Enquanto Isso | San Diego é hoje

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Enquanto Isso | San Diego é hoje

E Harvey Awards, curso de narrativa, cachê calaboca, aniversários e mais

Érico Assis
23.07.2021
17h34
Atualizada em
23.07.2021
19h34
Atualizada em 23.07.2021 às 19h34

E amanhã e domingo. Na sua telinha. O evento mais famoso da cultura pop – que é de quadrinhos também, apesar dos que reclamam – vai ter mais uma edição “caseira”: toda a programação de mesas redondas, palestras, apresentações de estúdios e editoras vai rolar via YouTube pelo segundo ano consecutivo.

É claro que a experiência não é a mesma de suar nas filas e respirar o mesmo ar que a Katee Sackhoff, mas rola a mobilização para trazer alguns nomes legais e conteúdo interessante pra você que não vai a San Diego. Desta vez, ninguém vai.

Matt Fraction dominando o papo em um dos painéis da San Diego Comic Con que já está no ar: Teaching and Learning with Comics

Toda a programação é gravada e editada – ninguém quer perder tempo com probleminha técnico em live – e você pode assistir quando quiser a partir do horário em que for liberada. Isso quer dizer que você pode assistir toda a programação da Comic Con de San Diego, o que é impossível no evento físico-presencial-suando-na-fila.

Mas ninguém quer assistir tudo. A programação é monstruosa: são mais de 300 vídeos. Alguém precisava fazer uma seleção nessa listona. Então eu fui ali e fiz.

(A Julia Sabbaga também fez uma lista do material mais pop.)

Pra começar, é legal dar uma passada pelos nomes de todos os panels. A diversidade de assuntos é de assustar: de Rick and Morty a Stargate, de discussão entre cientistas e engenheiros geeks a “O Legado de Chucky”, do Neil Gaiman ao Hideaki Anno. O evento é mais abrangente do que se imagina.

Mas o meu negócio é quadrinhos e, dentro da programação só de quadrinhos, ainda é complicado separar o joio do trigo. O que anotei na agenda foi o seguinte:

(Os horários são de Brasília e correspondem ao momento em que o vídeo será liberado – você pode assistir depois.)

Um debate sobre os 50 anos da capa aí em cima, um dos marcos de quando a Marvel Comics virou cool. A Rolling Stone de setembro de 1971 trazia uma matéria sobre os bastidores da Marvel e papo com Stan Lee, escrita por sua ex-secretária Robin Green. Green – que viria a ter carreira na TV, como produtora de Família Soprano e outras séries – vai participar do painel, que também conta com Roy Thomas. Aqui, sexta-feira, a partir das 17h.

Stan Sakai vai apresentar a animação de Usagi Yojimbo que vem pela Netflix – já tem até botãozinho de “avise-me” no canal. A HQ ganhou outro nome na adaptação – Samurai Rabbit: The Usagi Chronicles e até agora não se viu nem um preview. Vai ser a chance. É o grande momento de Sakai entre o grande público, depois de quase quarenta anos batalhando com seu coelho ronin nas HQs. Aqui, sexta-feira, a partir das 17h.

Gary Groth, o chefão da Fantagraphics, vai comandar um papo sobre graphic novels que levaram anos para ficar prontas: Monsters, de Barry Windsor-Smith (recém-anunciada no Brasil), The Strange Death of Alex Raymond, de Dave Sim e Carson Grubaugh, e outras (inclusive uma surpresa). Aqui, sexta-feira, a partir das 19h.

“Os Heróis Neuróticos e os Escritores Que Os Amam” vai ser uma discussão sobre o nervosismo de Peter Parker, o alcoolismo de Tony Stark e outras neuras de figurinhas conhecidas, com participação de Brian Michael Bendis, Marv Wolfman, Louise Simonson e outros, incluindo um psicólogo para dizer o que eles fizeram errado. Aqui, sexta-feira, a partir das 19h

Grant Morrison vai ter uma ponta no painel da DC sobre os quadrinhos de Superman, e geralmente é legal ouvir Morrison (se você entender o sotaque escocês). Tom Taylor e Phillip Kennedy Johnson também participam. Aqui, sábado, a partir das 15h.

Também costuma ser legal e divertido ouvir Robert Kirkman, que vai fazer um bate-bola com perguntas dos fãs sobre tudo ligado a Walking Dead, Invencível, séries, quadrinhos, Skybound etc. Aqui, sábado, a partir das 16h.

Os irmãos Hernandez, no papo, são inversamente proporcionais ao que fazem no quadrinho, mas sempre é bom saber como eles andam. Jaime e Gilbert vão falar pra câmera sobre o que têm na prancheta no momento e de repente anunciam novidade. Queen of the Ring, o livro de desenhos de luta livre feminina por Jaime, sai no mês que vem. Aqui, sábado, a partir das 21h.

Papo que talvez seja diretamente interessante para os brasileiros: Emil Ferris (Minha Coisa Favorita é Monstro), David Carlson (O Acidente na Caçada), Ken Niimura (Eu Mato Gigantes) e Asaf Hanuka (O Divino) falam sobre a globalização dos quadrinhos. Os gringos mal sabem que a gente lê o que eles fazem, e era bom que soubessem mais. Mediação do ótimo jornalista Rob Salkowitz. Aqui, domingo, a partir das 17h.

