Eternos, Gavião Arqueiro e mais: 2021 foi ano marco da representatividade surda

Créditos da imagem: Cenas de Eternos, No Ritmo do Coração e Gavião Arqueiro (Reprodução/Montagem Omelete)

Filmes

Artigo

Eternos, Gavião Arqueiro e mais: 2021 foi ano marco da representatividade surda

Paula Pfeifer e André Santos falam ao Omelete sobre evolução do tema na mídia - e o que ainda falta mostrar

Caio Coletti
21.12.2021, às 06:00

Na cultura pop de 2021, personagens surdos foram de tudo: uma adolescente tentando sobreviver a um mundo pós-apocalíptico (em Um Lugar Silencioso: Parte II), uma criança capaz de se comunicar com um gorila gigante (em Godzilla vs. Kong), uma família envolvida na indústria da pesca que tenta incentivar os sonhos artísticos da filha mais nova (em No Ritmo do Coração), um rapaz emaranhado em uma trama de assassinato (em Only Murders in the Building), uma super-heroína milenar (em Eternos), um pai de família lidando com dilemas da meia-idade (em And Just Like That), e até um elfo fugindo de perseguições preconceituosas (na 2ª temporada de The Witcher).

Isso porque nem citamos Gavião Arqueiro, que adicionou à representatividade surda na Marvel ao introduzir não só a perda auditiva do personagem título, característica definidora dele nos quadrinhos, como também a anti-heroína Maya Lopez (ou Eco), vivida pela atriz surda Alaqua Cox. No primeiro encontro entre os dois, a personagem de Cox repreende o protagonista por utilizar um aparelho auditivo e não saber se comunicar muito bem com a língua de sinais, dizendo que ele confia demais na tecnologia e implicando que o herói ainda não consegue aceitar a sua própria condição.

Alaqua Cox como Maya Lopez/Eco em Gavião Arqueiro (Reprodução)

O conflito, usado pela série do Disney+ para acentuar a animosidade entre os personagens, reflete-se na comunidade surda do mundo real. Não é incomum encontrar surdos fazendo julgamentos sobre outros surdos por conta do nível da perda auditiva, por usar ou não usar o aparelho auditivo ou implante”, comentou André Santos, conhecido nas redes como o Nerd Surdo, em entrevista ao Omelete. “Por mais que cause estranheza falar sobre isso, o assunto evoca a questão da adaptação. Não existe receita de surdo [...], cada surdo se adapta, se aceita e se entende de forma muito pessoal”.

Como apontou Paula Pfeifer, escritora e ativista conhecida pelos projetos Crônicas da Surdez e Surdos que Ouvem, o problema é o julgamento atrelado à abordagem do tema. “Eu não vejo ninguém sendo contra cadeiras de rodas, óculos, próteses de membros, bengalas ou quaisquer outras tecnologias assistivas. Já na surdez, as pessoas se sentem aptas a julgar quem escolhe voltar a ouvir ou a ouvir melhor, e a dizer que é 'errado' usar aparelhos auditivos”, disse ao Omelete. “Nada pior do que ser vítima de capacitismo e o seu algoz ser uma pessoa que tem a mesma deficiência que você”.

Vale apontar que, em Gavião Arqueiro, Maya Lopez é apresentada como antagonista em relação ao personagem título. Os fãs dos quadrinhos conhecem a trajetória de Eco até uma posição (por mais relutante que seja) de heroísmo, e inclusive seu eventual laço de amizade com o Gavião - mas, por hora, a própria série não parece compartilhar com a personagem a visão de que o uso do aparelho auditivo é de alguma forma detrimental ou problemática no personagem interpretado por Jeremy Renner. Pelo contrário, os momentos em que a tecnologia se integra à vida do herói são encenados com naturalidade e empatia.

Surdez plural e autenticidade

Riz Ahmed em cena de O Som do Silêncio (Reprodução)

Ainda assim, esse conflito realça algo que tanto André quanto Paula relataram: ainda falta, na representatividade surda na mídia, um senso da diversidade da surdez. “Os filmes ainda insistem em retratar que todo surdo usa língua de sinais, que surdo é só quem não ouve nada, que acessibilidade se resume a intérprete, e isso está longe da verdade. [...] A indústria de entretenimento ainda precisa evoluir muito nesse sentido, colocar personagens que usam aparelhos auditivos, implante coclear, que precisam usar e relutam por estarem presos no armário da surdez, e por aí vai”, disse Paula.

