Enquanto Isso... nos Quadrinhos | A volta da HQ argentina ao Brasil

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | A volta da HQ argentina ao Brasil

Por que o quadrinho argentino voltou a ter força no mercado brasileiro?

Érico Assis
30.10.2020
14h47
Atualizada em
06.11.2020
12h58
Atualizada em 06.11.2020 às 12h58

Cosecha Verde é uma das obras da biblioteca básica do quadrinho argentino. Trama policial com toques de crítica política, a criação do roteirista Carlos Trillo e do desenhista Domingo Mandrafina acompanha um ex-policial tentando salvar a sobrinha de um ditador numa republiqueta latina fictícia.

Mandrafina é do traço clássico, elegante, mas que sabe dar tensão à página como um Frank Miller. Trillo (1942-2011) era o grande contador de histórias do quadrinho argentino, e Cosecha lhe valeu o prêmio de roteiro no Festival d’Angoulême em 1999.

Cosecha Verde apareceu no Brasil quase trinta anos depois da publicação original, vinte e poucos anos depois de um prêmio internacional de peso. Saiu aqui como A Grande Farsa (editora Comix Zone, tradução de Jana Bianchi). Num mercado cheio de opções de quadrinho norte-americano, franco-belga, japonês e italiano, o trabalho premiado e festejado de um país aqui do lado ainda era inédito. Por quê?

“Faltava apenas quem publicasse e quem indicasse”, diz o editor Thiago Ferreira, da Comix Zone. “Felizmente, com a editora e o canal [de YouTube] eu posso fazer os dois. O leitor brasileiro nunca esteve fechado para os quadrinhos argentinos.”

Pode ser. A alta qualidade do quadrinho argentino e seus grandes nomes nunca foi segredo entre as editoras do Brasil, sobretudo porque os argentinos têm destaque e prêmios na Europa. Mas poucas editoras brasileiras se arriscaram a importar os clássicos dos hermanos.

Problema de idioma? Com os temas mais adultos? Rivalidade com o vizinho? Futebol? Será que eles não queriam ser publicados por aqui? Ninguém sabe.

Claro que nunca ficamos sem Mafalda e tudo mais do Quino (1932-2020), nem sem Maitena, nem sem Liniers. Liniers e seu Macanudo, aliás, saíram pela editora Zarabatana, que também trouxe argentinos contemporâneos como Salvador Sanz, Lucas Varela, Ignacio Minaverry e outros ligados à revista Fierro (que teve duas coletâneas brasileiras) entre 2008 e 2012.

Mas e os hermanos clássicos que, desde os anos 1970, pularam o Brasil e o Atlântico para sair na França, na Itália, na Espanha, vendendo-se como o melhor do quadrinho sul-americano antes de qualquer brasileiro ser premiado por lá? Por que ninguém queria tocar nesse material por aqui?

Nos últimos doze meses, chegaram ao Brasil Eternauta 1969 (H.G. Oesterheld e A. Breccia, trad. Thiago Ferreira, Comix Zone), Alvar Mayor (Trillo e Enrique Breccia, trad. J.P. Rolim, Lorentz), Sherlock Time (Oesterheld e A. Breccia, trad. Thiago Ferreira, Comix Zone), Informe Sobre Cegos (A. Breccia, baseado em Ernesto Sabato, trad. Rodrigo Rosa, Figura), além de A Grande Farsa.

Estão anunciados Buscavidas (Trillo e A. Breccia, Comix Zone), Ernie Pike (Oesterheld e Hugo Pratt, Figura), A Fortaleza Móvel e o Mundo Subterrâneo (Ricardo Barreiro e Enrique Alcatena, Pipoca & Nanquim) e as adaptações de O Coração Delator, de Edgar Allan Poe, e Os Mitos de Cthulhu, de H.P. Lovecraft, por A. Breccia (Quadrinhos na Cia.). A nova editora Trem Fantasma anunciou sua linha com três clássicos de argentinos: El Sueñero, de E. Breccia, Ninguém, de Trillo e A. Breccia, e Fulù, de Trillo e Eduardo Risso.

O início desta nova onda está em Mort Cinder, principal colaboração de dois nomes tratados como sumidades na Argentina: Hector Germán Oesterheld (1919-1977) e Alberto Breccia (1919-1993). Mort saiu aqui pela Figura Editora em 2018, com tradução de Ernani Ssó.

“A editora nasceu com a ideia de publicar esses livros que adorávamos e não era possível encontrar no Brasil. Não sabíamos se seria bem recebido e não havia como saber”, dizem Rodrigo Rosa e Ivette Giraldo, da Figura.

