Enquanto Isso | A notícia do ano é

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Enquanto Isso | A notícia do ano é

Que nunca se falou tanto sobre quadrinho

Érico Assis
17.12.2021, às 13H59
ATUALIZADA EM 17.12.2021, ÀS 17H54
ATUALIZADA EM 17.12.2021, ÀS 17H54

Não sei se esta é a última ou a penúltima coluna do ano. Os próximos dias vão dizer. Adoro listas de melhores do ano e retrospectivas, e ainda quero fazer a das minhas melhores leituras de 2021. Mas não sei se ela vai sair antes de 2022. Veremos. Ainda quero ler muita coisa antes da virada.

O que eu posso falar em termos de retrospectiva de 2021 tem a ver com a meta desta coluna: comentar os assuntos da semana nos quadrinhos. Repassei as 40 colunas que publiquei este ano (41 com esta) para escolher qual seria o assunto do ano nos quadrinhos. E diria que o assunto do ano nos quadrinhos é: nunca se falou tanto sobre quadrinho.

 

Em que mundo que você já viveu que existia um programa semanal, de duas horas de duração, só de resenhas de gibi – como o Universo HQ em Resenha? Em que outra época você podia escolher se ia acompanhar o boletim semanal de notícias do mundo do quadrinho no Fora do Plástico ou no 2 Quadrinhos? Quando que você teve que decidir se ia dar seus minutos de descanso ao Confins do Universo ou ao HQ sem Roteiro ou às Perpétuas ou ao Lasercast? Quando se viu 250 mil pessoas recebendo avisos de novo vídeo do Pipoca & Nanquim, 60 mil do Comix Zone, 23 mil do Rapha Pinheiro, os 16 mil do Quadrinhos na Sarjeta ou do Ministério dos Quadrinhos? Em que momentos do mercado as editoras nacionais congregaram público como nas lives da Panini, nos Papos Conrad, nos JBC Bits, nas entrevistas da Veneta?

E as colunas do Mina de HQ, as longas entrevistas do Ramon Vitral (e sua coluna no Itaú Cultural), os ensaios do Balbúrdia, as threads do Jamesons, as #Lives de Quadrinhos do Ucha e companhia, as aulas do Ilha Kaijuu. E o sarcasmo nicho-do-nicho-do-nicho do Gibi de Hominho. Eu, aqui, quase toda semana.

Para não falar dos grupos de Facebook, de Telegram e de WhatsApp, das tretas de Twitter e dos clubes de leitura. Que, somados, devem render mais papo de gibi do que tudo acima.

Parece que não é só um fenômeno brasileiro. Embora eu não esteja tão entrosado com os leitores de outros países, vejo o crescimento do Cartoonist Kayfabe, a transição do Word Balloon de podcast para lives no YouTube, as aulas da Elsa Charretier. O estouro das newsletters.

Não sei se os franceses são chegados em tanto papo, em vídeos e áudios. Nem os portugueses. Os japoneses devem ser. Os coreanos também. Os italianos, provavelmente sim. Mas não conheço os leitores ou o fandom de cada país. (Taí uma boa pesquisa comparativa. A ver.)

É claro que tem a ver com a pandemia. Com mais gente em casa tanto para consumir todo esse conteúdo quanto com tempo de sobra para produzir todo esse conteúdo. Gente que não se encontra em feiras, que não acontecem mais, nem nas lojas, pois não podem aglomerar.

Também há estímulos monetários para se fazer conteúdo de áudio e vídeo, como os repasses do YouTube, o Super Chat, os programas de associados da Amazon e de algumas editoras, assim como os Apoia-ses, Catarses Assinatura e “mande seu pix para _____”.

Quadrinhos são um nicho do mercado das distrações, e um nicho pequeno perto do cinema, dos games, da música. É provável que nunca se tenha produzido tanto conteúdo para pequenos nichos na história da humanidade: canais de YouTube só de receitas com vagem, newsletters para daytraders veganos, grupos de WhatsApp só com fotos sensuais de calopsitas. Os quadrinhos são apenas mais um nicho que aproveitou essa megassegmentação dos gostos.

