Enquanto Isso | Mais um ano lendo gibi

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Enquanto Isso | Mais um ano lendo gibi

Ou: os melhores do ano

Érico Assis
29.12.2021, às 14H33
ATUALIZADA EM 29.12.2021, ÀS 16H31
ATUALIZADA EM 29.12.2021, ÀS 16H31

Minha meta de leitura de todo ano é: uma por dia. Pode ser um livro, pode ser uma revista, pode ser um gibi indie de 20 páginas, pode ser uma graphic novel de 600. Preciso fechar 365 leituras por ano.

Não leio todos os dias. Tem dias em que termino 10 leituras. Quer dizer que posso ter passado dias lendo aquele quadrinho mais longo, semanas lendo aquele livro, pode ser aquela leitura que eu estou empurrando com a barriga há mais de um ano. Só conto quando termino a última página. Também largo gibis e livros pela metade, porque a vida é curta; aí eles não entram na conta.

Por que estas metas? Em parte porque é meu trabalho, em parte porque eu sou humano. Ser humano significa que não vou dar conta dos 2240 lançamentos em HQ que o Guia dos Quadrinhos registra no Brasil em 2021 – nem quero ler tudo que sai no Brasil, nem só o que sai no Brasil. Quanto ao meu trabalho, sou jornalista e tradutor da área de HQ, tenho uma função de crítico que às vezes é pontual – escrever resenhas – e às vezes é transversal a todo o resto. Como esta coluna.

Entendo que o crítico, entre outras coisas, deve estar atualizado quanto ao que o mercado oferece. Só vou me atualizar lendo, lendo em quantidade. Quero ler o que meu tino sugere, quero ler o que os outros estão comentando e quero surpresas. Trezentos e sessenta e cinco leituras por ano dão conta disso? Não sei, o número segue apenas o critério arbitrário de nasceres do sol em um ano. É o que o humano aqui consegue. Torço que sirva à função do crítico.

Passei um pouquinho da meta: 384 leituras até hoje, a dois nasceres do sol de acabar o ano. Revi meu diário de leituras e tenho algumas coisas pra sugerir. Quero dar uma seleção da seleção para você, mas também quero fazer uma seleção da seleção do meu diário para lembrar deste ano daqui a tempos.

Não tenho um número pra passar, tipo top 10. Também não vou recomendar 50 quadrinhos. Mas quero falar de tudo de bom que ficou na minha cabeça este ano. 

O MELHOR DO BRASIL É O BRASILEIRO

Bom Dia, Socorro é o quadrinho brasileiro do ano. Não só porque é criação de um brasileiro, o Paulo Moreira, mas também porque retrata o Brasil tanto quanto samba, caipirinha e político dando vexame.

Já comentei Bom Dia mais de uma vez na coluna durante este ano. É a batalha entre duas donas de casa de João Pessoa disputando quem manda o melhor bom-dia no WhatsApp. Uma batalha que chega a nível saiyajin. Tem sangue, tem glória, tem inveja, tem um moleque que tropeça e bate a cara no chão e tem gatinhos, muitos gatinhos. Tem o Brasil e tem várias verdades sobre o que é ser humano nesse momento da existência. É a definição de arte.

Bom Dia, Socorro, até onde sei, só existe no Twitter. Nada contra a opção do autor de publicar onde quiser, mas tudo contra todas editoras que ainda não correram atrás do Paulo Moreira e de uma mísera edição digital de Bom Dia, Socorro.

Sim, Isolamento de Helô D’Angelo é outro grande retrato em quadrinhos do Brasil de 2021. Escuta, Formosa Márcia, de Marcello Quintanilha, é outro belo retrato de um Brasil, assim como Aurélia Precisa Pagar o Aluguel, de Diego Sanchez, é um bom retrato de outro Brasil, e Crisálida, de Vinicius Velo, é mais um Brasil que é discutido com clareza e novas ideias. Todos são ótimos. Bom Dia é só um dos retratos brasileiros que eu levo do ano.

O SARRAFO COMEÇOU LÁ EM CIMA

Comecei o ano comentando que duas leituras de janeiro já iam entrar nos melhores de 2021: Oleg, de Frederik Peeters, e Paul at Home, de Michel Rabagliati. Na minha lista, as duas continuaram lá no topo até o fim de ano.

A coincidência de temas – uma viagem funda na cabeça de dois homens trancados em casa ou nas próprias cabeças – é só isso, coincidência. Cada uma é brilhante a sua maneira. Li Oleg na edição da Nemo (com tradução de Fernando Scheibe). Li Paul at Home em inglês e fiquei contente em ver a edição brasileira, Paul em Casa, no fim do ano pela Comix Zone (com tradução de Fernando Paz).

O outro momento em que senti que estava lendo um dos quadrinhos para levar para a vida foi em Always Never, de Jordi Lafebre (com tradução de Montana Kane). Também conhecida como Malgré Tout, no original, ou como Apesar de Tudo, como está quase saindo no Brasil. Tem uma polêmica em torno do lançamento dessa HQ por aqui que não dá para esconder. Também não dá para esconder a maravilha que o Lafebre fez. Leia do jeito que achar melhor, mas leia.

