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Quadrinhofilia entrevista: Marcello Quintanilha

Quadrinhofilia entrevista: Marcello Quintanilha

José Aguiar
01.11.2005
00h00
Atualizada em
24.12.2016
05h10
Atualizada em 24.12.2016 às 05h10

Você que já leu alguma de minhas colunas sabe que este é um espaço onde falo de tudo o que acho interessante (ou não) dentro do universo das HQs. Mas para diversificar um pouco mais, decidi ramificar o espaço, abrindo espaço para um bate-papo com quem faz quadrinhos. Afinal, há muita gente boa por aí e, muito mais gente ainda precisando conhecer os nosso autores. Inaugurando este espaço, tenho o prazer de conversar com o premiado Marcello Quintanilha, autor de Fealdade de Fabiano Gorila (ed. Conrad), Cidades Ilustradas - Salvador (ed. Casa 21) e Sept Balles Pour Oxford, série publicada na Europa pela editora Lombard, em parceria com o roteirista Jorge Zentner (mais conhecido no Brasil pela série As Aventuras de Dieter Lumpem, publicada por aqui entre os anos 80 e 90).

Atualmente residindo em Barcelona, na Espanha, Marcello não deixa de ser um artista ligado às suas origens, como deixa claro nesta longa entrevista , em que fala do seu trabalho e convicções a respeito dos quadrinhos, literatura e até terrorismo. Além disso, Quintanilha disponibilizou para o Omelete uma HQ que, segundo suas próprias palavras: É uma forma de ilustrar tudo que digo e faz com que a entrevista adquira um aspecto muito mais completo. As páginas estão disponíveis no fim deste texto.

Então, feitas as apresentações, vamos à entrevista!!

Afinal,  quem é Marcello Quintanilha?

Marcello Quintanilha é Marcello Eduardo Mouco Quintanilha; niteroiense, 33 anos, escorpião, casado; publiquei meu primeiro quadrinho em 1988, assinando Marcello Gaú, pseudônimo que deixei de utilizar há alguns anos; paralelamente à publicação de quadrinhos, trabalhei como diretor de animação e ilustrador.

Fale um pouco desse seu trabalho com animação. Sua experiência foi com o mercado publicitário?

Trabalhei primeiro em um curso de inglês, que fazia trabalhos institucionais, iniciando como intervalista (ou intercalador) e logo como diretor de animação; depois disso me dirigi à publicidade, me instalando por algum tempo em São Paulo.

O movimento está na base do meu trabalho. Sempre fui fascinado por ele. Esse meu interesse por colher a figura no transcurso da ação (diferentemente de sacá-la na culminação dessa ação), certamente me ajudou no momento de trabalhar com a animação. E trabalhar com a animação me ajudou a dissecar e compreender cada etapa do movimento.

Qual sua formação?

2º grau.

Como autor, qual foi sua HQ preferida publicada no Brasil? Fale dos pontos que você considera altos e baixos em sua carreira por aqui.

Bem, sobre minha HQ preferida, ela se chama Dorso, publicada no nº 0 da revista General Visão, em 1998. É uma HQ de sete páginas que conta a história de um homem cuja obsessão é a auto-flagelação e que, de certa forma, começa a doutrinar uma pessoa de seu ambiente de trabalho para que faça o mesmo. A história se passa no antigo Mercado Municipal do Rio de Janeiro, situado ao lado da Praça XV de Novembro, demolido em 1962, restando apenas uma de suas quatro torres, que hoje abriga o Restaurante Albamar. A história é uma alegoria sobre o direito que temos de vivermos nossas vidas segundo nossa própria vontade; o direito de sermos vítimas de nós mesmos.

