Tony Leung como Xu Wenwu em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Marvel Studios/Divulgação)

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Shang-Chi | Por que filme ganha peso com estreia de Tony Leung em Hollywood

Ícone no cinema asiático, ator escolheu filme da Marvel como entrada na indústria dos EUA

Eduardo Pereira
08.09.2021
20h28

Existem duas formas de encarar a presença de Tony Leung Chiu-wai em um blockbuster hollywoodiano da Marvel Studios como Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. A primeira, é com surpresa e descrença; como o principal colaborador de Wong Kar-Wai poderia ir parar dentro da "montanha-russa de emoções" que não convence nem a Martin Scorsese? Já a segunda, correta, é com alívio: já era hora de isso acontecer. Em um momento em que a grande narrativa do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) atravessa realidades alternativas, evolui seus retratos de misticismo e exige cada vez mais da compreensão do grande público sobre tramas rocambolescas que há anos habitam os quadrinhos, nada mais apropriado do que incluir em seu elenco um ator que sempre desafiou o tempo e o espaço.

Leung é um leading man atemporal, habitante de uma dimensão acima de qualquer era. É inerente à sua figura um anacronismo que o faz parecer próprio e ao mesmo tempo deslocado de qualquer cenário em que habitam seus personagens. Nunca um obstáculo, essa estranheza configura o primeiro grande chamariz do astro de Hong Kong; a segunda sendo seu comando absoluto das emoções. Assim, Leung veste como quem coloca um pijama antigo todo e qualquer personagem conduzido à sua direção, seja ele um homem apaixonado, um guerreiro de uma época distante, um chefão criminoso, ou tudo isso ao mesmo tempo, exatamente como faz em Shang-Chi

"Leonardo DiCaprio, Marlon Brando, Brad Pitt, George Clooney, todos misturados em um só ator", definiu à GQ o astro do novo filme da Marvel, Simu Liu, sobre Leung. Uma afirmação que pode soar exagerada para quem tem Hollywood como norte maior do cinema mundial, mas que chega a ser pouco para sintetizar a influência do ator sobre a sétima arte mundial, desde os anos 1990. Além do magnetismo próprio das estrelas ocidentais citadas por Liu, o intérprete de Xu Wenwu é dotado da capacidade de habitar e desaparecer dentro de um personagem como o mais hábil dos atores de personagem (tradução livre para character actors), mas sempre sem perder a terniura. A cena de abertura de Shang-Chi é excelente exemplo disso: meio kung fu, meio balé, o embate entre o personagem de Leung e a de Fala Chen é um espetáculo sensual como nunca antes visto no cinema da Marvel.

A TV de Hong Kong e os Cinco Generais Tigres

Lau, Wong, Miu, Leung e Tong: os Cinco Generais Tigres da TVB (Reprodução)

Tony Leung surgiu para o grande público asiático como um dos principais nomes da telinha, no canal TVB. Sua entrada no elenco da emissora se deu graças à influência e amizade de Stephen Chow (de Kung-Fusão, comédia de 2004 que aparece em um pôster no quarto de Shang-Chi, no filme da Marvel). Depois de passar em um teste e atuar como figurante em diversas séries, ele finalmente passou a protagonizar atrações do canal.

O trabalho em séries como a romântica The Duke of Mount Deer (1984) e a fantasia New Heavenly Sword and Dragon Sabre (1986) eventualmente conferiram a ele status crescente em meio ao público, mas foi o trabalho no fenômeno Police Cadet (1984) que o solidificou como astro da TV de Hong Kong. Na trama, ele vivia um aspirante a policial que se envolvia com uma estudiosa jovem vivida por Maggie Cheung (Police Story - A Guerra das Drogas). Era o início de uma parceria que atravessaria décadas, somando reencontros em mais uma série e seis filmes.

Em referência ao título recebido por guerreiros históricos do período dos Três Reinos da China, Leung passou a ser conhecido como um dos Três Generais Tigres da TVB, ao lado de Andy LauFelix WongMichael Miu e Kent Tong. O seriado de fantasia e artes marciais Ode to Gallantry (1989) marcou o fim desse período na carreira do ator, já que o viu se despedir da TVB para mergulhar de vez no cinema

Da TV ao mundo: Tony Leung como ícone do cinema

Tony Leung e Maggie Cheung em cena de Amor à Flor da Pele (Mubi/Divulgação)

Os anos na TVB foram uma grande escola para Leung, que estudou diversas técnicas de atuação, bem como a base para múltiplas artes marciais, antes mesmo de seu primeiro trabalho na emissora. Assim, quando mergulhou no cinema, não demorou a cativar em diferentes papéis. Fosse como um deficiente auditivo em atuação silenciosa no drama histórico premiado com o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza A Cidade do Desencanto (1989), ou desviando de explosões e tiros nos trabalhos repletos de adrenalina de John Woo Bullet in the Head (1990) e Fervura Máxima (1992), esse início já mostrava que o destino do ator era grandioso.

