Enquanto Isso | Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

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Enquanto Isso | Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

Mais Asterix, Junji Ito e baratas, Alan Moore e o fim do mundo e três grandes que completam 75 anos

Érico Assis
27.08.2021
16h36
Atualizada em
27.08.2021
17h00
Atualizada em 27.08.2021 às 17h00

“HQ no Brasil é um sacerdócio, uma missão”, dizia Flavio Colin, em 2000, numa entrevista a Alexandre Maron na Folha de S. Paulo. “Gosto de criar sozinho, na minha prancheta. O Ziraldo diz que sou um bobo, um romântico. Mas sou assim porque não deixei morrer o menino que existe dentro de mim. É o que eu sou, um menino que gosta de desenhar. Se amadurecer, aí sim, viro um bobão.”

A entrevista aconteceu por ocasião de uma homenagem ao artista, do Salão Carioca de Humor. Colin estava com 70 anos e fazia quadrinhos há mais de quarenta. A HQ nacional estava voltando a engrenar no início do século, mas Colin viu pouco desse movimento: ele faleceu em 2002.

Não há quadrinista brasileiro com algum conhecimento de história que não admire o trabalho de Colin. A economia do traço, a expressividade no corpo inteiro dos personagens, os cenários fortemente nacionais – uma de suas bandeiras era a HQ brasileira que falasse do Brasil – influenciam autores nacionais como André Diniz, Jefferson Costa e José Aguiar. Dois Irmãos, de Gabriel Bá e Fabio Moon, lembra muito Colin.

Já houve algumas tentativas no mercado nacional de destacar a importância que o autor tem. Desde seu falecimento, houve reedições e publicação de inéditos por várias editoras: Opera Graphica (Filho do Urso, Mapinguari), Pixel (O Curupira), Desiderata (Caraíba), Devir (Fawcett), Nemo (Estórias Gerais, Fantasmagoriana). Vida Traçada, uma biografia resumida por Gonçalo Junior, saiu em 2009.

Se você acompanha as editoras ou o noticiário brasileiro sobre HQ, já sabe que Colin está de volta. Quatro editoras anunciaram projetos de resgate da obra do carioca nas últimas semanas.

A Pipoca & Nanquim vai lançar Terror no Inferno Verde, com mais de 200 páginas de HQs de Colin em vários momentos da carreira, no final do próximo mês. A editora promete farto material extra de especialistas na obra do artista.

A Figura começou a campanha no Catarse de As Aventuras do Anjo para inaugurar suas “Edições de Artista”: o livro de luxo reproduz originais de uma edição inteira da revista em que Colin trabalhou nos anos 1950 e 1960, baseada em um herói das radionovelas. Em formato avantajado e do tamanho exato das pranchas do artista (30 x 42 cm), sai em outubro.

A MMarte Produções prevê para dezembro Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, com histórias de terror produzidas por Colin com Juka Galvão (pseudônimo de Ota Assunção) nos anos 1980 – incluindo uma inédita dos anos 1990.

Até dezembro também sai Estórias Gerais, o projeto do roteirista Wellington Srbek com participação de Colin, que vai ganhar edição especial de vinte anos pela Conrad. Estórias ganhou inclusive edição na França.

Fora a divulgação da parte das próprias editoras, o nome de Colin tem circulado por outros canais. No ano passado, a Raio Laser reuniu uma longa série de depoimentos sobre o autor. Esta semana,  o podcast Confins do Universo dedicou uma edição a Colin, falando das novas edições e de planos para uma exposição de seus quadrinhos, ilustrações e esculturas, por enquanto adiada pela pandemia.

Um dos responsáveis pela retomada de Colin é Ivan Freitas da Costa, um dos articuladores da CCXP, um dos cabeças da Chiaroscuro Studios e conhecido por organizar as melhores exposições sobre HQ no Brasil na última década. Costa queria fazer uma exposição retrospectiva de Colin e entrou em contato com a família do autor em 2019. O convite ganhou uma proporção que ele não esperava.

“O pedido foi muito bem recebido e se desdobrou em outro convite, desta vez da parte deles, para que eu fosse o curador da obra e do acervo do Colin”, ele me disse em conversa por e-mail. “Ser curador inclui a guarda das artes originais, a negociação de republicações e outras iniciativas para o resgate e divulgação do trabalho do mestre, inclusive nas redes sociais, como perfis no Facebook e no Instagram.”