Sobre pontos altos e baixos. Não sei se entendo bem a que você se refere, mas é importante que se compreenda uma coisa:

Meu trabalho representa uma proposta. Uma proposta de como utilizar os signos que compõem o quadrinho; uma proposta temática; uma proposta de posicionamento diante do mercado. É uma proposta que vem daquilo que me interessa tratar como autor, como por exemplo aspectos da vida cotidiana no Brasil; da minha paixão pela música; pelos bastidores do futebol, mais do que pelo jogo em si. Isso está expresso em HQs como Dorso, Três Minutos de Linhas, Granadilha, Fealdade de Fabiano Gorila. São HQs executadas sob um critério muito específico, sem qualquer relação com a oferta de quadrinhos à nossa volta. Quando se assume um posicionamento tão concreto e - é difícil dizer de outra forma - tão independente, isso te leva a uma situação em que você assume toda a responsabilidade pela produção de seu trabalho, quer dizer, você financia a produção desse trabalho.

Ao longo dos anos tenho podido financiar minha proposta e posteriormente publicá-la. Se você conhece um pouco do meu trabalho, compreenderá que a meticulosidade com que ele é feito me obriga a ter uma produção lenta, as histórias são publicadas, muitas vezes, com um espaço grande de tempo entre uma e outra. Porque, na realidade, existe um espaço grande de produção entre uma e outra.

Assim, entendemos que as atividades que exerci ao longo desses anos, primeiro como diretor de animação e logo como ilustrador de imprensa, me permitiram o financiamento dessa proposta. Atualmente, trabalho na série de quadrinhos Sept Balles Pour Oxford para a editora belga Le Lombard, e essa atividade é que me permite financiar minha proposta hoje.

Até hoje tem sido assim. E não há nenhum sinal de mudança à vista.

O fato de ter conseguido produzir e publicar histórias ao longo dos anos, dentro de uma proposta tão específica, num processo de trabalho ininterrupto, é um ponto alto. O fato de meu trabalho receber o respeito que recebe, sem dúvida é um ponto alto, principalmente se você considera que o conjunto desse trabalho não representa um número expressivo de páginas, porque eu realmente não fiz muitas histórias. Mas a forma de produzir essas histórias confere a elas uma intensidade e uma honestidade que muitas vezes não são logradas em centenas de páginas publicadas. O fato de poder me comunicar com leitores que creio que se interessam pelas mesmas coisas que eu de uma maneira tão intensa, é um ponto inigualavelmente alto.

A interrupção desse processo - se tivesse ocorrido em algum momento - teria sido um ponto baixo.

A General Visão foi um projeto que me deu água na boca. Pena que não vingou. Agora que mencionou, reli Dorso e visualmente ela é bem opressora a maneira como os balões sufocam os personagens. Acho os seus balões muito orgânicos, quase um contraponto ao realismo do seu traço. Isso é proposital?

Absolutamente tudo é proposital. Os balões ultrapassam a função de demarcação do espaço de texto, variando de tamanho ou formato de acordo com a dramaticidade de cada cena, são voláteis. O próprio texto assume plasticidade, muitas vezes como se tivesse sido atirado para fora da boca dos personagens.

O desencontro entre os limites dos quadros tanto simula movimento quanto interfere na dinâmica da leitura, além de promover a desconstrução da estrutura da página, porque torna os quadros peças independentes dela, retirando da página a função de unidade narrativa, função que é então reduzida ao próprio quadro.

Dorso é uma história chave nesse sentido, porque além de atuarem como auxiliares da narrativa, os balões também intensificam a opressão a que você se refere em momentos mais dramáticos, impedindo que nada mais além do absolutamente essencial seja mostrado dos personagens para a compreensão da cena, como na página 5.

Então, para você, fazer quadrinhos é um processo muito mais pessoal. Nisso, a existência de um mercado que comporte sua produção é uma preocupação secundária, pois o seu interesse em fazer quadrinhos é acima de tudo artístico e nada comercial, estou certo? Viver desse ideal (quadrinhos autorais e, por que não, pessoais) foi sempre seu objetivo?