A memorável, definitiva e contínua colaboração com Wong Kar-wai teve início 1990, com Dias Selvagens, mas Leung passou a ter grande destaque mesmo em 1994, com o divertido, romântico e reflexivo drama policial Amores Expressos. Composto por dois contos sobre homens da lei apaixonados, o filme traz Leung no papel de de um jovem que encontra em um novo interesse amoroso a porta para escapar da dor da perda de outro amor. Em Felizes Juntos (1997), a relação com o cinema de Kar-wai evolui visivelmente, entregando um poético e devastador retrato das indas e vindas do amor focado no romance entre os personagens de Leung e de Leslie Cheung. Por fim, em Amor à Flor da Pele (2000), o trabalho do ator como um homem enfrentando a dura realidade do adultério o conferiu o prêmio de melhor ator em Cannes. A última das sete colaborações da dupla aconteceu em 2013, com O Grande Mestre, sobre o tutor de Bruce Lee, Ip Man.

Premiações não são raridades para Leung, que coleciona duas vitórias como melhor ator coadjuvante (por People's Hero, de 1987, e My Heart Is That Eternal Rose, de 1988) e cinco vitórias como melhor ator (Amores Expressos, Felizes Juntos, Amor à Flor da Pele, Conflitos Internos, de 2003, e 2046, de 2004) no Hong Kong Film Awards. O astro também é dono de um troféu de melhor ator do Asian Film Awards (por Desejo e Perigo, de 2007) e três Cavalos de Ouro de Taipei de melhor ator, por Amores Expressos, Conflitos Internos e Desejo e Perigo.

Shang-Chi e a aguardada estreia em Hollywood

Tony Leung como Xu Wenwu em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Marvel Studios/Divulgação)

Considerando o sucesso que encontraram Jackie Chan, Jet Li, Chow Yun-Fat e Donnie Yen em Hollywood, é realmente surpreendente que Leung, com seu currículo ainda mais versátil e pesado, só esteja agora desbravando a indústria norte-americana. Só que, por mais que essa "demora" pareça consciente, ela é na verdade puro resultado de oferta e demanda, já que o astro prospecta papéis na Terra do Tio Sam desde 2005. Fluente em cantonês, mandarim, inglês, espanhol e e capaz de atuar também em japonês, não é como se a lingua fosse uma barreira.

A verdade é que faltava um bom papel em um bom projeto, e não empolgação. E o primeiro blockbuster ancorado em um elenco e equipe criativas predominantemente asiáticos, ainda com o selo de qualidade da Marvel Studios, apresentou-se como o tão aguardado unicórnio. Da ousadia do diretor Destin Daniel Cretton em convidá-lo, Leung abraçou a oportunidade e tornou-se Xu Wenwu, pai e antagonista de Shang-Chi. "Francamente, eu não consigo imaginar alguém no mundo real com superpoderes", ele afirma na conversa com a GQ. "Mas eu consigo imaginar alguém como ele, que é um azarão, um pai falho. De um lado, ruim, mas do outro, um homem que ama muito a sua família. Só acho que ele não saiba amar a si mesmo".

Essa profundidade tão humana que Leung projeta em Wenwu chega até a jogar contra certos aspectos do personagem em Shang-Chi, já que torna mais difícil compreendê-lo como o déspota que o filme nos informa que seja. Tudo bem, já que ver Leung falando um inglês de qualidade invejável e roubando cenas em um projeto desse escopo em Hollywood é sonho antigo de muitos fãs ocidentais do astro. Com sua paixão por cinema e atuação vindo das sessões que acompanhava ao lado da mãe, de filmes protagonizados por Robert De Niro, Al Pacino e Gene Hackman, é um deleite vê-lo finalmente ocupando o mesmo espaço que seus ídolos (alguns dos quais se tornaram admiradores do próprio fã). Que venha mais!

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