Mort Cinder teve uma campanha de sucesso no Catarse – por onde passam todas as publicações da Figura – e ganhou o prêmio HQ Mix de melhor álbum estrangeiro. “Difícil dizer o que mudou na visão do público, mas acreditamos que impacto da recepção de Mort Cinder ajudou a abrir os olhos não só do público, mas também de outras editoras para essa produção de autores já consagrados entre os hermanos”, dizem Rosa e Giraldo.

"Brincamos dizendo que, depois de publicar Mort Cinder, já poderíamos fechar a editora, pois nossa missão havia se cumprido". O casal da Figura segue investindo em argentinos, como mostra a lista acima.

“O mercado brasileiro passou muito tempo focado em comics e com isso a quantidade de clássicos mundiais inéditos por aqui, produzidos na Argentina ou na França/Bélgica, é enorme”, diz Marcello Fontana, da recém inaugurada Editora Trem Fantasma.

Ele destaca, por exemplo, Fulù, a saga da escrava negra criada por Carlos Trillo e Eduardo Risso – o mesmo desenhista hoje famoso por 100 Balas, Batman e outros materiais nos EUA, aqui no início de carreira. Fora os nomes envolvidos, a história se passa parcialmente no Brasil. “Sinceramente, não sei como nenhuma editora daqui ainda não tinha olhado pra esse material”, diz Fontana.

A Pipoca & Nanquim, com mais tempo de mercado, diz que chegou na sua primeira publicação apenas com autores argentinos (eles lançaram Um Pequeno Assassinato, colaboração de Alan Moore com o argentino Oscar Zárate, em 2017) por conta da sua linha de espada e feitiçaria. A Fortaleza Móvel e o Mundo Subterrâneo, de Barreiro e Alcatena, tem algo de Conan na história de um castelo sobre rodas, gladiadores e, claro, espadaria.

“Atualmente, com essa nova fase de surgimento de novas editoras, muita gente passou a olhar para materiais com renome e potencial de vendas que ainda não pertenciam a outras editoras”, diz Daniel Lopes, da Pipoca & Nanquim. “É um movimento muito próximo do que a PN faz desde sua origem na metade de 2017.”

Como se vê na lista acima, Alberto Breccia é uma constante: seis dos álbuns são dele (e dois do seu filho, Enrique). O nome e a obra eram conhecidos de nove em cada dez desenhistas e editores no Brasil, mas quase toda sua produção era inédita no mercado nacional.

Breccia teria completado cem anos em 2019, o que ajudou no resgate do seu material. Não só no Brasil, mas no mundo: editoras da França, da Itália e da Espanha republicaram Breccia nos últimos três anos, assim como a Fantagraphics lançou a Alberto Breccia Library nos EUA. O espólio do autor encontrou uma nova representante internacional, que está recuperando o nome do mestre mundo afora.

Ao mesmo tempo, aconteceu uma coisa crucial: a recuperação dos originais da obra de Breccia para redigitalização. Os álbuns dele (e outros) que saíram nos últimos três anos têm qualidade de reprodução infinitamente superior aos que circularam na Argentina e na Europa por anos. Embora o principal do autor já tenha sido recuperado, outros trabalhos dele devem reaparecer em breve.

Carlos Trillo é o nome que vem logo atrás, em cinco dos álbuns já lançados ou anunciados no Brasil. No caso do roteirista, há uma biblioteca gigantesca, com mais de trinta anos de produção. “Ele tem uma quantidade absurda de HQs de extrema qualidade ainda inéditas no Brasil”, diz Marcello Fontana, da Trem Fantasma.

Ainda tem mais coisa para sair do baú de tesouro do quadrinho argentino? Muita. A onda recente ainda não chegou, por exemplo, na dupla Carlos Sampayo e José Muñoz – que tiveram Billie Holiday lançado aqui pela Mino, em 2017 (trad. Maria Clara Carneiro). Mas não há nenhuma notícia do trabalho mais famoso da dupla, Alack SinnerPor enquanto.

Outra grande figura do desenho argentino, Horacio Altuna, segue mais conhecido por HQs eróticas e curtinhas que circulam na internet do que por obras de peso como El Loco Chávez e El Ultimo Recreo - ambas com roteiro de Carlos Trillo e ambas também com erotismo de sobra.

Perguntei a Paulo Ramos, autor de Bienvenido: um passeio pelos quadrinhos argentinos (ed. Zarabatana) e nosso maior entendido em historietas, uma lista de cinco clássicos argentinos que estariam pedindo para sair aqui. Ele se fez de difícil (“tenho uma dificuldade danada em fazer listas assim… há sempre mais obras que números disponíveis… não quero cometer injustiça…”), mas topou.

