Arte conceitual do terceiro ato de Shang-Chi

Créditos da imagem: Marvel Studios/Divulgação

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Shang-Chi escancara flerte crescente do MCU com a estética do horror. Que bom!

Influências do gênero devem finalmente se tornar mais frequentes nas fases 4 e 5 da Marvel

Eduardo Pereira
17.09.2021
21h19

[O texto abaixo contém spoilers de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis] 

Ao contrário do que podem afirmar certos cineastas por aí, a Marvel Studios vem encontrando cada vez mais espaço para incorporar à sua fórmula de sucesso a influência de diversos sub-gêneros do cinema. Da sátira às space operas em Guardiões da Galáxia (2014) e Thor: Ragnarok (2018) à comédia romântica de Homem-Formiga e a Vespa (2018); das tramas de espionagem de Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014) e Viúva Negra (2021) à inspiração nos filmes colegiais de John Hughes que norteia Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017): fato é que Kevin Feige e companhia têm conseguido diversificar a entrega do estúdio de forma a engajar cineastas promissores e seguir atraindo as principais estrelas de Hollywood. E, embora a jornada do herói seja a base de tudo, é difícil negar essa variedade quando o último grande lançamento da marca, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, abre com Tony Leung Chiu-wai protagonizando um balé de artes marciais digno de Herói (2002) e O Tigre e o Dragão (2000), numa história falada quase pela metade em línguas que não são o inglês.

Existe um gênero, entretanto, que segue sendo negligenciado (ou, talvez, temido) pela Casa das Ideias nas telonas, embora perdure como um dos mais influentes e adorados da história da sétima arte: o horror. Com momentos diversos nos quadrinhos que flertam com a estética desse gênero, de conferências de Stephen Strange com demônios interdimensionais a embates do Homem-Aranha com vampiros, os fãs há muito aguardam flertes similares acontecendo nas telonas — e, há muito, saem frustrados. A promessa de escuridão com os Elfos Sombrios em Thor: O Mundo Sombrio (2011) acabou traduzida apenas em uma fotografia feia, de cores dessaturadas. Os teasers sinistros de Vingadores: Era de Ultron (2015), com um James Spader fantasmagórico dando voz a legiões de Ultrons decrépitos, acabaram sendo cortina de fumaça para mais uma performance vilanesca excêntrica e cômica. E nem mesmo a experiência de Scott Derrickson em O Exorcismo de Emily Rose (2005) e A Entidade (2012) permitiram que Doutor Estranho (2016) ousasse muito com imagens perturbadoras (apesar das tentativas).

Entra a Fase 4, e a liberdade criativa que o investimento da Marvel nas séries de TV do Disney+ permitiu. Em WandaVision, os ocasionais vislumbres de um Visão (Paul Bettany) sem vida e decadente, bem como a descoberta da identidade de Agatha Harkness (Kathryn Hahn), renderam uma boa dose de momentos estranhos e inquietantes, sinalizando ao público e/ou a Wanda (Elizabeth Olsen) que algo estava errado em sua realidade paralela. Em Loki, a introdução de uma criatura cósmica tão poderosa e soturna quanto o Alioth, no marcante episódio "Jornada ao Mistério", convidou conceitos de Terror Cósmico próprios da literatura de H.P. Lovecraft, ainda que a direção de Kate Herron tenha encarado tudo sob uma luz mais fantástica que fantasmagórica. Em What If...?, um Estranho de coração partido e o apocalipse zumbi trouxeram outras referências, ainda que leves, do que vem faltando nas telonas. Mas é em Shang-Chi que isso muda, com um terceiro ato repleto de criaturas místicas com tentáculos, almas sendo sugadas de corpos e a promessa de um mal ainda maior vindo do espaço. O mais novo filme do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) abre as portas para o que deve ser o tão aguardado abraçar da estética do horror nas fases 4 e 5.

Sim, porque com Sam Raimi no comando do encontro entra a Feiticeira Escarlate e o Mago Supremo da Marvel (Benedict Cumberbatch), em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, é de se esperar ao menos alguns momentos dignos de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981) no filme. Se nem em Homem-Aranha (2002) e Homem-Aranha 2 (2004), o cineasta deixou de deixar assinaturas claras de um mestre do terror, não será num mergulho no multiverso com dois dos personagens mais místicos e obscuros do MCU que ele fará diferente. Como a própria Olsen já afirmou que o filme tem a ambição de ser o mais assustador da Casa das Ideias até hoje, e o roteirsta Michael Waldron confirmou que o filme levará a história em uma direção "levemente mais assustadora", parece que agora é a hora. E não deve parar por aí!

What If...? tem tudo para seguir ousando ainda mais em sua segunda temporada, não só repetindo o sucesso sempre certeiro dos zumbis no MCU como, quem sabe, apresentando mais histórias de tom levemente assustador. Na vindoura série do Disney+ Cavaleiro da Lua, prevista para 2022, a natureza conturbada do protagonista Marc Spector (Oscar Isaac), bem como suas influências místicas guiadas por divindades egípcias (muitas vezes refletidas em seus inimigos), certamente abrem espaço para a exploração do oculto pela Marvel Studios. E, claro, Blade irá inaugurar a Fase 5 com vampiros tomando as telas e se revelando parte relevante desse universo compartilhado. Se considerarmos o crescente interesse pelo multiverso, as implicações cósmicas das introduções feitas por Eternos e Quarteto Fantástico, bem como as muitas versões de Kang (Jonathan Majors, que estará em peso em Homem Formiga e a Vespa: Quantumania), não faltarão oportunidades de pincelar diferentes estilos de terror nas mais variadas e insanas narrativas.

Finalmente é seguro afirmar que nunca foi tão promissor ser um fã de horror e da Marvel Studios. Que deliciosa maldição!

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