O fato é: do ponto de vista de quem acompanha e participa dos papos sobre quadrinhos há um bom tempo no Brasil, eu garanto que nunca se conversou tanto sobre gibi.

Não sei se todo esse papo é produtivo. Não sei se falar mais sobre HQ rende mais gente lendo HQ ou, melhor ainda, lendo boas HQs.

Quero acreditar que sim. Sou um crente na teoria de que quantidade rende qualidade e que, quando se tem um número absurdo de opções de conteúdo, a nata sobe. Os melhores canais são mais compartilhados e crescem no boca a boca (e nos algoritmos); os não tão bons ficam pela estrada. O que faz um canal ser melhor? O que cria algum entrosamento com o público, coisa que depende, entre outras coisas, de mostrar que você manja do assunto. Ou seja, que não vai abrir espaço para qualquer porqueira.

Por outro lado, o crescimento dos canais e o entrosamento com esse público crescente acaba cobrando seu preço em metas de engajamento (respeitar o algoritmo, um bicho bem difícil de driblar). E aí se cai com frequência na repetição de assuntos, no foco desnecessário na #tretadasemana, na insistência com lançamentos e na chance de te vender um Link Associado. Para manter o papo, é preciso financiar o papo.

Sinceramente, não gosto dessa tendência de virada do conteúdo para o vídeo e o áudio. Melhor dizendo: não sou o público para essa virada. Sou do texto, por vários motivos, e não assisto todos os vídeos de nenhum dos canais que citei acima. Nem ouço todos os podcasts. Não acompanho cada Instagram. Leio todas as colunas, porém.

Mas eu seria um imbecil (e um pouquinho elitista) se não concordasse que o deslocamento do papo sobre quadrinho para o YouTube e podcasts, e onde mais houver áudio e vídeo, fez esse papo sobre quadrinhos crescer.

Ainda tenho problemas com lives e, no geral, com conteúdo que não tem roteiro nem edição. Acho que tem 5 ou 10 minutos interessantes que mereciam seu recorte nessas transmissões de uma, duas, três horas. Tem informações importantes, declarações bem dadas, momentos especiais que se perdem nesse material bruto, sem edição. O fato de quase nada disso ser facilmente “pesquisável” – como eu acho aquele dado sobre mangás no vídeo, em que ponto do podcast se dá aquele detalhe sobre a Grafipar (belo episódio, aliás), quando e o que o Fora do Plástico falou da Tillie Walden – também me incomoda.

Editar e roteirizar dá trabalho, é óbvio. É praticamente como escrever, do que muitos fogem porque, eca, é escrever e, eca, tem que ler. Mas é um caminho que aparece em canais em crescimento como Quadrinhos na Sarjeta e Ministério dos Quadrinhos, com vídeos concisos e que demonstram um mínimo de roteiro para tratar de cada assunto. Ou no Confins do Universo, que mesmo em episódios de longuíssima duração não se dispersa quanto ao assunto da vez (seja por conta da edição ou de um roteiro bem preparado).

O caminho, a meu ver, é da seleção. De encontrar o equilíbrio entre as cobranças de público, de engajamento, dos algoritmos, mas não se render à produção de conteúdo apenas para encher horas. É ótimo que exista essa quantidade de papo sobre quadrinhos, mas o papo só se qualifica – e rende, tanto para quem assiste quanto para quem produz – quando se seleciona.

E esse papo, é claro, tem que continuar.

AS OUTRAS NOTÍCIAS DO ANO

Quando saiu o resultado do HQMix, não comentei o quanto achei significativo o quarto troféu consecutivo de Editora do Ano à Pipoca & Nanquim. Outras editoras já haviam ganhado quatro prêmios na categoria, mas nunca consecutivos.