Viver desse ideal nunca foi um objetivo, simplesmente porque fazer quadrinhos para mim nunca constituiu um ideal, como sua pergunta parece indicar. Escrever uma história, desenhá-la, editá-la, são coisas presentes e imediatas demais na minha vida para constituírem um ideal. Ou seja, questões como artístico/comercial são secundárias, uma vez que minha preocupação - e realmente não encontro outra maneira de dizer - é a comunicação; chegar até o leitor; falar de coisas que para mim são relevantes. O fato de viver desse trabalho, portanto, não o tornaria mais legítimo do que ele é agora.

O que você costuma ler de quadrinhos?

Robert Crumb, Charles Burns, Hugo Pratt. A Juventude de Corto Maltese é, sem dúvida, uma HQ chave pra mim. Blake and Mortimer, inclusive quando artistas como Ted Benoit e Van Hamme retomaram os personagens. Me encanta comparar os traços de Benoit e Jacobs (o autor original da série). Sou um grande admirador da linha clara. De artistas como Floch, Joost Swarte. Uma grande influência para mim foi o trabalho de François Boucq. Uma grande paixão é o trabalho de Frank Hampson, desenhista de Dan Dare. Crepax. Me interesso também por quadrinhos como os de Nono Kadáver. Quando era mais moço lia basicamente Marvel e DC. Me interessava principalmente acompanhar os artistas, mais que os personagens. John Buscema, por exemplo foi fundamental pra mim e graças a ele é que me decidi por fazer quadrinhos. Atualmente estou lendo várias coisas de Suehiro Maruo; Dragon Head, de Mineratô Mochizuki e todo Alack Sinner.

Enfim, você tem a mente aberta a vérias tendências. Apesar delas o seu traço é completamente pessoal, muito diferente da linha clara dos europeus, que você admira, por exemplo. Imagino que o seu trabalho é resultado da mistura disso tudo. Batido, misturado e reinventado pela sua visão pessoal das coisas. Eu já li entrevistas com autores de HQ que afirmam não ler quadrinhos. Acha isso realmente possível?

Bem, pessoas dedicadas a diversas manifestações artísticas têm um comportamento parecido, por várias razões. Isso também não significa que seus trabalhos serão melhores ou piores. Simplesmente a maneira com que cada um lida com o trabalho é diferente.

Tenho fascinação por diversos estilos. Tenho fascinação pela linguagem. Posso dizer que tudo que amo nos quadrinhos está presente no meu trabalho, mas também - e de maneira preponderante - está presente meu ponto de vista, na forma de personagens, situações, motivações, baseadas sempre em coisas que vivi, pessoas que conheci - e posso garantir que vivi muitas daquelas circunstâncias.

Quando o que move o trabalho vem de fontes tão pessoais, aquilo que você incorporou do estilo de outros artistas trabalha em favor dessas fontes.

E quais são suas influências fora deles?

Por alguma razão obscura para mim é normal se denominar influência o fato de um artista mimetizar o trabalho de outro, o que não é inteiramente verdade.

Influências são maravilhosamente necessárias e, mais que isso, são inerentes à produção artística. Mas não são necessariamente visíveis. Nos influenciamos a todo momento pelas mais diversas fontes e, acima de tudo, nos deixamos influenciar. O que quer dizer que só nos influenciamos pelo que queremos. O que quer dizer que escolhemos quem ou o que irá nos influenciar.

Lembro que quando criança me esforçava para imitar o estilo de quase todos os desenhistas - todos e cada um deles desenhistas de super-heróis - que admirava, mas tenho certeza que não estava sendo influenciando por seus estilos. Ou não apenas.

Estava me esforçando para absorver - e logo repetir - o que para mim representava o que havia de melhor em matéria de como desenhar quadrinhos. E nenhuma outra fonte me interessava. Só quadrinhos, só super-heróis. O objetivo nesse caso, portanto - e ainda que o artista não se dê conta - não ultrapassa a apropriação de um método de trabalho que não só julgamos o melhor, como também - e de modo ainda mais significativo - julgamos que melhor se adeqüa a nós.