Para terminar – mas, na agenda, para começar os trabalhos hoje – tem a cerimônia do Eisner Awards. Que não vai ser ao vivo, nem com entrega pessoal dos prêmios: já está gravada e editada, pronta para entrar no ar às 23h. O ator de voz Phil LaMarr e o grande Sergio Aragonés estão entre os apresentadores, e – se fizeram como no ano passado – quem ganhou seu troféu também vai dar uma palhinha.

Eu estou torcendo por Pascal Jousselin (melhor publicação infantil e melhor roteirista/artista), Noah Van Sciver (melhor publicação de comédia), pelo Derf Backderf (melhor obra baseada em fatos), pelo Matadouro N. 5 de Ryan North e Albert Monteys (melhor adaptação de outra mídia) e fico contente se Michel Rabagliati ou Andi Watson ganharem em melhor álbum inédito.

HARVEY

The Magic Fish, de Trung Le Nguyen

Falando em prêmios, o segundo mais importante do EUA anunciou seus indicados pouco depois de eu entregar a coluna da semana passada.

O Harvey Awards adotou uma versão mais enxuta nos últimos anos: tem só 6 categorias (o Eisner tem 32), sem fazer muita divisão. É livro do ano, digital do ano, infantil ou infanto-juvenil do ano, mangá, “internacional” (estrangeiro que não seja mangá) e melhor adaptação – em que concorrem seriados de TV.

Também diferente do Eisner, concorre material que sai este ano (HQs lançadas entre agosto de 2020 e julho de 2021, pra ser exato), o que ajuda a pegar quadrinhos que estão mais frescos na memória.

The Magic Fish, infanto-juvenil de Trung Le Nguyen, é o único álbum que aparece em mais de uma categoria. Material que sai no Brasil em breve, ou já saiu, aparece entre os concorrentes: Kent State, de Derf Backderf; Monsters, de Barry Windsor-Smith; Chainsaw Man, de Tatsuki Fujimoto; Crônicas da Juventude, de Guy Delisle; Paul em Casa, de Michel Rabagliati; e Jimmy Olsen: o Amigo do Superman, de Matt Fraction e Steve Lieber.

A premiação acontece na New York Comic Con, em outubro. Até novas informações, o evento será presencial.

QUEM LEU JIMMY OLSEN?

Se a capa e o personagem não atraem muito, confie nas indicações dos prêmios: tanto Eisner quanto Harvey Awards indicaram Jimmy Olsen: o Amigo do Superman a HQ do ano, minissérie do ano e comédia do ano. Matt Fraction também concorre como melhor roteirista no Eisner, em parte pela mini.

Mas, no Brasil, parece que ninguém leu. A minissérie saiu aqui em versão completa pela Panini, em abril, infelizmente dentro da nova realidade dos preços lá em cima (R$ 114,90).

Vale de qualquer jeito. Fraction está no tom certo, dos primeiros tempos de Criminosos do Sexo, carregado nos trocadilhos, e tinha toda a Jimmy Olsen original (1954-1974) para se inspirar – a série do superamigo era absolutamente insana, e a nova segue o clássico. Steve Lieber, saído da também ótima Inimigos Superiores do Homem-Aranha, tem o timing perfeito pra comédia.

“Fraction traça um mistério denso, porém acessível, que nos leva em uma verdadeira ode à loucura e diversão do Jimmy Olsen da era de prata”, me contou Diogo Prado, editor e tradutor do material no Brasil. “Tudo isso coroado pela belíssima e carismática arte de Steve Lieber, que, além de agradar o olhar, ainda preenche as páginas com um monte de piadas e referências de fundo. Uma das histórias mais criativas e diferentes que a DC publicou nos últimos anos.”

É isso aí e mais.

AULAS

Eu literalmente não sei segurar um lápis, mas vejo os anúncios de cursos online com quadrinistas e dá vontade de me inscrever só para ouvir as aulas e ser aquele aluno que não faz nada.

Sam Hart – britânico que mora há décadas no Brasil – está com um desses cursos interessantes. Chama-se Visual Narrative for Comic Books e, apesar de ser ministrado em inglês, tem legendas em português (e outros idiomas). Hart é desenhista de Atômica: a cidade mais fria (com Antony Johnston, que virou o filme com Charlize Theron), de 10 Dias Perdidos e várias HQs.

“Tive algumas aulas ou workshops com John Buscema, Joe Kubert, David Lloyd e Dave Gibbons, e fui assistente de arte de Alexandre Jubran e de John Higgins”, Hart me contou por e-mail.

Perguntei com quem ele ainda não teve, mas gostaria de ter aulas. “O artista com quem eu mais gostaria de assistir um curso inteiro de desenho seria Frank Frazetta [1928-2010]. Outra pessoa que observei a arte e narrativa até cansar foi Bernie Krigstein [1919-1990]. E se tiver que escolher alguém que está vivo, David Mazzucchelli.”

