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Quadrinhofilia: O fim da Abril

Quadrinhofilia: O fim da Abril

José Aguiar
11.07.2002
00h00

Olá amigos, Faz tempo que estou ensaiando a volta da minha coluna. E pelo visto, muita coisa mudou enquanto estive fora: mudei de endereço, o dólar subiu, a seleção ganhou e...

...enfim, Abril fechou...

Bom. Não foi a editora que acabou. Uma era do mercado editorial de quadrinhos no Brasil é que virou história.

Pois é, a toda-poderosa dos gibis brasileiros largou de vez o osso! E qual a surpresa nisso? Primeiro foi a Marvel que mudou de endereço e de tratamento. Agora, o que parecia improvável anos atrás tornou-se fato: a Abril desfez-se dos super-heróis DC. Ainda sobrou o Spawn, grita alguém lá no fundo. Mas quem duvida que ele logo, logo não vai também para o vinagre?

A editora culpa o mercado. Afirma que as vendas eram inexpressivas, que o público estava bandeando para outras mídias e coisa e tal. Agora, cá entre nós, será que foi isso mesmo ou trata-se da mais pura falta de interesse?

Pense comigo. Se a coisa estivesse assim tão feia para o lado dos vigilantes mascarados, não haveria tantas editoras menores disputando a tapa os títulos das duas maiores editoras de HQs dos Estados Unidos. Posso estar enganado. Afinal, minha opinião é a de um leitor, distante dos bastidores. No entanto, a perda consecutiva de duas galinhas dos ovos de ouro não me cheira a fatalidade. Tem mais é cara de premeditação. Venhamos e convenhamos, os caras fizeram de tudo para largar esse segmento do mercado.

Lembro-me de comentários na época do cancelamento da revista Vertigo publicada pela Abril em meados dos anos 90. Os boatos eram de que a revista vendia bem (não horrores, mas dava pro gasto) e que simplesmente fora cancelada, porque um dos figurões da editora escandalizou-se com o teor de violência de suas páginas!!! Hoje, esse material é disputado por todo mundo. Afinal, qualquer um em sã consciência sabe que se trata de gibi de primeira qualidade, ainda que não venda horrores mesmo.

Se o que mencionei acima aconteceu para valer, o caso demonstra uma tremenda ignorância por parte da editora, que desconhecia o material por ela mesma editado. Opa!!! Mas uma afirmação dessa é o mesmo que dizer todo mundo na Abril não entende de quadrinhos. Isso está longe de ser verdade. Afinal, foi justamente essa empresa que fez amadurecer o mercado editorial brazuca. Será que preciso citar seus longos anos de sucesso, as inúmeras graphic novels, as mini-séries e os títulos que ela nos trouxe? Claro que não! Basta lembrar as medonhas publicações das editoras Bloch e RGE nos distantes anos 70 para que até o mais cego dos cegos reconheça os méritos da Abril. Afinal, depois da EBAL, foi ela quem melhor tratou os justiceiros ianques em nossas terras. Hoje, muitos dos profissionais que garantiram esse respeito ao leitor estão trabalhando exatamente nas ditas editoras nanicas. Esquisito, não?

Descartada a incompetência, só me resta uma única explicação. Deliberada e conscientemente, a Abril seguiu uma rota suicida, a qual pode ser traçada através de uma gama de medidas catastróficas ao longo dos últimos anos.

Sem dúvida, o primeiro destes desacertos foi o aniquilamento do formatinho e a conseqüente expulsão do leitor casual das bancas. Ora, que garoto em idade escolar tinha grana para encarar uma coleção de Heróis Premium? Fora uns poucos fanáticos, o resto juntou os trapos e caiu fora. Afinal, melhorou o papel, aumentou o número de páginas (e o preço), mas a qualidade continuou a mesma. Dificilmente, um daqueles almanaques podia ser devorado com prazer do início ao fim.

Por incrível que pareça, enquanto isso acontecia, algumas das melhores HQs com personagens da Marvel e da DC Comics estavam sendo publicadas pela concorrência. Vide os já citados títulos da Vertigo (DC) ou a mini-série Inumanos (Marvel). Além disso, a programação visual das Premium era mesmo uma nojeira. Mais antipática impossível.

E, como se não bastasse, enquanto as Premium chafurdavam, o mangás vieram correndo por fora e o panorama das bancas mudou radicalmente.

Um belo dia, a Marvel foi embora e, por milagre começou a ter tratamento mais decente. Para azar da Abril, isso aconteceu justo quando seus heróis retomavam fôlego e davam de dez nos da DC.

Diante de tal cenário, que melhor saída senão reeditar os grandes momentos de seus heróis remanescentes? Pois bem, voltaram às bancas O Cavaleiro das Trevas, Batman ano 1, A morte de Robin e A morte do Super-Homem. Os dois primeiros são clássicos indiscutíveis, mas, de tão mal-divulgados, foram eclipsados pelo pega-trouxa do século: O Cavaleiro das Trevas II. Foi o não foi a obra mais medonha das HQs americanas dos últimos anos? Um fiasco sem tamanho, de fazer corar o mais ardente defensor dos quadrinhos como expressão artística. Disso, pelo menos, a Abril não tem culpa. No entanto, não se pode dizer o mesmo das duas mortes? Tem cabimento trazer de volta caça-níqueis que não valem o papel em que foram impressos? Pobres florestas derrubadas!!! Viraram um encalhe descomunal...

Eis, então, que num lampejo de bom-senso (ou desespero?), a editora ressuscita o formatinho a preços módicos. De carona no sucesso do filme do Homem-Aranha (personagem da Marvel), lança, no dia da estréia do longa, uma nova linha de HQs mais acessíveis. Todavia, pelo jeito, a coisa deu pra trás. E alguém achava que seria diferente?

Neguinho sai empolgado do cinema ao ver as piruetas do Aracnídeo e dá de cara com Batman e Super-Homem. Que DC, que nada. Ele quer mais é comprar Homem-Aranha!! Todo mundo sabia disso e ganhou dinheiro a rodo. Diversas editoras, inclusive estreantes estamparam o filho preferido da Marvel na capa de suas publicações. A turma toda vendeu horrores. Menos a Abril. Que ficou chupando o dedo.

Por sinal, os novos formatinhos perdiam feio para seus antecessores. Uma programação visual deselegante, logotipos vagabundos, capas abomináveis e papel sem-vergonha são motivos de sobra pra espantar de vez os últimos teimosos que ainda nutriam esperança nos heróis DC da Abril!!!

Conversando com alguns leitores, constatei o seguinte: Todos parecem felizes com o fato da tradicional editora jogar a toalha. Afinal, dói ver nossas personagens favoritas tratadas como produto de quinta categoria. E dói ainda mais ser feito de idiota e engolir gato por lebre.

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