No decorrer do trabalho, a medida em que mais e mais fontes cada vez mais pessoais foram sendo incorporadas, esse mimetismo foi sendo mais absorvido, tornando-se menos visível, até ser definitivamente incorporado ao meu próprio estilo. E acho que incorporado é a palavra certa, porque tenho certeza de que todos aqueles artistas que foram objeto de tanta admiração, uma admiração que me levava a repeti-los, estão presentes hoje em cada traço, não mais de forma visível ou não totalmente nítida, é certo, mas inegavelmente presentes.

Machado de Assis foi, é e provavelmente será uma de minhas influências mais sólidas, não somente pelo que escreveu, mas pela forma como foi capaz de escrever; pela forma como lutou contra a pobreza, a pouca escolaridade; sua disciplina, sua precisão quase econômica no uso da palavra; uma palavra que não deixa margem a dúvida, a serviço de tramas cuja escência é a própria dúvida. Tudo para que no final ele escarneça de nós sem nunca nos confiar absolutamente nada. Nós nunca fizemos por merecer sua confiança.

Minhas influências fora do quadrinho vêm da literatura brasileira, dos escritores que a fizeram e como a fizeram - e é muito importante esse ponto. Porque a literatura não foi construída a partir de um mercado que contratasse pessoas para escrever livros. Ela foi construída por pessoas que conseguiram equacionar suas vidas de maneira que pudessem escrever. Tenhamos em conta que a maioria dos escritores brasileiros era empregada no funcionalismo público. Ou no jornalismo. E a razão pela qual esse ponto é importante é o quão sólida a literatura brasileira se tornou. Apesar do mercado no qual ela foi impressa.

E sou absolutamente seguro de que o fato de ser tão diretamente influenciado pela literatura, sob nenhuma hipótese torna meu trabalho uma derivação dela, simplesmente porque o trânsito de influências entre diferentes liguagens sempre foi intenso.

Lamentavelmente nos habituamos a quadrinistas que sucessivamente tentam contaminar seus trabalhos com o status de literatura, negligenciando alguns dos princípios básicos do quadrinho - como seu universo de signos, por exemplo -, sob o argumento de resgatá-lo do gueto cultural - mas a partir de sua negação.

Sou muito influenciado por diretores como Orson Welles e Vittorio de Sica. Sou influenciado pelo cinema brasileiro dos anos 60s, por filmes como O Homem que Comprou o Mundo, O Caso dos Irmãos Naves, O Bandido da Luz Vermelha.

Sou tremendamente influenciado por música. Música popular.

Isso está presente nos seus desenhos. Essa influência popular. Os tipos que desenha (ao menos nas HQs passadas no Brasil) são pessoas reais, que encontramos  em qualquer esquina. Isso dá uma brasilidade enorme ao seu trabalho. Isso é algo que, guardadas as diferenças, eu só vi em trabalhos do Laerte (com seus tipos urbanos) e nos do saudoso Flávio Colin (com os seus tipos regionalistas). Para você, por que os autores brasileiros têm dificuldade em retratar o seu povo?

Eu vejo pelo menos quatro vertentes muito claras. Uma do ponto de vista temático (de histórias passadas no Brasil, com personagens representantes de etnias que compõem a população brasileira); outra do ponto de vista da identidade visual, ou gráfica, se você prefere (que se caracteriza pela concepção gráfica que define um estilo regional ou nacional; posso citar o western Tenente Blueberry como exemplo, que não apresenta personagens franceses nem se passa na França, mas cuja identidade gráfica o coloca como um dos mais contundentes representantes do quadrinho francês, herdeiro de uma escola que teve em Jijé um de seus máximos expoentes); outra do ponto de vista que vou chamar de ligüístico (expresso pelo uso que o artista faz não apenas do léxico, mas também de seu emprego num contexto histórico, caracterizando uma dinâmica de leitura); outra do ponto de vista ideológico - e tenho certeza que você compreenderá que não me refiro à ideologias como comunismo, por exemplo - (expresso pelo conjunto de idéias que define a moral do brasileiro).

