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Mapinguari e Flávio Colin: lendas brasileiras!

Mapinguari e Flávio Colin: lendas brasileiras!

Gazy Andraus
11.09.2003
00h00
Atualizada em
02.11.2016
09h00
Atualizada em 02.11.2016 às 09h00
Mapinguari e outras histórias

Flávio Colin

Flavio Colin é uma lenda da resistência criativa e do estilo ímpar nos quadrinhos nacionais. Mapinguari é uma lenda indígena da região amazônica, que se traduz por um enorme ser (com mais de dois metros de altura) e de placas duras nas costas, similares às de jacarés. Segundo alguns pesquisadores, pode ser, em realidade, um remanescente vivo ainda não descoberto dos antigos bichos-preguiça que habitaram o Brasil no final da era Pleistocênica (há mais de doze mil anos).

Mapinguari e outras histórias é um novo álbum póstumo de Flávio Colin: uma lenda sobre outra.

São cinco histórias em quadrinhos entremeadas por uma entrevista inédita, que ratificam o esplendor do estilo que caracterizou a verve guerreira e ecológica do autor, que infelizmente não é estudado nas nossas escolas simplesmente por um desconhecimento generalizado do potencial da cultura que existe no Brasil.

Na história título Mapinguari, que encabeça o álbum, metáfora desta denúncia também aparece como a caracterização dos empreendimentos capitalistas, mancomunados com corporações estrangeiras que não respeitam o ecossistema. Algumas referências nacionais estão também caricaturadas, como aquele ex-candidato político barbudo, de nome e aparição curtas na TV, que tinha como um dos objetivos na sua possível presidência engendrar a primeira bomba atômica brasileira.

Na segunda história, uma referência aos super-heróis norte-americanos (tanto aos dos quadrinhos como aos do cinema) está personalizada no exagero da personagem gringa Zartan, que veio combater a ação do Curupira, entidade elemental folclórica, que estaria atrapalhando o andamento de uma grande serraria instalada na selva amazônica. O final da história traz um tom irônico e inusitado, com um leve humor.

Na história seguinte, O gogó de sola, um tipo de macaco temido no Acre surge numa interessante e bem embasada descrição realizada por Colin, que, desta vez, centra fogo contra os caçadores desse animal. As duas últimas aventuras apenas foram desenhadas pelo autor e anteriormente publicadas na saudosa revista Calafrio. Estas duas pérolas do terror e suspense ambientam-se no outro extremo do Brasil, especificamente nas planícies gaúchas.

Este novo álbum de Flávio Colin, além de estar bem editado, oferece interessantes subsídios que podem ser usados principalmente em nossas instituições de ensino: além do arcabouço teórico do folclore tupiniquim, também a fauna e a flora, bem como a geografia, são apresentados de um jeito descontraído e fartamente ilustrado. Da mesma forma, a idiossincrasia da população nacional desses territórios encontra-se bem lapidada em contraposição ao American way of life, que se tornou sinônimo de globalização. Vários aspectos destas histórias em quadrinhos, se bem conduzidos - ou seja, amparados por professores conscientes -, podem se espraiar e se ampliar, servindo como material interdisciplinar a ser utilizado e sintetizado por alunos de todos os níveis de ensino.

O álbum Mapinguari e outras histórias, de Flávio Colin, custa R$ 10,90 e foi editado pela Opera Graphica Editora.

Gazy Andraus é pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

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