André citou como exemplo positivo o longa O Som do Silêncio (lançado em 2020, mas vencedor de dois Oscar este ano), onde Riz Ahmed interpreta um baterista que perde a audição. “Muitas pessoas ainda pensam que todo surdo nasceu surdo, e que todo surdo é mudo. Pelo contrário! O filme mostra que a surdez pode acontecer depois de adulto, e que podemos sim aprender línguas de sinais, mas não deixamos de oralizar por causa da surdez. Como sempre digo, a surdez é plural, definiu.

Millicent Simmonds em cena de Um Lugar Silencioso: Parte II (Reprodução)

Um passo importante para trazer essa representação mais calibrada com a realidade é a contratação de atores e outros profissionais surdos para trabalhar nos sets das produções. Só nos títulos que citamos no começo deste texto é possível encontrar um verdadeiro embaraço de riquezas quando se trata de talento surdo em Hollywood: de veteranos como Marlee Matlin, Troy Kotsur e Lauren Ridloff, que vem encontrando mais espaço recentemente, a uma nova geração que inclui Millicent Simmonds, James Caverly e Kaylee Hottle.

Quando um ator sem deficiência é escalado para viver um personagem com deficiência, isso é chamado de cripface”, lembrou Paula. Com nome derivado do termo blackface, que descreve a escalação de intérpretes brancos para interpretar personagens negros, a prática já foi muito mais lugar comum em Hollywood. “A indústria do entretenimento hoje está ficando mais antenada nesse sentido, após ter tido que gerenciar várias crises de relações públicas”.

A questão toda, definiu André, é trazer a representatividade para as telas de maneira mais autêntica possível. “Geralmente, quando assistimos a um filme, uma série ou até mesmo na infância, com aqueles brinquedos que nos divertiam, buscamos conexões com personagens que nos lembram de nós mesmos, e ter essa representatividade é importantíssimo para nos enxergarmos fazendo parte de diversos universos”, comentou.

Do lado de cá

Kaylee Hottle em cena de Godzilla vs. Kong (Reprodução)

A inclusão de mais personagens surdos na mídia, e especialmente em filmes e séries que alcançam um público gigantesco, como o MCU e Godzilla vs. Kong, abre um outro debate contundente: se estamos dispostos a mostrar pessoas surdas nas telas, não deveríamos nos esforçar para que pessoas surdas possam acessar essas produções, se entreter com elas, aproveitar essa importante dose de representatividade, com mais facilidade? Se a resposta parece óbvia, a realidade é outra.

A disponibilização de sessões legendadas de filmes estrangeiros já é escassa na maioria dos cinemas do Brasil, por conta da (legítima) preferência popular pela dublagem, e a utilização de legendas em filmes falados em português vai de rara a inexistente. A disponibilidade de intérpretes de LIBRAS nas salas ou na tela, então, é um luxo ainda mais impensável quando se trata da rede de cinemas nacional.

A própria Lauren Ridloff, estrela de Eternos, advogou pela inclusão de legendas em mais sessões (ou mesmo em todas as sessões) de cinema: "Acho que essa é uma conversa importante que precisamos continuar tendo. É preciso normalizar as legendas. Neste momento da história do mundo, todos nós somos tão visuais, tão dependentes de texto - mesmo as pessoas que escutam. Você conversa por texto no seu celular, se comunica por texto nas redes sociais, então porque não deixar que o texto entre também nos cinemas?".

James Caverly em cena de Only Murders in the Building (Reprodução)

Até quando o assunto são serviços de streaming e de entretenimento caseiro, buracos flagrantes de acessibilidade são rotineiramente encontrados por usuários surdos e não surdos. Uma alternativa nesse sentido no Brasil é a plataforma PingPlay, que se compromete a adaptar todos os títulos do seu catálogo a pessoas com deficiência visual e auditiva.

Só no Brasil, são mais de 10 milhões de pessoas declaradamente surdas”, apontou André Santos. “Espero que essa questão evolua, a entrega de acessibilidade dos meios pode ser melhorada, mas para as empresas começarem a entender e aprender com isso precisam dar oportunidade [a profissionais surdos] e realizar [essa inclusão], seja com legendas ou com intérpretes. Eu acredito num alinhamento das tecnologias e das oportunidades, que permita que isso seja realizado de forma cada vez mais prática”.

Para Paula, há ainda outra chave para mover adiante essa questão. “A luta por acessibilidade precisa ser uma responsabilidade coletiva, e eu gostaria de ver as pessoas sem deficiência lutando junto”, declarou ela. “Afinal, você pode vir a ter um filho com perda auditiva, seus pais podem perder a audição, você pode ficar momentaneamente surdo por conta de um ouvido inflamado… Não é porque você não precisa de acessibilidade hoje que não pode vir a precisar dela no futuro”.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.