Portanto, a mera representação do território brasileiro, assim como de etnias que compõem a população brasileira, que você chamou de tipos que encontramos em qualquer esquina, por si só não constitui um selo de brasilidade. É preciso ter conciência de que todas essas vertentes são peças indispensáveis na concepção dessa brasilidade.

Há inúmeros exemplos de artistas que embora esforçando-se para que suas histórias transcorram em território brasileiro, nas quais atuem personagens etnicamente brasileiros, não logram fazer mais que uma mímica, por exemplo, de um quadrinho DC tanto do ponto de vista gráfico, quanto ideológico e - pior ainda - linguístico. E agora sei que é a essas pessoas que você se refere quando usa a palavra autores.

Existem várias razões para isso. A mais óbvia está no fato de muitos artistas se sentirem na obrigação de retratar seu país, no entanto, como desconhecem sua história e sua língua, resulta esse trabalho num híbrido que, afinal, não tem nenhum significado. Por outro lado esse sentido de obrigação pode mascarar o desejo puro e simples de inserir-se num mercado que o absorva como profissional e não como artista. O desinteresse pela cultura brasileira também é um fator a se levar em conta.

No entanto, representar elementos da cultura brasileira não é, nunca foi, um dado qualitativo.

Essas são questões que decorrem do anseio pela consolidação de um mercado de quadrinhos brasileiros (o que é diferente de mercado brasileiro de quadrinhos), assim como por uma representatividade do quadrinho brasileiro no cenário internacional que legitime a consolidação desse mercado, o que faz com que trabalhos medíocres sejam supervalorizados pelo simples fato de apresentarem elementos representativos da cultura brasileira e artistas cujo grafismo transcenda o conceito de brasilidade sejam adotados como símbolos dessa brasilidade.

Você citou o cinema dos anos 60. Suas HQs realmente têm uma atmosfera desse período, sem glamour, mais pé no chão. Seria nostalgia de um tempo não vivido?

Talvez. Isso tem a ver com o Barreto, antigo bairro operário de Niterói, onde me criei. O que você chama de pé no chão, se deve provavelmente ao fato de eu ter crescido nesse ambiente na última etapa de sua decadência, depois que as fábricas fecharam as portas; que as vilas operárias do início do século XX se descaracterizaram; que os campos de futebol foram loteados. É um bairro cheio de recordações que eu naturalmente não compartilho, mas que estão presentes nas pessoas que me cercavam.

Voltando ao seu comentário sobre autores de HQ que buscam status na literatura, concondo com você: Quadrinhos são uma linguagem. Devem ser compreendidos como um todo. Compará-los ou mesmo tentar agregar-lhes valor ao associá-los a outra manifestação artística é sempre desprezar o seu valor individual. Acha que na Europa essa visão de que quadrinhos são uma arte menor que a literatura também existe? Afinal, devido as diferenças óbvias, por aqui se tem uma visão tão idealizada do mercado europeu de quadrinhos...

Sim, no Brasil há uma visão idealizada do mercado de quadrinhos europeu. No entanto, o que se denomina quadrinho europeu no Brasil na realidade faz basicamente referência ao quadrinho franco-belga.

O mercado franco-belga está baseado na edição de álbuns de 46 páginas, coloridas, com periodicidade anual e apresenta todas as características inerentes a um mercado editorial, de certo modo, consolidado, uma vez que a BD está tremendamente acoplada à cultura franco-belga, o que a torna um produto indiscutivelmente bem aceito, ainda que não lhe confira a mesma respeitabilidade da literatura.

