Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Os quadrinistas e o bolo das séries e filmes

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Os quadrinistas e o bolo das séries e filmes

E quem merece reconhecimento pelas novas produções do Marvel Studios

Érico Assis
11.12.2020
18h25

“Eu que me ferrei”, declarou Alex Ross, o famoso pintor dos super-heróis hiper-realistas (Marvels, O Reino do Amanhã, um monte de capas). Por quem ele se diz ferrado? Pela DC Comics e pela Warner.

Foi numa entrevista da semana passada ao podcast Word Balloonpor volta de uma hora e dez minutos de papo. Ele e o entrevistador John Siuntres conversavam sobre o uso de elementos de Reino do Amanhã – criação dele e Mark Waid – nos seriados da Warner durante o cross-over “Crise nas Infinitas Terras”. Por exemplo: o uniforme de Superman que Ross criou nos quadrinhos, que tem o S sobre fundo preto.

“Pegaram meu uniforme, mas foi só para botar naquela versão [Brandon Routh] do Superman”, diz Ross. “E a real é que eles ou não conseguiram ou não quiseram negociar com a produção da qual ele fez parte, do [filme de] Bryan Singer. Eu suponho que não queriam pagar a parte deles. Então, eu que me ferrei. Não pagaram nada nem pra mim nem pro Mark.”

Já tratei desse assunto numa coluna de outubro: quando criam personagens ou conceitos para a DC Comics, autores têm direito ao que se chama de equity. Se o personagem ou conceito for reaproveitado em qualquer mídia, os criadores ganham uma fatia(zinha) do bolo.

Ou tinham esse direito. Pelo jeito, esconderam o bolo. Ross diz que é uma coisa recente. “Eles podem reciclar o conteúdo que eu criei, e antes pagavam. Sem brincadeira, faz tipo um ano que me pagaram por outras coisas, eram os… ‘bônus voluntários’, como eles diziam. Quando eles te dão um donativo, em dinheiro, para você não sair reclamando por aí, como estou fazendo nesse momento. [Para que eu não fique] dizendo ‘Oh, me passaram pra trás.’”

Ross segue a lista: “Crise nas Infinitas Terras” também mostrou o Bruce Wayne com exoesqueleto de Reino do Amanhã. No novo filme da Mulher-Maravilha, ela usa a armadura dourada que ele projetou em Reino. A versão atual da Batwoman, que virou o seriado de TV, teve concepção visual dele há 15 anos. O reaproveitamento de tudo isso na TV e no cinema não lhe rendeu um trocado da Warner. E Ross diz que devem vir outros reaproveitamentos de Reino do Amanhã nos seriados, pelos quais ele não espera receber nada.

O que me fez pensar na lista monumental de seriados e filmes que a Disney apresentou ontem. Focando só nos anúncios da Marvel Studios, mais de metade das produções é claramente baseada em HQs famosas. Você já explicou a um jovenzinho o que foi “Guerra das Armaduras”? Eu já.

A Marvel ou a DC têm todo direito de revirar o catálogo de gibis – décadas e décadas de gibis – e pinçar o que acharem interessante para transformar em filme, seriado, videogame ou o que quiserem. É a propriedade intelectual das editoras. Quadrinistas que criaram essa propriedade intelectual estavam lá para criar propriedade intelectual e, sabendo ou não que essas criações iam virar séries e filmes de milhões e bilhões, assinaram contratos cedendo a propriedade intelectual.

Mas a questão não se resume aos contratos. É uma questão de valorização. Se vai acontecer uma adaptação de “Guerra das Armaduras”, e não das outras 7.842 histórias do Homem de Ferro, é porque David Michelinie, Bob Layton, Mark Bright, Barry Windsor-Smith e outros comparsas criaram uma boa história do Homem de Ferro lá em 1988. Uma história que é lembrada por fãs do personagem a ponto de ser aprovada como argumento para um novo seriado da Disney+.

Tem 7.834 histórias do Homem de Ferro que não ganharam essa distinção. Por que essa ganhou? Porque houve uma química especial entre os leitores e o que os autores botaram no papel.

Assim como aconteceu com o Visão de Tom King e Gabriel Hernández Walta – parte da inspiração de WandaVision. Assim como America Chavez, criação de Joe Casey e Nick Dragotta, que vai ganhar versão de cinema em Doctor Strange in the Multiverse of Madness (que, aliás, deve explorar os mundos bizarros que Steve Ditko desenhava nos gibis do Doutor). Assim como Kate Bishop, a Gaviã Arqueira, criação de Allan Heinberg e Jim Cheung. Assim como Ms. Marvel, Mulher-Hulk, Cavaleiro da Lua, Blade, Soldado Invernal, Falcão, Gorr, Loki, Coração de Ferro, Invasão Secreta etc. e respectivos criadores.

A química entre estas criações e os leitores é obra dos escritores e desenhistas. Essa química é valorizada pelos produtores, que veem ali uma chance de criar histórias que rendem dinheiro. A participação de quem concebeu e conseguiu essa química tem que ser valorizada – em dinheiro.

No mínimo para o autor não sair por aí reclamando que foi passado pra trás, como disse Alex Ross.

