A Grande Odalisca

Créditos da imagem: Divulgação/Pipoca & Nanquim

HQ/Livros

Crítica

A Grande Odalisca

As Panteras digirido por Steven Soderbergh

Érico Assis
14.11.2019
13h51

Quando se falou que Bastien Vivès - novo queridinho do quadrinho adulto francês, autor de O Gosto do Cloro, Polina e outros álbuns - ia colaborar com a dupla Ruppert e Mulot - conhecidos por HQs hermeticamente experimentais à moda do teatro do absurdo -, esperava-se um complexo drama existencial carregado de sutileza vanguardista, o tipo de gênero que os americanos gostam de rotular de "francês". O título A Grande Odalisca (inspirado no quadro de Ingres) e a capa impenetrável colaboravam para a sensação de algo intelectual e pretensioso. Quem ficou nesse pré-julgamento, porém, perdeu o melhor filme das Panteras.

As Panteras dirigido por Steven Soderbergh, para a comparação ficar melhor. Enquanto o trio de autores diz que sua referência é o mangá/anime Cat's Eye, dos anos 80, é difícil não ver o ponto de vista "indie" que Soderbergh dá às tramas de blockbuster - Onze Homens e um Segredo e continuações; mais recentemente, À Toda Prova - ser a linha guia do quadrinho.

A trama: Alex e Carole são as melhores ladras de arte da França e, por conseguinte, do mundo. O álbum já começa com elas invadindo o Musée d´Orsay, em Paris, e roubando O Almoço na Relva de Manet. Mas seu próximo serviço - roubar o quadro de Ingres que dá título à obra, que fica no impenetrável Louvre - vai exigir uma terceira colega, que seja exímia em fugas.

Se não bastasse um desfile de cenas de ação invejável para Hollywood - nas montanhas do México, duas delas invadem a mansão de um chefe do tráfico de armas usando apenas biquíni, e começam a atirar nos guardas com as mãos, fazendo barulhinho de tiro com a boca; a terceira colega dá os tiros de verdade de uma montanha próxima - na cena climática, uma moto usa a pirâmide de vidro em frente ao Louvre como rampa para entrar pelas janelas do vetusto museu. As explosões encheriam Michael Bay de orgulho.

Entremeando estas cenas de ação pura - e muitas vezes violentas, lembrando de novo Soderbergh em À Toda Prova -, há outras dedicadas às personalidades marcantes das meninas: que fazem o que fazem não por vingança, trauma ou algum problema com os homens (os motivadores femininos hollywoodianos), mas porque querem se divertir. A sexualidade das três também fica no ar, e parece tão ambígua ou irrelevante quanto as pessoas que elas matam para cumprir a missão. A falta total de moral é o que as torna as heroínas mais interessantes dos quadrinhos ou de qualquer mídia.

O álbum foi um dos grandes lançamentos de 2012 na França, rendeu alguns prêmios para os autores e, até sair em inglês ou despertar a atenção de Hollywood, vai continuar pouco falado fora da Europa. Mas pela proposta, pela narrativa, pelo excelente trabalho de cor (sempre ponto forte dos franceses) e, enfim, pela puxada de tapete que os autores deram em todo mundo que tinha outras expectativas, é uma das melhores HQs que saíram no planeta naquele ano.

Nota do Crítico
Bom