No restante da Europa, quadrinhos gozam de menos prestígio comercial. Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, não apresentam condições muito melhores do que as do Brasil. Além disso, a Itália tem uma tradição de quadrinhos muito diferente da franco-belga, como a linha Bonelli.

Porém, o termo quadrinho europeu no Brasil tem ainda uma aplicação mais característica: ele é utilizado como escudo por quadrinistas preocupados em conferir uma aura de intelectualidade aos seus trabalhos, valendo-se da visão que você chama de idealizada do quadrinho europeu, em oposição ao universo dos super-heróis.

Os quadrinhos são vistos como uma arte menor em todo o mundo e esse sempre foi justamente um dos aspectos que mais me fascinou nos quadrinhos.

E, sinceramente, não me sinto obrigado a solicitar a nenhum setor da sociedade que, por favor, tenha a bondade de conferir status de arte ao meu trabalho; não me sinto inclinado a solicitar a ninguém que conceda um segundo sequer do seu tempo para refletir sobre a pequenez ou a grandeza dos quadrinhos em relação às outras artes.

E me choca que tantos quadrinistas demonstrem desconforto com essa situação, quase como se a obtenção desse status finalmente os redimisse perante seus pais por terem escolhido uma forma de expressão tão marginalizada; e me choca que haja tantos debates sobre esse tema. São todos tão deprimentes.

Como é trabalhar com um roteirista renomado como Jorge Zentner?

Muito simples. Embora tenhamos visões completamente opostas sobre a maneira de tratar os quadrinhos, quando nos juntamos para fazer Oxford, caminhamos na mesma direção. Jorge é um grande amigo, acima de tudo, e um roteirista em quem confio. Sei que tanto ele quanto Montecarlo dão o máximo quando escrevem e essa atitude diante do trabalho, essa seriedade no momento de encarar o trabalho me dá muita segurança.

É verdade que você se mudou para Madri, após o convite do Zentner para desenhar Sept Balles Pour Oxford? Vocês realmente moram no mesmo prédio?

Na verdade, me mudei para Barcelona, que fica a 628 km de Madri. E Jorge não me fez um convite para desenhar a série. Ele entrou em contato comigo depois de ver meu trabalho em uma editora da França, propondo que trabalhássemos em algum projeto juntos. Depois de algumas conversas, ele me apresentou um projeto no qual ele vinha trabalhando há algum tempo, em parceria com Montecarlo, chamado, na época, Oxford e então começamos a desenvolvê-lo e a direcioná-lo. Ou seja, chegamos a uma conclusão do que nos interessava fazer e logo passamos a apresentar esse projeto a algumas editoras, até assinarmos com a Le Lombard. Sim, somos vizinhos.

Morar perto do seu roteirista deve ser interessante. Ele não bate à sua porta às vezes perguntando algo do tipo: E aí, já acabou?. Fale algo mais dessa relação.

Essa proximidade não é preponderante para o andamento do trabalho, nem é mais decisiva do que quando ainda trabalhávamos trocando e-mails. Principalmente à medida que os álbuns se sucedem e os personagens e situações se tornam mais e mais familiares. Não, ele não bate à minha porta para perguntar se já acabei páginas, bate para perguntar se eu já soube o resultado do jogo, quando o Brasil perde. (risos)

Como você define a série?

É uma série policial, em que o personagem central, o detetive septuagenário Oxford, promete à esposa que se aposentará da carreira de detetive tão logo acabem as balas de sua pistola, que são sete. É uma série acima de tudo sobre relações humanas. Muitas vezes, o caso em que Oxford está envolvido não é mais que um pano de fundo para que o vejamos tentando amarrar ou desamarrar as linhas enroscadas de sua vida.

Ok. Seu trabalho como autor de quadrinhos é muito autoral. Mas desenhar o roteiro de outra pessoa não foi  desafiador para você no começo do processo?