OS QUADRINHOS SÃO OS MESMOS, VOCÊ QUE NÃO É MAIS O MESMO

Tem aqueles quadrinhos que você reencontra. Eles são os mesmos que você já leu, mesmo assim você torce que eles te digam algo de novo. Estes disseram.

Li de novo A Casa, de Paco Roca, que saiu em março pela Devir (com tradução de Jana Bianchi). É daqueles quadrinhos que você pode recomendar a qualquer ser humano. Aliás, belo presente para seus amigos que ainda não leem HQ.

Reli Polina, de Bastien Vivès, quando saiu em abril pela Nemo (com tradução de Fernando Scheibe). Já é clássico fora do Brasil e o estranho é quanto tempo levou para sair aqui. Narrativa brilhante, desenho econômico excepcional. Travei de novo naquela pirouette que a Polina dá para a turma de bailarinas no final. Continua linda.

Concrete: the Human Dilemma, de Paul Chadwick, foi o fechamento do meu projeto de ler toda a coleção de Concreto – sendo que este, o volume final, era o único que eu já tinha lido. Mistura crise populacional, gravidezes indesejadas e um homem dentro de uma carapaça de pedra que quer deixar alguma contribuição para o mundo. Continua brilhante. (E continua inédita no Brasil.)

(Meu projeto de leitura mais longo para este ano é Starman, de James Robinson, Tony Harris e companhia.)

Também reli Castelo de Areia, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters, pela quinta ou sexta vez. Ainda é das minhas preferidas da vida. Fui convidado a escrever um posfácio para a nova edição brasileira de Castelo (editora Tordesilhas, tradução de Diogo Rodrigues de Barros) então entenda que estou falando como interessado.

(E Tempo, a adaptação de Castelo para o cinema? É uma boa adaptação, se você cortar os últimos 15 minutos. Por favor, corte. E depois leia o quadrinho de novo.)

QUADRINHOS DE FOLHAR DE NOVO

Tem quadrinhos que a gente tem vontade de reabrir só pra folhar. Porque tem uma página bonita, ou várias páginas bonitas; porque tem aquela sequência que dá vontade de reler; porque tem umas frases que são pérolas.

Tenho alguma segurança de que vou reabrir The City of Belgium, de Brecht Evens, várias vezes, nem que seja para mostrar o que é Evens para quem não conhece. (Ele é outro autor inédito no Brasil.) Les Grands Espaces, de Catherine Meurisse, do mesmo jeito e pelo mesmo motivo. The Nice House on the Lake, de James Tynion IV e Álvaro Martínez Bueno, é outro desses.

Estranhas Aventuras, de Tom King, Mitch Gerards e Evan Shaner (Panini, tradução de Mario Luiz C. Barroso), também é desses que dá vontade de reabrir para reler trechos – mas estou devendo uma releitura completa depois do final. Também vou voltar a trechos de O Alcazar, de Simon Lamouret (Nemo, tradução de Renata Silveira). Na rabeira do ano, li Le Droit du Sol, de Étienne Davodeau, e tive certeza de que vou reler.

Enterrei Todos no Meu Quintal, de Luckas Iohanathan, vale pelas sequências, pelo modo como Iohanathan metaforiza etapas da vida de uma mulher em pequenos momentos de poesia gráfica que só se faz em quadrinhos. Posso dizer a mesma coisa de Shamisen, de Guilherme Petreca e Tiago Minamisawa, o quadrinho brazuca mais bonito do ano.

Nos dois casos, é possível que você pegue para ver trechos, mas acabe lendo de novo do início ao fim.

LIVROS DE VERDADE

Um abraço para o editor Lielson Zeni, que insiste em fazer a diferença entre quadrinhos e Livros De Verdade.

Li bem menos Livros De Verdade do que deveria, e quase tudo foi focado em quadrinhos. Minha leitura predileta do ano é Cartoon County, de Cullen Murphy, que eu vinha empurrando com a barriga há anos e tem um texto soberbo. Já falei tudo que podia aqui.

Em parte por trabalho, em parte porque eu queria muito, li What Cartooning Really Is, o livro de entrevistas com Charles Schulz (uma delas inédita); All of the Marvels, de Douglas Wolk, com passagens geniais (comentei aqui); e duas grandes e muito bem escritas biografias de Stan Lee, a de Abraham Riesman e a de Danny Fingeroth – as duas, ótimas análises do controverso e finado velhinho (comentei as bios aqui).

OS INCATEGORIZÁVEIS

Não conto minhas traduções para lista de melhores do ano (nem na lista de leituras) porque não leio traduções do mesmo jeito que leio o resto. Mas li Fictional Father, de Joe Ollmann, antes de saber que ia traduzir e considero uma das graphic novels do ano. Minha tradução sai no início de 2022 pela Comix Zone.

The Strange Death of Alex Raymond, de Dave Sim e Carson Grubaugh, foi uma das leituras mais estranhas do ano. Deixou marcas que ainda estou processando. Preciso reler.

