Filmes

Crítica

Viúva Negra tem boas ideias, mas desperdiça o adeus de Scarlett Johansson

Marvel Studios perde a chance de valorizar a direção feminina

Julia Sabbaga
29.06.2021
15h20
Atualizada em
09.07.2021
11h39
Atualizada em 09.07.2021 às 11h39

Não é apenas por causa da pandemia que estávamos esperando há muito tempo pelo filme solo de Natasha Romanoff. Deixada de escanteio em diversos filmes do MCU, a personagem de Scarlett Johansson na Marvel foi ganhando cada vez mais protagonismo até fazer sua melhor participação em Vingadores: Ultimato, quando - apesar de seu desfecho questionável - apresentou uma personalidade finalmente carismática. Anos depois, Viúva Negra chega aos cinemas (e ao Disney+) sem aproveitar de verdade a chance de explorar a espiã. 

A proposta de retornar ao passado de Natasha é mais do que válida - estamos procurando as raízes de um papel por definição misterioso - e fazer com que a personagem vá atrás da libertação de outras mulheres que passaram por sua experiência é melhor ainda. Como sua última missão nas telas, a ideia é que Johansson consiga sair de cena com um sentimento de missão cumprida. É infeliz, portanto, que tudo isso tenha sido envelopado no padrão mais genérico do MCU. Ao invés de aproveitar uma direção e um protagonismo feminino (inédito deste modo na franquia dos Vingadores até hoje), o estúdio se apoiou no seguro, em um clima que remete a Capitão América e o Soldado Invernal, sem criar uma energia única e justa para Natasha. 

Em Viúva Negra, Natasha é reunida com seus “pseudo-parentes”, espiões russos com quem passou sua infância disfarçada como uma família tradicional americana. Logo após os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil, Natasha reencontra sua irmã Yelena, que a recruta em uma missão para salvar outras mulheres, vítimas do programa da Sala Vermelha. Aqui, o longa encontra o seu primeiro tropeço: a dificuldade de traduzir o tema de abuso no contexto do MCU. 

A tarefa não era fácil, e Viúva Negra tenta tratar o assunto com certa sensibilidade. Por vezes, isso funciona, principalmente no terceiro ato, quando nossa protagonista encontra seu antagonista principal. Mas durante quase todo o longa, a analogia criada soa mais como uma obrigação do que um discurso real. Parte do problema está na escolha do tema em si: será que não poderíamos ter visto Natasha em uma missão pessoal que não envolva abuso? A ideia de levar a personagem feminina em uma jornada de autodescobrimento sem traumas ou tragédias ficará para sempre em um imaginário do que poderia ter sido. 

A decisão do Marvel Studios também soa estranha exatamente pela insistência em não fazer da direção algo particularmente feminino, uma determinação que chama atenção principalmente nas cenas de ação. Comparado às visões de Mulher-Maravilha e Aves de Rapina, o trabalho de Cate Shortland não explicita a força física distintamente feminina. Por si, isso não é exatamente um problema. As cenas de ação de Viúva Negra têm sim sua personalidade, e é uma que dá ênfase ao embate físico real e com consequências. Mas o padrão é a masculinização de sempre e nada disso é feito de modo realmente inovador ou chamativo (como Atômica fez recentemente, inclusive). 

Dito isso, existem elementos redentores em Viúva Negra, e o principal deles - não surpreendentemente - está em Florence Pugh. A introdução de Yelena, um contraponto teimoso para a visão tradicional de Natasha, herdada dos Vingadores, é o que nossa protagonista precisava para conseguir se mostrar uma personagem mais humana. São nas interações das duas irmãs que Viúva Negra mostra sua personalidade de verdade, e é uma pena que tenha demorado tantos anos para que o MCU tenha colocado ao lado de Natasha alguém que tirasse o seu melhor. 

Em um papel menor do que a divulgação parecia prometer, David Harbour e Rachel Weisz completam a família de espiões, e seu humor não foge do esperado. As caricaturas russas - expressas por aquele sotaque que Hollywood ama incluir - têm seus momentos, principalmente quando mostram algum carinho um pelo outro. Mesmo assim, o alívio cômico de Harbour, que funciona só de vez em quando, acaba de escanteio quando Pugh rouba a cena em momentos mais leves. 

É curioso também que Viúva Negra é o raro caso de filme de herói que melhora em sua reta final. A última cena de ação, que reúne os personagens em uma luta final em queda livre, chama atenção pela bela escolha de referências, mais notavelmente a de Missão: Impossível. O confronto entre Natasha e o Treinador (vilão cuja revelação da identidade é um belo easter egg para os fãs) é um destaque também, apesar da luta na cozinha entre Yelena e Natasha, logo no começo, ainda ganhar como a melhor briga do filme. 

O resultado final de Viúva Negra não é uma surpresa. Já vimos a Marvel desperdiçar Natasha Romanoff uma vez, e este é só mais um exemplo da dificuldade do estúdio de contar histórias femininas. Mas depois de demonstrar um cuidado maior com narrativas em suas produções televisivas, Viúva Negra chega em 2021 já ultrapassado. É uma pena, mas isso pode não ser de todo ruim. Talvez seja a hora de deixar para trás personagens que infelizmente não tiveram sua chance, e desenvolver com mais cuidado novas narrativas femininas. 

Viúva Negra
Black Widow
Viúva Negra
Black Widow

Direção: Cate Shortland

Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, Rachel Weisz

Nota do Crítico
Regular

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.