Toda e qualquer história representa um desafio. No caso de Oxford isso se renova a cada álbum. No entanto, antes de começar efetivamente o trabalho, tivemos muitas conversas e, de certa maneira, eu já sabia o que ia encontrar. Portanto, quando chegou a hora de desenhar, já tinhamos idéias muito sólidas. Isso fez com que o trabalho transcorresse de forma natural.

O que mudou no seu trabalho, seja no processo ou mesmo no seu estilo, agora que está produzindo para o mercado europeu?

Nenhuma mudança. Oxford é um projeto fechado em si. Quando apresentamos o projeto, tínhamos uma idéia muito concreta do que queríamos fazer. E fizemos. E não passei por nenhum processo de adaptação do desenho ao mercado europeu, se você se referia a isso. Todo o trabalho de adaptação necessário foi feito entre eu e Jorge no período de preparação do projeto, para que tanto texto quanto desenho caminhassem na mesma direção e nos fossem mutuamente convenientes. Uma vez encontrada essa linguagem, esse ponto, adequado tanto a mim quanto a ele, o projeto se fechou. Assim, meu trabalho como autor permanece à margem desse processo.

O que deve ser ressaltado, sem dúvida, é que Oxford é um projeto no qual eu tinha muito interesse, especialmente no que diz respeito a lidar com referências completamente diversas das que compõem meu trabalho autoral, o que me favorece no momento de conseguir o distanciamento necessário para um projeto em conjunto.

Existe a possibilidade da série vir a ser publicada no Brasil?

Nada nesse sentido, por enquanto.

Para conceituar a pergunta vou citar a velha máxima: Santo de casa não faz milagre. Algo mudou no tratamento que você tem no meio dos quadrinhos locais (editoras, leitores, mídia) depois que passou a ter o seu material publicado no exterior?

Não. Nenhuma mudança. Acho que porque meu trabalho no Brasil sempre esteve associado a pessoas cujo interesse pelos quadrinhos é tão grande e intenso quanto o meu e que me acompanham desde o começo. Então o fato de publicar fora não acrescentou nenhum dado relevante à maneira como meu trabalho já era visto por elas. Isso, sem dúvida, é um ponto alto.

Como você se sentiu após os atentados terroristas da Espanha? Teve a vontade de retornar ao Brasil?

Ao contrário do terrorismo laico, com o qual a Espanha convive há décadas, como você naturalmente sabe, e que, paradoxalmente ao que se crê fora da Espanha, tem a intenção de cooptar simpatia para a questão basca, os atentados de Madri foram realizados com o claro objetivo de desestabilizar um governo pactário da política norte-americana e sob uma bandeira religiosa. Esses atentados motivaram a derrota do PP nas eleições que se seguiram. Me senti evidentemente mal diante de uma tragédia como essa; me senti indignado diante da estratégia do governo de então, que ainda se desdobrava por relacionar os atentados ao grupo ETA, mesmo quando no resto do mundo já se dava como certa a autoria da Al Qaeda.

Não, não tive vontade de voltar ao Brasil por isso. Não me sinto mais exposto à violência depois dos atentados; não me sinto menos exposto à violência por estar fora do Brasil; não me sinto mais exposto à violência quando estou no Brasil.

Na Europa, você ainda tem vivido apenas de desenhar quadrinhos ou também tem se dedicado a outras atividades como ilustraçãoes para revistas e livros?

Só quadrinhos.

Você acaba de lançar pela editora Casa 21 o belo livro Cidades Ilustradas - Salvador. Sobre ele: Por que Salvador? Foi uma escolha sua ou havia outras opções de cidades a ilustrar?

Eu fui convidado pela Casa 21 para ilustrar a cidade de Salvador. Mas se tivesse tido a chance de escolher, teria escolhido exatamente a cidade de Salvador! Essa cidade é extremamente importante para mim, porque ela está na essência de nossa formação como povo. Estar na cidade foi como encontrar-me comigo mesmo.