The Book Tour, de Andi Watson, é uma história pequena que diz pouco, mas diz com uma elegância que te conquista. No One Else, de R. Kikuo Johnson, é outra que dá para descrever exatamente com as mesmas palavras. Assim como Crônicas da Juventude, de Guy Delisle (Zarabatana, tradução de Claudio Martini).

Imbatível, de Pascal Jousselin, é muito melhor do que haviam me dito, e eu só tinha ouvido elogios. Por outro lado, Pele de Homem, de Hubert e Zanzam, sofreu na minha leitura por conta de tudo que haviam elogiado – mas um dia quero reler sem o hype. Os três volumes de Torpedo, de Enrique Sanchez Abulí e Jordi Bernet, é o melhor trabalho de recuperação e arquivo que se viu no Brasil em 2021.

AINDA QUERO LER

Brega Story, de Gidalti Jr., e Lovestori, de Lobo e Alcimar Frazão. Le Monde Sans Fin, de Christophe Blain e Jean-Marc Jancovici. Quatorze Juillet, de Bastien Vivès. Tunnels, de Rutu Modan. Lanterna Verde: Setor Final, de N.K. Jemisin e Jamal Campbell. Algumas já estão aqui na estante, esperando algumas horas desses últimos nasceres do sol de 2021.

Também deixei uma lista de leituras a fazer no meu melhores do ano passado. Daquelas, só não consegui chegar a Regreso al Éden, de Paco Roca. Quem sabe em 2022?

VIRANDO PÁGINAS

Na última coluna, falei que Vittorio Giardino provavelmente estava aposentado e curtindo os 75 anos que completou na véspera de Natal. Errei. Giardino continua produzindo e, no dia de seu aniversário, a Rizzoli Lizard anunciou seu novo álbum, Tratti in Salvo. Sai em fevereiro na Itália.

Espera-se que o falecimento do norte-americano Ryan Bodenheim, desenhista da Marvel, Valiant e outras editoras, no último dia 20, encerre a lista de mortes do ano que levou, entre outros Hiroshi Hirata, Takao Saito, Ota, Mandryka, Kentaro Miura, John Paul Leon, Joye Hummel, Frank Thorne, S. Clay Wilson, Steve Lightle e tantos outros. Vocês seguem existindo na nossa leitura.

UMA CAPA PARA TERMINAR O ANO

De Наталья Акимова, ou Taschaka Akimova, para o cartaz do КомМиссия 2021, que aconteceu no início deste mês em Moscou. Dá para ver o cartaz com mais detalhes no Instagram. E obrigado às multimãos multitalentosas de todos os quadrinistas que fizeram meu ano.

UMA PÁGINA DO ANO

De Daniel Warren Johnson em “Generations”, de Superman: Red and Blue n. 5. Já tinha sido a página da vez na coluna. É de novo porque dizem que Superman não tem mais nada a dizer, mas aí você chega numa história de oito páginas e ela diz tudo que já foi dito de outro jeito – em oito páginas. De novo porque, quando dizem que não há mais nada para fazer com super-heróis, aparece um Daniel Warren Johnson. De novo porque é a história que eu mais reli em 2021. E vou ler de novo agora.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#65 – A notícia do ano é

#64 – Quando você paga pelo que pode ler de graça?

#63 – Como se lê quadrinhos da Marvel?

#62 – Temporada dos prêmios

#61 – O futuro da sua coleção é uma gibiteca

#60 – Vai faltar papel pro gibi?

#59 - A editora que vai publicar Apesar de Tudo, apesar de tudo

#58 - Os quadrinhos da Brasa e para que serve um editor

#57 - Você vs. a Marvel

#56 - Notícias aos baldes

#55 – Marvel e DC cringeando

#54 – Nunca tivemos tanto quadrinho no Brasil? Tivemos mais.

#53 - Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

#52 - O direct market da Hyperion

#51 - Quadrinhos que falam oxe

#50 - Quadrinho não é cultura?

#49 - San Diego é hoje

#48 - Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 - A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 - Um clássico POC

#45 - Eisner não é Oscar

#44 - A fazendinha Guará

#43 - Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 - A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 - Os quadrinhos são fazendinhas

#40 - Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 - Como escolher o que comprar

#38 - Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 - Desculpe, vou falar de NFTs

#36 - Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 - Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 - Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 - WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 - Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 - Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 - HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 - O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 - Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 - Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 - Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 - Mais brasileiros em 2021

#24 - Os brasileiros em 2021

#23 - O melhor de 2020

#22 - Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 - Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 - Seleções do Artists’ Valley

#19 - Mafalda e o feminismo

#18 - O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 - A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 - Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 - A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 - Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 - Cuidado com o Omnibus

#12 - Crise criativa ou crise no bolo?

#11 - Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 - Mais um fim para o comic book

#9 - Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 - Como os franceses leem gibi

#7 - Violência policial nas HQs

#6 - Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 - Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 - Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 - Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

#2 - Café com gostinho brasileiro e a história dos gibis que dá gosto de ler

#1 - Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

#0 - Warren Ellis cancelado, X-Men descomplicado e a versão definitiva de Stan Lee

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