail. “Passei uns 6 meses na casa da família desse amigo, passeando pelo Rio e arredores.”

Como Abbinanti diz em certo momento do quadrinho, “o universitário americano mimado” ficou em êxtase com as praias e outros cenários do Rio. Mas quando viu as crianças na rua – “uma enroscada na outra para poder se aquecer, dormindo nas calçadas quebradas e sujas” – perdeu um pouco da alma.

Ao saber dos grupos de extermínio que assassinavam essas crianças, o autor ficou ainda mais chocado. Isto ainda antes da Chacina da Candelária, quando oito adolescentes de 11 a 19 foram baleados por um destes grupos no centro do Rio, em 1993; a chacina foi notícia mundial.

The Hostage é uma história minha e o quadrinho independente é melhor quando trata de algo pessoal, aquela história que você tem que contar”, diz o autor, que está maturando a ideia há 35 anos. “Ainda bem que eu esperei. Não sei se eu teria feito jus à história naquela época.”

Abbinanti nunca conseguiu voltar ao Brasil – “apesar da gentileza da organização da CCXP em sempre me convidar; eu que não consigo” –, mas acompanha notícias sobre o Rio e meninos de rua. Também se interessa por memórias gráficas do Brasil, como recortes de jornal e anúncios antigos, que viraram colagens no quadrinho.

“Nesses anos que passaram, descobri algumas bibliotecas daí que iam jogar fora o arquivo de jornais. Consegui montar uma coleção bem grande, principalmente dos bem antigos. Eu queria essas imagens autênticas, vintage, na HQ”.

O trabalho como agente garantiu contatos com grandes nomes da HQ nos EUA. Muitos colaboraram com a campanha de The Hostage no Kickstarter, desenhando postais exclusivos: Alex Ross, Sienkiewicz, Eric Powell e a curiosa cena de tiroteio na favela do hiperdetalhista Geof Darrow:

A colaboração com US$ 10 no Kickstarter dá acesso a PDFs de The Hostage em versões em inglês e português (com tradução de Kelsey Trotta). A versão digital começa a ser distribuída no mês que vem. A versão impressa, por enquanto, sairá só em inglês, a partir de junho.

“Nunca vou conseguir expressar o quanto o Brasil é importante pra mim”, Abinnanti conta. “Cheguei aí como um brutto americano, como dizem os italianos e voltei de olhos abertos pra beleza, áspera ou não, e pras realidades do mundo. O Brasil me ensinou coisas que eu trago comigo até hoje. Abriu meus olhos para o mundo de um jeito que nunca mais me aconteceu. É um país forte, bruto e lindo, um sobrevivente que não tem medo de nada nem de ninguém.”

LANÇAMENTOS LANÇAMENTOS LANÇAMENTOS

Polina, de Bastien Vivès

O clichê de que o ano brasileiro começa depois do Carnaval se confirma todo ano. Nos lançamentos de quadrinhos, é prataicamente regra. Apesar de 2021 já ter botado coisas legais nas livrarias – Traço de Giz, Jack Kirby: A Épica Biografia, Guerra do Deserto, Evaristo –, as editoras concentram novidades para fim de fevereiro em diante. Algumas, como Nemo e Veneta, inclusive já anunciaram todo seu plano editorial para 2021.

Escolhi dez projetos interessantes que já estão circulando por aí em pré-vendas e anúncios. A variedade desse mercado não para de me surpreender.

É simples, mas é esquisito: o quadrinho mais premiado de um dos autores mais badalados do quadrinho mundial era inédito por aqui há dez anos.

Polina, de Bastien Vivès, derrubou crítica e público, teve edição em vários idiomas, virou filme e inclusive entrou nessas coleções de “quadrinhos essenciais” na França. Porque é essencial.

É a história de uma bailarina russa, da infância ao início da idade adulta, particularmente na relação conturbada com um professor exigente. Vivès já fez muito quadrinho depois – e alguns chegaram no Brasil, como Uma Irmã e A Grande Odalisca mas não superou a recepção de Polina.

Sai em abril pela Nemo, com tradução de Fernando Scheibe.

As notas biográficas sobre Junji Ito no Japão costumam abrir com a informação “autor de Tomie”. Embora o mestre do terror japonês tenha se notabilizado no Brasil com Uzumaki (que já saiu por aqui duas vezes) e os contos de Fragmentos do Horror, Tomie é o mangá que lançou sua carreira e é cultuado mundo afora.

A personagem do título é uma mulher que surge sabe-se lá de onde ou por quê, provoca terror e insanidade, e aí morre. Mas volta, sempre volta.

