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Loki deixa o caos reinar em 5º episódio épico, mas sem foco

Potencial de variantes é desperdiçado em capítulo que se apressa para a conclusão

Caio Coletti
07.07.2021
08h33
Atualizada em
07.07.2021
14h51
Atualizada em 07.07.2021 às 14h51

É sempre uma decepção quando uma série introduz elementos em sua narrativa que podem genuinamente virá-la de cabeça para baixo, ou levá-la para lugares totalmente inesperados (e divertidos!), só para desperdiçá-los em um par de cenas essencialmente inconsequentes. É o que acontece em "Jornada ao Mistério", o 5º episódio de Loki, lançado na madrugada de hoje (7) no Disney+.

No final do capítulo da semana passada, Loki (Tom Hiddleston) encontrou três variantes de si mesmo após ser "podado" pela AVT e ir parar em um lugar misterioso - aqui, descobrimos que o tal lugar é O Vazio, uma paisagem desolada localizada no fim dos tempos onde uma criatura em formato de novem roxa, Alioth, passa o dia "devorando" variantes.

"Jornada ao Mistério" divide seu tempo entre as desventuras de Loki e seus novos "eus" neste lugar e a interação entre Sylvie (Sophia Di Martino) e Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) na sede da AVT, onde descobrimos que a juíza parece saber tão pouco quanto todos nós sobre quem está realmente por trás da organização. Eventualmente, essas duas linhas narrativas se juntam em um finale épico que coloca cada um dos personagens nos trilhos que eles seguirão no capítulo derradeiro da série.

O roteirista Tom Kauffman tem Rick and Morty no currículo, e isso não surpreende. Assim como muitos episódios da animação da Adult Swim, "Jornada ao Mistério" cria caos com a introdução de conceitos malucos e instigantes - presidente Loki! Crocodilo Loki! Renslayer vira-casacas! -, mas largamente indiferentes em seu impacto na trama maior. No fim das contas, tudo volta "ao normal", o rumo da série virtualmente inafetado pelo que se passou em tela.

É quase como se a Marvel tivesse dado as chaves do baú de brinquedos para o seu roteirista, mas se certificado de que só os bonequinhos escolhidos a dedo pelo estúdio pudessem sair dessa brincadeira ilesos para enfrentar um novo dia (e um novo capítulo). Os outros? Bom, eles simplesmente voltam para o baú.

Esse é um esquema narrativo que funciona em Rick and Morty, essencialmente uma paródia de ficção científica com uma premissa eternamente reciclável e personagens que quase nunca passam por transformações duradouras. Em Loki, a sensação que fica é que fomos enganados pelo estúdio, ou no mínimo enrolados por ele - que a "jornada ao mistério" que nos foi prometida, no fim das contas, foi apenas uma caminhada cênica por possibilidades nunca realizadas.

Talvez, se Loki tivesse mais um ou dois capítulos para gastar n'O Vazio, esse gosto amargo que fica ao final do 5º episódio fosse suavizado, porque há pontos de brilhantismo aqui. Especificamente, é bacana como a série consegue usar as novas variantes para aprofundar e estender o seu estudo de personagem do protagonista e da mitologia envolvida nele.

Em "Jornada ao Mistério", Loki (o "nosso", o de Hiddleston) e Sylvie são, ambos, apresentados com uma série de máximas absolutas sobre a existência de um ser como eles - "sobreviver é tudo o que existe", "o Deus dos Rejeitados". A cada curva no caminho da trama, no entanto, eles transformam ou subvertem cada uma dessas expectativas, reafirmando o próprio papel de construtores do seu destino. É uma forma elegante de dar agência aos seus personagens, ainda que só aos protagonistas.

Por fim, é também neste 5º episódio que Sophia Di Martino solidifica a performance excepcionalmente carismática que vem construindo durante toda a série. Aqui, Sylvie é despida do mistério que um dia já a envolveu, e surge como uma figura de propósito firme e cristalino, confiança plena em seus poderes e na necessidade, pessoal e cósmica, de sua missão. É também, no entanto, um ser humano extraordinariamente vulnerável, que carrega dores com as quais podemos todos, em uma magnitude ou outra, nos identificar.

Através de toda essa complexa cadeia de sentimentos, Di Martino é o que há de mais real, e mais interessante, em "Jornada ao Mistério".

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