Las Puertitas del Señor Lopez, de Carlos Trillo e Horacio Altuna

Ministerio, de Ricardo Barreiro e Francisco Solano Lopez

Perramus, de Juan Sasturain e Alberto Breccia (um dos últimos volumes foi publicado no Brasil; os primeiros permanecem inéditos)

La Guerra de los Antartes, de Oesterheld e Gustavo Trigo (não é a melhor obra de Oesterheld, mas é uma das que melhor explicam sua fase militante)

Semblanzas Deportivas, de Fontanarrosa

Convido todos a verificar a lista do Paulo em 2022 e conferir se as editoras brasileiras seguiram as dicas. Se é que esse material já não está negociado.

A Comix Zone diz que tem quatro lançamentos com argentinos agendados para 2021 (“mas pode ser mais”, diz Thiago Ferreira). A Figura tem um projeto argentino que pode sair no ano que vem ou no seguinte. A Pipoca & Nanquim diz que está negociando algumas obras e tem outras em vista (“a gente gosta de lançar um autor e dar continuidade ao trabalho dele por aqui, então a ideia é trazer mais coisas do Ricardo Barreiro e do Enrique Alcatena, com certeza”, diz Daniel Lopes). A Trem Fantasma está “em conversa sobre uma outra obra argentina e temos planos para várias outras”, diz Marcello Fontana.

Uma coisa é certa: não foi a alta do dólar que levou as editoras nacionais a buscar autores que supostamente vendem direitos em pesos. Até porque os direitos da maioria não são negociados em pesos.

“No caso de Breccia e Oesterheld, os direitos estão com agências internacionais com base na Europa”, dizem Rodrigo Rosa e Ivette Giraldo, da Figura. “Mas mesmo no caso da família de Carlos Nine – outro argentino que a Figura publicou, com Crimes e Castigos“também preferiram negociar em dólares, devido à volatilidade do peso argentino.” O material de Carlos Trillo tem representação nos EUA, segundo a Trem Fantasma.

Dos consultados, só A Fortaleza Móvel, da Pipoca & Nanquim, foi negociado em pesos. “Mas, definitivamente, não foi um fator determinante”, diz Daniel Lopes. “Nosso processo de escolha de publicações não é pensado dessa maneira financeira.”

Thiago Ferreira, da Comix Zone, aproveitou a oportunidade: “É bom você perguntar isso, pra desmistificar essa lenda de que ‘ESTÃO COMPRANDO QUADRINHOS ARGENTINOS PORQUE SÃO BARATOS’. Tudo é negociado em dólar. Inclusive a agente do Breccia é italiana e cobra caro!”

BRASILEIROS PELO MUNDO

Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, França, Romênia, Grécia, Hungria, Turquia e Polônia. É a lista dos países que, segundo a Quadrinhos na Cia., vai publicar 1984, a adaptação do livro de George Orwell pelo paulistano Fido Nesti. Que chega nas livrarias do Brasil (e da França) entre esta semana e a próxima. As outras saem a partir do ano que vem – e deve ter mais traduções vindo por aí.

Renégat vai ser o nome em francês da dita Trilogia Gatilho dos paulistas Carlos Estefan e Pedro Mauro. Sai pela editora belga BD Must entre janeiro e março de 2021, e tem previews aqui e aqui (o segundo é de uma espécie de Catarse Flex franco-belga).

A paraibana Gabriela Güllich deu entrevista em inglês à Solrad – “a revista literária online dos quadrinhos” – para falar de São Francisco (que ela produziu com João Velozo) e outros projetos, de como descobriu Joe Sacco pesquisando no Google por “jornalismo e ilustração” e do quanto queria ser a Glória Maria.

UMA CAPA

De Sex Criminals n. 69. No caso, da "capa alternativa XXX”. É a última edição da série, lançada esta semana. (A penúltima edição foi a n. 30; pularam trinta e oito números só para fazer piada.) Na foto, os autores Matt Fraction e Chip Zdarsky.

Sex Criminals era brilhante quando estreou, mas brochou no segundo ano e teve poucos momentos bons depois. Mesmo assim, tinha a seção de cartas mais engraçada – às vezes mais emotiva – dos quadrinhos. Disso eu vou sentir falta.

UMA PÁGINA

De Superman: Para o Alto e Avante, por Tom King, Andy Kubert, Sandra Hope, Brad Anderson e Clayton Cowles. Saiu há poucos dias pela Panini, com tradução do Leonardo Camargo.

É uma declaração de amor ao Superman, nas mãos de um dos escritores mais festejados nesses últimos anos – com motivo. Criada originalmente para as revistas da DC no Walmart, é uma história em ritmo acelerado explorando todos os aspectos do Super. Destaque para o capítulo que tem uma história a cada duas páginas. É das poucas HQs do Superman para guardar e reler.

 

(o)

 

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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