Costa diz que virou responsável por “milhares de originais, roteiros inéditos, esboços, documentos e cartas, contratos, trabalhos da época em que Colin atuava no mercado publicitário e como ilustrador de livros didáticos e muitos, muitos quadrinhos”.

Enquanto a exposição não acontece, o curador está envolvido na maioria das republicações listadas acima. Ele propôs inclusive unificar a “Biblioteca Colin” com alguns elementos gráficos, como o autorretrato do quadrinista.

Costa diz que está tendo “conversas” com outras editoras no Brasil e no exterior para continuar esta retomada editorial de Colin. No Confins do Universo, ele deixa no ar que todo o material do quadrinista pode ter “outros desdobramentos” além das reedições e exposições, sendo todos voltados para tornar a memória do artista mais presente.

Aqui no Omelete, Francisco Ucha publicou um belo perfil biográfico de Colin no ano passado, no dia em que o artista completaria 90 anos. A história é dura: Colin nunca se sustentou com quadrinhos. O reconhecimento da sua contribuição, infelizmente, veio tarde.

Não que ele tenha deixado os quadrinhos em qualquer momento. Em 2001, Colin deu uma de suas últimas entrevistas ao Universo HQ. Um trecho:

“Vou desenhar até onde o meu sentimento, talento e minha mente disserem ‘Faz!’. O dia que eu começar a ficar muito repetitivo, sentir que chegou minha hora, penduro meus pincéis e vou vender pipoca na esquina. Faço meus desenhos da maneira que eu sinto. Às vezes, agrada! Olha, não se faz nada sem alma. Ou coloca a alma, ou não faz.”

OS IRREDUTÍVEIS

Outra notícia circulou bastante esta semana entre os canais de quadrinhos: Asterix vai voltar a ser editado pela editora Record, responsável pelos álbuns do gaulês no Brasil entre 1983 e 2015.

Daqui a duas semanas sai Asterix e a Transitálica, inédito por aqui. Asterix e a Filha de Vercingetorix já está previsto para o ano que vem. A editora também vai reeditar álbuns que estiverem esgotados.

Em comunicado à imprensa, a presidente do Grupo Editorial Record, Sonia Jardim, disse: “Estamos retomando com muita alegria a parceria com a Hachette para lançamento dos álbuns do Asterix. Nosso contrato tinha vencido e nossa oferta de renovação teria ficado abaixo de outra oferta que eles receberam. Mas, pelo visto, esta outra oferta não evoluiu e retomamos nossas negociações.”

Em 2019, se falou que a Panini publicaria Asterix no Brasil. Foi essa negociação que, aparentemente, “não evoluiu”.

Asterix e o Grifo, 39º álbum de Asterix, sai no fim de outubro na Europa. Com tiragem de cinco milhões, vai ser lançado simultaneamente em vinte idiomas e deve liderar as listas de mais vendidos do ano, pelo menos na França. Pelos planos da Record, Grifo chega aqui no ano que vem.

Desde o 35º álbum, Asterix e os Pictos, as histórias dos irredutíveis gauleses são produzidas pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Goscinny (falecido em 1977) e Uderzo (falecido no ano passado) ainda têm destaque nas capas.

JUNJI ITO TEM MEDO DE BARATA

Deserter, último lançamento de Ito nos EUA.

“Quando eu era pequeno e caminhava pela cidade, eu tinha medo de alguém me perseguir ou que ficassem me observando. Isso passou. Hoje, mais velho, olha, eu tenho é medo da morte. Também tenho medo de baratas. Aqui no Japão elas voam. Em Nova York as baratas voam?”

De uma entrevista de Junji Ito (Gyo, Tomie, Uzumaki) a Tres Dean, na revista GQ. O entrevistador diz que, em Nova York, as baratas não voam, mas são difíceis de matar.

“Pois é. No Japão elas voam e são bem grandes.”

ESCREVER É DESENHAR E DESENHAR É ESCREVER

“Idealmente, não devia haver uma separação entre escrever e desenhar na nossa profissão; tudo faz parte de contar a história. Você faz anotações e as anotações podem ser palavra ou podem ser desenho. Você está ali finalizando a página com cores chiques, mas, se estiver atento, continua tomando decisões sobre a história enquanto desenha em vez de só executar um plano, em vez de ser ilustrador-escravo de si. Não é improvisação, tanto quanto o escritor não improvisa enquanto está digitando no laptop.”

