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Crítica

My Friend Dahmer | Crítica

Relato sobre adolescência de serial killer é uma das melhores graphic novels de 2012

Érico Assis
08.02.2013
11h51
Atualizada em
21.09.2014
14h53
Atualizada em 21.09.2014 às 14h53

Em 22 de julho de 1991, policiais de Milwaukee encontraram na rua um homem correndo semi-nu e com algema presa a uma das mãos, pedindo socorro. A vítima estivera na casa de outro homem, que o seduzira, amarrara e estava prestes a matá-lo, até ele conseguir fugir.

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Chegando à casa, a polícia encontrou fotos de corpos mutilados, uma cabeça humana na geladeira, um coração humano no freezer, outras três cabeças espalhadas por outros cômodos, fora mãos e pênis decepados. Imediatamente prenderam o dono da residência, Jeffrey Dahmer. Ele estava prestes a fazer sua décima-oitava vítima, na qual teria ou injetado uma seringa de água fervente no cérebro e/ou decepado com uma serra elétrica e/ou praticado necrofilia, como fizera com as demais.

A história de Jeffrey Dahmer é uma das mais marcantes entre os serial killers, reais e inventados, que tanto marcam o imaginário dos EUA. Amplamente divulgada, as descrições chocantes do que Dahmer fez ainda se ativam na cabeça dos norte-americanos quando se fala em assassinos seriais.

Mas qual seria sua reação se Dahmer tivesse sido seu colega de escola?

Derf Backderf foi colega do futuro serial killer durante o ensino médio, numa cidadezinha do Ohio, final dos anos 70. Dahmer era o colega esquisitão mas engraçado: alto, forte e usualmente calado, só abria a boca para uma forma peculiar de cumprimentar quem passava - uma contorção do corpo que parecia um ataque epilético, seguido de um "DÃÃÃÃRRR" em alto e bom som.

Backderf mostra o que viu - e um pouco do que se relatou depois - do final da adolescência de Dahmer: as experiências que fazia com bichos mortos no galpão de casa, os pais que o ignoraram em meio a um divórcio complicado, o refúgio no alcoolismo. Jeffrey faria sua primeira vítima poucos meses após a formatura no colégio.

O autor - que já tem carreira nos quadrinhos independentes dos EUA, e inclusive contou sua relação com Dahmer em HQs menores, anteriores a esta - faz questão de repetir, frisar e, se possível, teria sublinhado com marca-texto em todas os exemplares as diversas vezes em que diz que sua obra não é uma forma de explicar, justificar, quanto mais criar simpatia pelo ex-colega.

"A minha crença é que Dahmer não teria virado um monstro, e que todas aquelas pessoas não deviam ter sido assassinadas, nem de forma tão horrenda, se os adultos que faziam parte da vida dele não fossem tão inexplicavelmente, indesculpavelmente, incompreensivelmente apáticos e/ou indiferentes. No momento em que Dahmer mata, porém - e não tenho como deixar isso mais claro - minha simpatia por ele se encerra", escreve na introdução.

Backderf tem um desenho característico muito bem descrito por David Small, num dos elogios ao álbum, como "corpos que parecem robôs orgânicos". As deformações do estilo ficam entre o engraçado e o sombrio, o que dá um tom particular e forte à obra. Outra característica forte é a estrutura narrativa que conta o ensino médio dos personagens de forma quase toda linear, mas com uma bela seleção de momentos marcantes entremeando o relato.

My Friend Dahmer frequentou várias listas de melhores do ano nos EUA e pôs Backderf na lista de autores de quem se espera um bom fluxo de ótimas graphic novels. Prova desta capacidade é a escolha da cena finalíssima: em 1991, o autor recebe um telefonema da esposa, que diz que um de seus colegas de escola virou assassino serial. Na hora, Backderf berra o nome de um colega. Não foi o de Dahmer.

Nota do Crítico
Bom

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