Volta constantemente, aliás. Ito produziu dezenas de histórias de Tomie entre 1987 e 2000 – e todas vão ser reunidas nos dois volumes de Tomie que a Pipoca & Nanquim lança em fevereiro e março, com tradução de Drik Sada. Ambos estão em pré-venda.

Cada volume tem quase 400 páginas. No Japão, Tomie já virou nada menos que nove filmes e um seriado de tevê. Sem falar que o mangá é sempre reeditado.

Coincidência ou não, Gyo, outra obra portentosa de Junji Ito, sai este mês pela Devir (tradução de Arnaldo Oka). Veja um preview aqui. Ela inclui “O mistério da falha de Amigara”, a história de Ito que mais me assombra.

A pandemia podia ter sido bem pior. Veja que você nem foi perseguido por zumbis.

Ou melhor: não são zumbis, porque, em Ano Zero, ninguém chama eles de zumbis. São pessoas contaminadas por alguma coisa que as transforma em assassinas – e, quem não é contaminado, em sobrevivente lutando para continuar sobrevivente.

A série de Benjamin Percy (roteiro), Ramon Rosanas (arte) e Lee Loughridge (cores) estreou lá fora antes da Covid-19, mas tem paralelos que assustam: uma descoberta no polo norte acaba provocando uma epidemia global. A partir daí, você acompanha cinco sobreviventes em diferentes partes do mundo. É tipo “E se fosse você?”

Ano Zero também é a estreia do material de uma editora norte-americana no Brasil: a AWA, formada por ex-figurões da Marvel e juntando autores de renome com novos talentos. A editora Skript já financiou o primeiro volume de Ano Zero no Catarse (que sai em abril, com tradução de Mario Luiz C. Barroso) e anunciou outros materiais da editora americana para este ano. Dá para participar da campanha de arrecadação da HQ até 2 de março.

Falando em editoras novas dos EUA com nomes de três letras, a TKO também ainda não tinha chegado no Brasil e aporta aqui com seu título de maior sucesso: Sara, de Garth Ennis e Steve Epting, com cores de Elizabeth Breitweiser.

Inspirada em fatos reais, Sara é a história de uma atiradora de elite do exército russo durante a Segunda Guerra Mundial, lutando contra nazistas no inverno soviético.

É mais uma HQ que parte da obsessão de Ennis (Preacher, The Boys) por história de guerra realistas. Mas também é do Ennis mais maduro, pós-Justiceiro Max. E vem com aspas de ninguém menos que Alan Moore dizendo que é “uma das melhores obras na carreira” do amiguinho escritor.

Sai pela Panini este ano, ainda sem data confirmada, com tradução de Leandro Luigi del Manto.

Somando ao gênero “graphic novel de problemas com seu pai” (Maus, Fun Home, Jimmy Corrigan), a canadense de ascendência sérvia Nina Bunjevac chamou atenção da crítica com Terra Pátria, um álbum de lembranças sobre seu pai.

Um pai bem particular: quando Bunjevac tinha dois anos, sua mãe fugiu com a irmã para a Iugoslávia porque o pai havia entrado para uma organização terrorista servia. Peter Bunjevac acabou morrendo enquanto armava a bomba que ia usar em um atentado.

Não é um spoiler, não se preocupe. O foco da HQ é Bunjevac, filha, tentando entender sua família naquele período tenebroso – e principalmente o pai.

Terra Pátria sai pela Zarabatana – que já lançou o ótimo Bezimena da mesma autora – ainda este ano, sem data certa, com tradução de Cláudio Martini.

Vai mais uma HQ de problemas com o pai? Bom, não exatamente com o pai, mas com a casa do pai.

Após a morte do patriarca, três irmãos voltam para a casa em que passaram a infância. Para limpar, fazer umas reformas e vender. Como era de se esperar, a volta vai ativar memórias nos três sobre a relação entre eles mesmos, a família e, claro, aquela casa.

Já falei aqui de A Casa, do espanhol Paco Roca (Rugas), e já disse que vai ser um dos grandes lançamentos deste ano. Só queria repetir. Sai este semestre pela Devir, com tradução de Jana Bianchi.

Outro tipo de pai: o celestial. E o que aconteceria se ele chegasse hoje na Terra. É a premissa de Deus em Pessoa, de Marc-Antoine Mathieu.

Deus é um de vários álbuns de Mathieu, que tem trinta anos de quadrinhos premiados na França mas ainda tem a obra desconhecida no Brasil.

Se Deus chegasse aqui hoje, ele ia substituir o papa? Seria uma celebridade? Um astro de reality? Ele ia ser julgado pela dor e pelo sofrimento no mundo? Como é que fica a própria física quando se descobre a metafísica?