Acho significativo porque a P&N é uma referência de trabalho editorial dentro e fora do mercado de quadrinhos. Enquanto o pensamento tradicional do mercado  editorial brasileiro era de que quem fazia divulgação era a livraria, não a editora, os pipocas souberam trabalhar o público que haviam formado como canal de YouTube para criar e manter uma editora que não só se atém à seleção e qualidade de produção refinadas, mas ao trabalho cuidadoso de divulgação que falta à imensa maioria das editoras.

(Mesmo que o catálogo de lançamentos deles me atraia menos do que atraía em anos anteriores, também é inegável que uma editora do porte a que eles chegaram deva se voltar, como se voltou, para o quadrinho brasileiro – e nada mais brasileiro e rentável do que Mauricio de Sousa – e para os mangás.)

Puxo esse assunto porque a quantidade de editoras de quadrinhos que surgiu no Brasil foi um dos assuntos recorrentes do ano e é concorrente sério a notícia do ano. Como eu mesmo mostrei na coluna, é só uma percepção: o número de editoras brasileiras de HQ caiu.

Mas há uma percepção de que esse número cresceu (como apontou este vídeo do Ministério dos Quadrinhos) e acredito que esta percepção tem a ver com as novas editoras seguirem um modelo forte de divulgação – tentando, dentro do possível, seguir o modelo da Pipoca & Nanquim. Elas são menos, mas falam mais. Volto ao assunto do topo da coluna: o papo cresceu.

O Superman bissexual é notícia do ano? É a treta do ano, o que foi projetada para ser. A edição com o beijo homossexual, tão comentada antes de sair, saiu no mês passado e mal rendeu papo, o que eu acho uma perda.

As vendas de mangás são notícia do ano? São, com certeza. Enquanto no Brasil cada seção de quadrinho em livraria online ou caixa que chega em banca/comic shop mal dá espaço para o que não é mangá, faltou papel pra atender a demanda de quadrinho japonês nos EUA e os adolescentes franceses se entopem de Chainsaw Man e companhia. No próprio Japão o quadrinho bate recordes: o último volume de Demon Slayer vendeu 5 milhões de exemplares em 2021.

O sumiço do quadrinho brasileiro é notícia do ano? Eu diria que sim. Sem eventos desde o ano passado, o quadrinho brasileiro teve um baque tremendo em número de lançamentos. As campanhas de Catarse seguiram valentes, as iniciativas de quadrinho digital são louváveis, mas o investimento das editoras nacionais em quadrinho nacional ficou abaixo do esperado.

2021 foi o ano que destravou Ed Brubaker/Sean Phillips no Brasil, que destravou Polina no Brasil, que destravou Stuck Rubber Baby no Brasil, que trouxe Chris Ware de volta pro Brasil, que recuperou Flávio Colin e abriu todas as porteiras para Junji Ito. Deve ter sido o ano em que mais se viu quadrinho argentino por aqui, que houve uma retomada (ainda tímida) do quadrinho francês, que Keum-Suk Gendry-Kim e Liv Strömquist saíram em português antes de serem festejadas em inglês. É um grande momento.

Alguém vai falar de como a Marvel explora os autores no ano que vem? Infelizmente, acho que sim. Alguém vai falar de Webtoons no ano que vem? Acho que muito, até o fim da década. E alguém vai falar de NFTs no ano que vem? Acho que não.

VIRANDO PÁGINAS

Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, saiu na França em 22 de dezembro de 2001 e completa 20 anos na próxima quarta-feira. É um dos meus quadrinhos preferidos e este ano ganhou uma espécie de continuação em Oleg.

Archie, um dos personagens mais famosos do quadrinho infantil norte-americano (mas só lá), completa 80 anos no próximo dia 22. Ele estreou na revista Pep Comics em dezembro de 1941, criado por John Goldwater e Bob Montana, e hoje é mais conhecido como uma das figuras de Riverdale.

