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Crítica

Homem-Formiga e a Vespa

Peyton Reed traz o romance screwball para a continuação e faz uma das melhores comédias do MCU

Marcelo Hessel
27.06.2018
13h00
Atualizada em
02.07.2018
13h54
Atualizada em 02.07.2018 às 13h54

Enquanto James Gunn Taika Waititi recebem os louros por conceber ou reformular a veia cômica dos filmes da MarvelPeyton Reed entrou pelas portas dos fundos, substituindo o favorito dos fãs Edgar Wright no primeiro Homem-Formiga. O que Reed realiza em Homem-Formiga e a Vespa tem potencial para fazer-lhe justiça. A continuação adere a regras do gênero screwball com propriedade e o resultado talvez seja a melhor comédia do MCU.

Leia a crítica Homem-Formiga e a Vespa

O screwball remonta às comédias de William Shakespeare e pode ser grossamente resumido como um encadeamento de situações amorosas e cômicas de viradas rápidas (a "bola curva" do beisebol o designa justamente pela mudança de trajetória que nos pega de surpresa). Em Hollywood esse subgênero se tornou sinônimo de comédia romântica muito por conta dos filmes de LeoMcCarey Howard Hawks nos anos 1930, e Peyton Reed se filia a essa tradição aqui, da mesma forma que seu Abaixo o Amor revisitava a comédia sessentista de guerra dos sexos.

A diferença é que Homem-Formiga e a Vespa, como óbvio produto-tampão entre Vingadores 3 e 4, e envolvido nas expectativas que cercam o MCU, nunca poderia se propor a um exercício de mimetização e cinefilia tão frontal quanto o de Abaixo o Amor. Então o que Reed faz - na melhor tradição dos autores que sequestram gêneros em causa própria - é organizar a continuação como screwball comedy sem se recusar a fazer o beabá do filme de ação com toques scifi. Mesmo que Evangeline Lilly não seja nenhuma Rosalind Russell, o que temos aqui é uma comédia de fundo romântico bem espirituosa.

A parte do beabá diz respeito, basicamente, a toda a explicação de conceitos que envolvem as pesquisas de Hank Pym. A entrega da exposição é banal ("vocês colocam a palavra quântico em tudo que falam, é isso?", pergunta Scott) e as soluções de trama são frequentemente primárias (viradas fáceis envolvendo rastreadores, apresentações de novos personagens, criação oportuna de superpoderes). Isso não desabona o filme, porém, porque sempre fica claro que Reed passa pelas obrigatoriedades narrativas só pelo que elas têm de funcional (é boa a cena em que Woo explica as consequências da Guerra Civil para uma... criança). Inclusive ainda bem que Scott é uma toupeira porque graças às suas válvulas de escape cômicas as cenas de exposição sempre terminam encurtadas no final.

O foco do diretor está na forma como as viradas se beneficiam com o humor. Enquanto a entrega da exposição é trivial, a entrega das piadas - particularmente o estabelecimento e a sustentação enganosamente despreocupada de uma piada por muitos minutos até a punchline - é muito bem feita. As cenas de ação operam nessa linha: quando Scott está gigante, por exemplo, ele resolve facilmente situações com os vilões que ficaram menores, e até os efeitos sonoros (como o peteleco em uma metralhadora) acompanham essa lógica de humor. Ademais, se o senso de escala já era um dos pontos positivos do filme anterior, isso melhora na continuação: o mundo diminuto tem suas regras, assim como o gigantismo.

O que torna Homem-Formiga e a Vespa empático é que o humor está a serviço do filme e não é um fim em si mesmo. Reed trata a comédia de uma forma mais sofisticada que James Gunn - não é o riso autoconsciente apenas, mas o riso em função de uma dramaturgia. Nesse sentido ele se aproxima mais de Joss Whedon, roteirista que também pensa situações cômicas como um atalho para facilitar a conexão emocional com o espectador.

Especificamente, a dinâmica de Homem-Formiga e Vespa segue duas regras de ouro da comédia romântica tipo screwball para tornar as relações mais interessantes: a mulher está socialmente acima do homem (Hope entende de ciência e Scott não) e também está adiante nas viradas (Hope teria evitado que Scott fosse preso em Guerra Civil, diz ela, e nós acreditamos). Até a situação consagrada da troca de papel entre homem e mulher, típica desse subgênero, é usada por Reed, numa cena impagável de "possessão" que se aproveita muito bem da veia feminina de Paul Rudd. O ator, aliás, se encontrou definitivamente no personagem e está numa chave performática excepcional em Homem-Formiga e a Vespa, comparável ao Robert Downey Jr. de Homem de Ferro 3 em termos de timing, presença e gestuais cômicos.

No geral, a estrutura do roteiro é bem eficaz para manter o ritmo e um mínimo suspense, particularmente no terceiro ato (um dos melhores terceiros atos nestes dez anos de Marvel Studios), com uma mistura de Curtindo a Vida Adoidado e Querida, Encolhi as Crianças numa dinâmica de ação cômica que lembra os desenhos dos Looney Tunes, com suas viradas de gags visuais inesperadas.

A trilha do compositor Christoph Beck, pontuada por temas inusitados, ajuda a criar essa sensação de que o imprevisível norteia Homem-Formiga e a Vespa. Essa sensação é vital para a boa experiência do filme - que afinal parte de um plot manjado, já bem coberto nos trailers, e cujo clímax é só uma grande perseguição. O que temos aqui, em resumo, é um filme teoricamente previsível que surpreende porque incorpora muito bem a dinâmica do imprevisível, marca das comédias screwball.

 

Nota do Crítico
Ótimo