O curso é todo online e quem faz os exercícios recebe comentários e avaliação do Sr. Hart.

CALABOCA

É o assunto que mais aparece na coluna, mas também é o assunto que está ganhando proporção: a recusa de Marvel e da DC Comics em dividirem os bilhões na TV e no cinema com os autores de HQ.

No fim da semana passada, o assunto saiu do gueto dos quadrinhos pra pegar um público maior. Aaron Couch, na Hollywood Reporter, pegou a pauta, entrevistou gente e comentou que a chapa está esquentando.

Fala-se no caso de Ed Brubaker com o Soldado Invernal, do comentário provocador de Ta-Nehisi Coates, de como Jim Starlin só ganhou uma grana a mais por Thanos depois que reclamou em público da Marvel. A matéria vai até o caso de Bill Finger e a luta pelo seu reconhecimento como co-criador de Batman.

O texto também diz que a prática do shut-up money, ou cachê calaboca, também está em voga: às vezes, editoras/estúdios pagam alguns dólares para os autores não se manifestarem na imprensa. Ed Brubaker já tinha dito que recusou seu shut-up money. Além de uma fonte anônima que confirmou ao Hollywood Reporter que os cachês existem, a matéria afirma que Jim Starlin, no caso com Thanos, “não dá detalhes do acordo que fez, mas saiu bem contente”. 

Paul Levitz, ex-presidente da DC, fala que remunerar os autores de quadrinhos por personagens e ideias que vão parar no cinema e na TV faz todo sentido comercial. “Se você trata as pessoas de maneira que elas considerem que foi justo, o próximo criativo vai ficar interessado em trabalhar com você.” Levitz transformava até a mínima menção a uma HQ em filme do Batman em dólares para os autores das HQs. Quando saiu da DC, a prática acabou.

Por contrato, em quase todos estes casos as editoras não têm obrigação de dividir lucros. O que esta e outras matérias estão fazendo é uma pressão moral, que pode mudar o jogo.

E o shut-up money já dá outros resultados. No final do texto da Hollywood Reporter, Jim Starlin solta as asinhas e diz que ainda não ouviu nada da Disney/Marvel quanto a seus trocados pela parte na criação de Shang-Chi

VIRANDO PÁGINAS

A Coleção Moebius da editora Nemo estreou em julho de 2011 com Arzach, há dez anos. Foi uma retomada importante da obra do francês no Brasil, que rendeu oito volumes de alto luxo, além de O Mundo de Edena e outros lançamentos moebísticos pela editora. E Moebius segue por aí em lançamentos como A Louca do Sagrado Coração (Veneta, 2019) e Incal (Pipoca e Nanquim, 2021).

O “Novo Universo” da Marvel completou 35 anos ontem. O dia 22 de julho de 1986 não só foi a data de lançamento das séries, mas também um dia significativo nas tramas, quanto acontece o “Evento Branco”, que dá poderes a vários personagens. A investida da Marvel deu muito errado e foi totalmente encerrada três anos depois.

S. Clay Wilson, grande figura do quadrinho underground dos EUA, teria completado 80 anos no domingo, dia 25. Ele faleceu em fevereiro deste ano. Átomo (ou Eléktron), o personagem da DC Comics, completa 60 anos na terça-feira. Ele estreou em Showcase n. 34, que saiu em 27 de julho de 1961.

UMA PÁGINA

Dupla, de Eloar Guazzelli, em Cidade Nanquim, que vai sair na revista Serrote n. 38. Faz trinta anos que Guazzelli (Apocalipse Nau, A Casa Azul, Vidas Secas) vem desenhando uma cidade infinita, com uma folha A4 colada a outra, e não tem planos de acabar. Ele mostra alguns pedaços da cidade na revista, como as páginas acima. A Serrote n. 38 tem uma live de lançamento na próxima quarta-feira, às 18h, no YouTube.

UMA CAPA

De Escuta, Formosa Márcia, por Marcello Quintanilha, com lançamento previsto para daqui a duas semanas. Que eu já li e asseguro que não é um dos melhores quadrinhos brasileiros do ano, mas sim um dos melhores deste ano no planeta. Está em pré-venda pela Veneta.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato e autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#48 - Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 - A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 - Um clássico POC

#45 - Eisner não é Oscar

#44 - A fazendinha Guará

#43 - Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 - A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 - Os quadrinhos são fazendinhas

#40 - Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 - Como escolher o que comprar

#38 - Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 - Desculpe, vou falar de NFTs

#36 - Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 - Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 - Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 - WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 - Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 - Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 - HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 - O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 - Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 - Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 - Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 - Mais brasileiros em 2021

#24 - Os brasileiros em 2021

#23 - O melhor de 2020

#22 - Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 - Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 - Seleções do Artists’ Valley

#19 - Mafalda e o feminismo

#18 - O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 - A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 - Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 - A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 - Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 - Cuidado com o Omnibus

#12 - Crise criativa ou crise no bolo?

#11 - Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 - Mais um fim para o comic book

#9 - Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 - Como os franceses leem gibi

#7 - Violência policial nas HQs

#6 - Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 - Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 - Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 - Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

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#1 - Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

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