De Brecht Evens, em entrevista a outro quadrinista, Joe Ollmann, no Comics Journal. Um dos melhores papos do ano.

Evens e Ollmann, aliás, produziram dois dos melhores quadrinhos que eu li este ano – The City of Belgium e Fictional Father. Os dois autores ainda são inéditos no Brasil, mas um deles deve ser publicado aqui este ano.

Evens continua: “Veja que eu disse ‘idealmente’. Eu falo de dias de trabalho que rendem, aqueles de pouco ou nenhum e-mail, redes sociais, Netflix, álcool, chocolate nem fofocagem.”

MOORE, O FIM DO MUNDO E O BRASIL

“Olá. Eu sou Alan Moore e vim aqui pedir encarecidamente que continuem a apoiar a Extinction Rebellion.”

É o início do vídeo que foi ao ar no último domingo, em que o veterano dos quadrinhos declara seu apoio ao grupo britânico que está promovendo duas semanas de protestos para exigir medidas contra a crise climática e os governos incompetentes. “É a questão mais importante na história do nosso planeta”, diz Moore.

Na quarta-feira, para nossa vergonha, o alvo dos protestos foi a Embaixada do Brasil em Londres, em manifestação contra o extermínio dos povos indígenas. Os manifestantes jogaram tinta vermelha na embaixada. A polícia prendeu 118 pessoas.

As manifestações seguem diariamente até 4 de setembro. Leia o resto da mensagem de Moore:

“Muita coisa mudou nos últimos poucos anos e, infelizmente, muitas coisas não mudaram. Estamos na mesma situação, precária, e nosso futuro está em jogo. Literalmente por um fio. Apoie a Extinction Rebellion como você puder, porque esta é a questão mais importante na história do nosso planeta. Apoie e, com um pouquinho de sorte, você vai ter um mundo em que seus filhos e netos vão subsistir, viver e vão ouvir quando eles também protestarem. Não sei o que mais eu posso dizer. Essa é a questão mais vital que nos defronta no presente e devíamos fazer de tudo para botar mãos na obra e ajudar. Cuidem-se.”

VIRANDO PÁGINAS

Denis Kitchen, quadrinista, editor e escritor responsável tanto pela difusão do quadrinho underground nos EUA quanto a da obra de Will Eisner lá e no mundo, completa 75 anos hoje. Na segunda-feira, dia 30, Jacques Tardi, um dos nomes mais respeitados do quadrinho franco-belga, autor de Era a Guerra de Trincheiras, O Grito do Povo e da série Adèle Blanc-Sec, também completará 75. E Walt Simonson, eterno grande artista do Thor, mas com grandes passagens por vários personagens Marvel e DC, é o último da semana que também faz 75 anos – na próxima quinta-feira, dia 2.

A semana entre fim de agosto e início de setembro de 1946 foi movimentada para os berçários de quadrinhos.

Novinho da turma de aniversariantes, Joann Sfar, o francês autor de O Gato do Rabino e máquina produtiva de quadrinhos, livros e filmes, completa 50 anos amanhã.

Na terça-feira, dia 31, completam-se 10 anos do projeto Novos 52, a reformulação editorial da DC Comics extremamente criticada na época e largamente fracassada. De lá para cá, a editora já fez outras sacudidas na linha e no momento se encontra à mercê de uma AT&T/Warner Bros. que não sabe o que quer dos quadrinhos – fora lotar a banca de Batman e ver o que cola.

UMA PÁGINA

Concepção do espanhol Alvaro Martínez Bueno, com Raul Fernandez e June Chung, em Justice League Dark n. 21. Saiu ano passado nos EUA, ainda é inédita no Brasil. Fez parte de uma thread muito interessante no Twitter sobre o “Efeito De Luca”: quando um quadro da HQ faz as vezes de palco de teatro por onde o personagem passeia. Ou o equivalente do plano-sequência nos quadrinhos. Também vale a pena ler a explicação do catedrático Sergio Codespoti.

UMA CAPA

Da ilustradora brasileira Janaina Medeiros em Wonder Woman Black and Gold n. 3, lançamento desta semana. É o primeiro trabalho de Medeiros para a DC Comics.

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

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#51 - Quadrinhos que falam oxe

#50 - Quadrinho não é cultura?

#49 - San Diego é hoje

#48 - Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 - A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 - Um clássico POC

#45 - Eisner não é Oscar

#44 - A fazendinha Guará

#43 - Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

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