Como o pintor também disse, a DC chamava os bônus por equity de “voluntários” porque não era obrigada a pagar. Mas pagava. A Marvel também não prevê divisão do bolo em contrato e não se voluntaria a pagar por equity – a não ser quando sente a pressão.

Len Wein conseguiu algum reconhecimento monetário por Wolverine, Jim Starlin conseguiu algum reconhecimento monetário por Thanos. Os herdeiros de Jack Kirby e de Jerry Siegel entraram na justiça para conseguir reconhecimento, perderam, mas chegaram a acordos extrajudiciais que, por mais que sigilosos, fizeram as famílias pararem de reclamar - porque ficaram bem resguardadas financeiramente, espera-se.

Alex Ross acha que os “bônus voluntários” pararam devido à nova gerência da Warner e da DC: a AT&T, que comprou a Warner e assumiu efetivamente a empresa no início deste ano, pode ter mudado as regras – e está fazendo uma reestruturação pesada na sua subsidiária de entretenimento. A Disney, com sua subsidiária Marvel, vem de uma tradição, desde os tempos do tio Walt, de apagar o nome dos colaboradores da história.

O futuro não parece promissor. Mas, por enquanto, ainda dá para reclamar. E os leitores deviam reclamar junto.

META MATA AUTORES

Quadrinistas também estão em risco nas mãos dos próprios personagens que criam. Foi o que aconteceu com Leo Freitas, desenhista literalmente decepado pelos seus desenhos enquanto fazia uma página de Tropical Force.

É a cena que ativa a trama de Meta: Depto. de Crimes Metalinguísticos, nova HQ de Marcelo Saravá, André Freitas, Omar Viñole e Deyvison Manes. Foi um dos lançamentos da CCXP Worlds, via editora Zarabatana.

O álbum é um típico e esperto suspense policial, um quem-matou-quem, turbinado por todas as sacadas metalinguísticas que você imaginar. (E algumas que não: preste atenção no marca-páginas.) O protagonista Alan Mancuso – que tem a cara do roteirista Marcelo Saravá – descobre que existe uma organização especial que investiga crimes metalinguísticos, como esse em que as criações mataram o criador. Vamos conhecer a organização junto com ele.

O último capítulo é uma das grandes surpresas do quadrinho nacional este ano: é uma longa homenagem metalinguística ao melhor do próprio quadrinho nacional (e a alguns gringos). Grata, grata surpresa.

Meta: Depto. de Crimes Metalinguísticos está à venda com o autor ou na editora Zarabatana, que também tem um preview.

IRENE

A tira, do novo projeto do quadrinista gaúcho André Macedo, diz muito sobre o que vão ser os próximos dias – ou de como deviam ser os próximos dias – em todo o Brasil.

As tiras fazem parte de um projeto maior para o público infantil, chamado Irene na Casa do Blau. Tem um desenho animado, homenagens literárias e Uíque, um celular faz-tudo.

Mais aqui: https://www.irenenacasadoblau.com/

MELHORES DE 2020

As listas já começaram. A ACBD, associação de jornalistas e críticos de quadrinhos do quadrinho franco-belga (pois é, isso existe), selecionou o melhor do ano: Peau d’Homme, de Hubert e Zanzim. Passada durante o período da Renascença, é a história de uma mulher que pode usar pele de homem para viver vidas masculinas.

O prêmio também foi uma homenagem a Hubert, colorista e roteirista – autor de obras premiadas, como Beauté e Miss Pas Touche (ambas com a dupla Kerascoët) – que se suicidou no início de 2020, aos 49 anos.

Vale a pena ver a lista de 15 selecionados da ACBD.

O jornal The Guardian deu preferência a obras baseadas em fatos – como Welcome to the New World, que já ganhou um Pulitzer – e autores novos no mercado, como Matthew Dooley (Flake) e Hannah Eaton (Blackwood). No fim da lista, um álbum que já saiu no Brasil: A Solidão de um Quadrinho sem Fim, de Adrian Tomine.

Veja a lista completa do Guardian.

Para terminar, a National Public Radio deu uma lista de vinte lançamentos do ano especificamente para o público infantojuvenil. Além de alguns autores conhecidos, como Derf Backderf (com Kent State, que está em muitas listas de melhores do ano) e Allie Brosh, tem dois materiais de super-herói que saem por aqui no ano que vem: Quarteto Fantástico: Grand Design, de Tom Scioli (no fim deste mês, pela Panini) e Wonder Woman: Dead Earth, de Daniel Warren Johnson (ainda sem previsão – falei dela aqui).

Veja a lista completa da NPR.

UMA PÁGINA

De Tradd Moore, em Batman: Black and White n. 1, lançada esta semana nos EUA. A nova minissérie de Bat-histórias em preto e branco começou forte, com J.H. Williams III, Emma Rios, Greg Smallwood e Moore, que é um dos maiores ilustradores na ativa no quadrinho norte-americano.

UMA CAPA

De Adam Hughes, em Black Widow n. 5, que sai no mês que vem nos EUA. Belo exercício de perspectiva do grande desenhista. A minissérie começou a sair este ano nos EUA – devia ter acompanhado o lançamento do filme da Viúva, adiado para o ano que vem – e também traz desenhos sensacionais nas páginas internas, da italiana Elena Casagrande.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

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