Como foi o período em que esteve na cidade? Houve situações ou lugares que não entraram no livro e que queria contar?

Bem, eu não poderia destacar um único aspecto negativo da minha estadia por lá. Mesmo momentos negativos foram tremendamente enriquecedores - portanto, positivos. Eu mentiria se dissesse que o encontro com a cidade representou alguma coisa de inesperada, de surpreendente, porque a cidade não era estranha pra mim; e sou absolutamente verdadeiro se disser que a cidade era tudo que eu esperava. Não foi algo surpreendende. Foi muito mais do que isso.

Retratar Salvador é um desafio sobretudo se você considera que é uma cidade sobre a qual já se disse muita coisa. E absolutamente tudo que já se disse sobre Salvador é dramaticamente verdade. E continua sendo verdade.

E naturalmente que há coisas, do ponto de vista pictórico, que tiveram que ficar de fora, porque o livro estava fechado em trinta pranchas. Mas não lamento que isso tenha ocorrido porque ainda que tivéssemos o dobro ou o triplo de pranchas, coisas maravilhosas ficariam de fora, principalmente se você sucumbe à tentação de apropriar-se dos aspectos visíveis da cidade e os reproduz no papel. Essa seria uma escolha; seria um procedimento de trabalho. E seria legítimo. E posso garantir que Salvador te oference muitas tentações desse tipo.

Trabalhei, no entanto, para me apropriar dos aspectos não visíveis da cidade. Contá-la através de pessoas. Através de sentimentos, sensações. Acho que o painel que mais exemplifica o que estou falando é DA RIBEIRA AO BONFIM: ME DRAGA, DRAGA, em que o único elemento de valor pictórico representado no painel principal é uma parte dos degraus da igreja do Bonfim.

Uma vez que o trabalho é realizado nesse sentido, a limitação do número de páginas não se apresenta como uma limitação à visão que você formou da cidade, porque sua visão também não se limitará a relacionar aspectos pictóricos. Você retratará a cidade que está em você. Não a que estava diante de você.

O processo de elaboração do livro, distante da fonte, foi complicado?

Não, devido ao trabalho de documentação, que incluiu centenas de fotos e várias horas de gravações, tanto entrevistas quanto sons ocasionais. Isso me permitiu trabalhar da maneira adequada durante todo o processo, que levou pouco mais de um ano, se não contabilizamos o tempo da viagem e catalogação das referências.

E os seus projetos pessoais, como andam? Há algo inteiramente seu, sendo produzido hoje, para ser lançado no Brasil ou na Europa?

Não. No momento estou trabalhando no quarto livro da série Sept Balles Pour Oxford.

Pra terminar: Para você, o que diabos é ser quadrinhista?

É assumir um posicionamento. Simplesmente porque ninguém pode, nos dias de hoje, proclamar-se desavisado do que significa mover-se no mercado editorial - não só no Brasil, é bom que se diga.

Ser quadrinhista, sobretudo - e mais importante do que tudo -, é comunicar-se com pessoas que lançarão mão de tempo para acompanhar seu trabalho, e há pessoas que acompanham meu trabalho há anos, o que me faz sentir duplamente responsável por cada traço, cada vírgula; e quero que elas saibam que não há um só traço, uma só vírgula que não seja a expressão exata do que eu quis dizer no momento de chegar até elas, principalmante porque sei que não foi fácil para elas acompanhar meu trabalho todo esse tempo. Realmente sei. E de verdade agradeço.

O conjunto de minhas histórias, incluindo Cidades Ilustradas - Salvador, como disse antes, representa uma proposta. Concretizar essa proposta tem sido, ao longo dos anos, o princípio básico do que significa ser quadrinista pra mim.

O Omelete agradece, em nome dos seus leitores, a Marcello Quintanillha  pela entrevista. Veja agora a HQ que ele nos enviou (Clique na imagem para vê-la maior):

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