Os Defensores, a equipe de heróis Marvel que você nunca esperava numa equipe, está completando 50 anos. Ela estreou em Marvel Feature n. 1, com criação de Roy Thomas e Ross Andru, de dezembro de 1971.

Decoração de parede com desenho de Vittorio Giardino

John Severin (1921-2012), um dos grandes desenhistas da EC Comics, da Marvel e da Mad, completaria 100 anos no próximo dia 21. O roteirista Tony Isabella, criador do Raio Negro (da DC Comics) e roteirista de uma pilha de HQs, completa 70 anos na quarta, dia 22.

E Vittorio Giardino, o italiano que deixou a carreira de engenheiro elétrico para fazer belos quadrinhos, completa 75 anos na véspera do Natal.  O criador de Sam Pezzo, Max Fridman, Jonas Fink, Little Ego e outros deve estar curtindo uma aposentadoria na costa italiana, pois não publica novos álbuns desde 2009. Já no Brasil não se vê material dele desde os anos 1990…

UMA CAPA

De Alex Ross, em Fantastic Four: Full Circle. A graphic novel escrita e desenhada por Ross sai pela Abrams em agosto do ano que vem. (Por que a Abrams está lançando graphic novels da Marvel? Não sei.)

Reclame o quanto quiser do fotorrealismo do Ross. O que eu gosto mesmo no trabalho do homem é quando ele não escolhe um ângulo fácil.

UMA PÁGINA

Duas de Michel Fiffe, retratando momentos clássicos do Homem-Aranha.

OUTRA PÁGINA

Da alemã Barbara Yelin, em The Summer of Her Life, com roteiro de Thomas von Steinaecker (tradução de John Reddick). Uma das boas leituras do fim de ano.

MAIS UMA PÁGINA

Duas de Scott Chantler em Dois Generais, primeiro lançamento da nova editora Tortuga (com tradução de Jotapê Martins). O autor canadense conta a história do seu avô na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial, com um traço finíssimo, clássico, que te tira o tapete quando começa a mostrar sangue e braços voando. Está no Catarse e a previsão de lançamento é para fevereiro.

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#63 – Como se lê quadrinhos da Marvel?

#62 – Temporada dos prêmios

#61 – O futuro da sua coleção é uma gibiteca

#60 – Vai faltar papel pro gibi?

#59 - A editora que vai publicar Apesar de Tudo, apesar de tudo

#58 - Os quadrinhos da Brasa e para que serve um editor

#57 - Você vs. a Marvel

#56 - Notícias aos baldes

#55 – Marvel e DC cringeando

#54 – Nunca tivemos tanto quadrinho no Brasil? Tivemos mais.

#53 - Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

#52 - O direct market da Hyperion

#51 - Quadrinhos que falam oxe

#50 - Quadrinho não é cultura?

#49 - San Diego é hoje

#48 - Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 - A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 - Um clássico POC

#45 - Eisner não é Oscar

#44 - A fazendinha Guará

#43 - Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 - A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 - Os quadrinhos são fazendinhas

#40 - Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 - Como escolher o que comprar

#38 - Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 - Desculpe, vou falar de NFTs

#36 - Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 - Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 - Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 - WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 - Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 - Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 - HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 - O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 - Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 - Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 - Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 - Mais brasileiros em 2021

#24 - Os brasileiros em 2021

#23 - O melhor de 2020

#22 - Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 - Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 - Seleções do Artists’ Valley

#19 - Mafalda e o feminismo

#18 - O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 - A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 - Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 - A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 - Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 - Cuidado com o Omnibus

#12 - Crise criativa ou crise no bolo?

#11 - Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 - Mais um fim para o comic book

#9 - Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 - Como os franceses leem gibi

#7 - Violência policial nas HQs

#6 - Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 - Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 - Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 - Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

#2 - Café com gostinho brasileiro e a história dos gibis que dá gosto de ler

#1 - Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

#0 - Warren Ellis cancelado, X-Men descomplicado e a versão definitiva de Stan Lee

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