Apesar de Mathieu ir fundo no impacto de Deus no mundo, o melhor do álbum é o senso de ridículo e absurdo. Deus, todo mundo sabe, curte uma trolagem.

Sai no mês que vem pela Comix Zone, com tradução minha e de Fernando Paz. Já está em pré-venda.

Yoshiro Tatsumi aos 21 anos

Falando em pais celestiais, Yoshihiro Tatsumi (1935-2015) é um dos nomes fundadores do quadrinho japonês e a grande figura do chamado gekigá – o quadrinho adulto oriental. Primeiro influenciado pelo pai do mangá moderno, Osamu Tezuka, Tatsumi acabou influenciando o próprio Tezuka.

Vida à Deriva é a autobiografia em quadrinhos de Tatsumi, uma obra monumental que trata do seu começo de carreira – que também é o começo do mangá, no cenário do Japão pós-Segunda Guerra.

Tatsumi faleceu pouco depois de publicar Deriva – à qual dedicou onze anos. Já lançada em vários idiomas, a obra ganhou o Prêmio Cultural Osamu Tezuka no Japão, dois Eisner nos EUA, mais um troféu de Angoulême e outro da Associação de Críticos na França.

A editora Veneta havia anunciado o lançamento no ano passado, mas reprogramou o volumão de 800 páginas para 2021. A tradução é de Drik Sada.

O Cachimbo de Pedra Vermelha. A Lágrima de Timur Leng. O Cetro de Muiredeagh. O Colar de Padmasumbawa. Um misterioso milionário percorre o mundo atrás desses e outros artefatos misteriosos, formando uma coleção que – como toda coleção – só tem significado para ele. Seu nome é O Colecionador.

É o grande personagem do italiano Sergio Toppi (1932-2012), no qual ele trabalhou durante mais de vinte anos e vários álbuns. A editora Figura vai publicar um integral das histórias do Colecionador, com aproximadamente 260 páginas (tradução de Maria Clara Carneiro), previsto para abril.

O livro já foi financiado via Catarse: a campanha atingiu quase R$ 100 mil em uma semana, mais que o dobro da meta, e continua aberta até 12 de março. No momento a Figura está fazendo uma votação da capa com os leitores via Instagram.

VIRANDO PÁGINAS

Johnny Hart (1931-2007) completaria 90 anos na próxima quinta-feira, dia 18. Hart foi o criador de duas tiras de enorme sucesso nos jornais dos EUA e do mundo: A.C. (em 1958) e O Mago do Id (com Brant Parker, em 1964). Publicou sem parar até a morte aos 76 anos – ele teve um AVC em cima da prancheta. As tiras ainda são publicadas, com outros autores.

A editora francesa Delcourt faz 35 anos hoje. Criada pelo editor-chefe da revista Pilote, Guy Delcourt, a editora se notabilizou pelas traduções: publicou Watchmen, V de Vingança, Bone, Cages, Jimmy Corrigan e outras obras premiadas em francês. Mas também foi a casa de estreia de autores nacionais como Marc-Antoine Mathieu (ver acima) e publicou obras importantes de Joann Sfar, Étienne Davodeau e outros. Depois de comprar a editora Tonkam e a Soleil, hoje está entre as três maiores do mercado franco-belga.

S. Clay Wilson, figura seminal (em vários sentidos) do quadrinho underground, morreu no domingo, dia 7, aos 79 anos. Seus quadrinhos como “Piratas Pervertidos”, que saíram na Zap Comix, chocaram o público dos anos 1960 com paus, bocetas e orgias hetero e homossexuais. Em 2008, ele foi encontrado perto de casa, espancado, com uma lesão cerebral que o deixou sob cuidados desde então, e acabou levando à morte.

Ordinário, primeira coleção das tiras do gaúcho Rafael Sica, saiu em fevereiro de 2011, há dez anos. A primeira graphic novel de Sica, Meu Mundo Versus Marta, em colaboração com o escritor Paulo Scott, sai este mês pela Quadrinhos na Cia.

UMA CAPA

De Caio Oliveira para o Caio Oliveira Ônibus, o menor omnibus do mundo. A edição da Editora Skript vai reunir as sátiras de super-herói que Oliveira publica na internet em 60 (não 600) páginas. Talvez mais, se o Catarse der muito certo. No momento em que eu escrevo, a campanha de financiamento já arrecadou 165% da meta.

UMA PÁGINA

Dá pra chamar de página de webcomic? Dá, né? Enfim: do Ryot, de volta às Ryotiras depois de dois anos ausente. Fez falta.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

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