WandaVision, série de TV da Marvel Studios no Disney+

Créditos da imagem: WandaVision/Disney+/Divulgação

Séries e TV

Artigo

A volta de séries semanais: streamings entenderam que não se vive só de maratona

De The Boys a WandaVision, plataformas perceberam que há potencial em combinar facilidade do streaming com ideias da TV tradicional

Arthur Eloi
26.01.2021
18h23

Nenhum meio do entretenimento mudou tanto nas últimas décadas quanto a televisão. Passando por uma era de ouro - batizada por John Landgraf, presidente do FX, de Peak TV -, a produção televisiva cresceu em número e qualidade. Mas a consolidação de plataformas de streaming nos últimos anos passou a influenciar a forma como o grande público interage com seriados. Rompendo com o formato antigo, as temporadas começaram a ser lançadas em uma tacada só, e consumidas do mesmo jeito, em maratonas de poucos dias (ou horas). No entanto, com o volume de estreias só crescendo a cada semana, os serviços estão começando a ver valor em uma técnica já testada: a transmissão semanal.

Por mais que 2020 tenha sido marcado por séries ‘maratonáveis’, como O Gambito da Rainha e Emily em Paris, alguns nomes de peso optaram pelo bom e velho modelo de soltar um capítulo por vez. Foi assim com a segunda temporada de The Boys, que desenvolveu mistério e violência entre setembro e outubro, e também com a volta de The Mandalorian. Ambos os casos se tornaram verdadeiros sucessos de audiência e de reação do público, semanalmente conquistando os trending topics de redes sociais a cada nova reviravolta, e demonstrando o potencial de aliar o fácil acesso do streaming com a essência episódica da TV tradicional.

Por mais que exista grande procura por filmes e séries disponíveis a todo momento e em vários dispositivos, o modelo semanal transforma os episódios em eventos, como foi o caso de Game of Thrones, The Walking Dead, Breaking Bad, Westworld e muitas outras. Sentar em frente à TV para ver uma parcela da narrativa se torna quase um ritual, capaz de prender a atenção de todos nos domingos, e dominar as conversas de segunda em diante.

Na era do conteúdo de qualidade aos baldes, há importância em servir algo a conta-gotas. Mesmo quem opta por assinar um único streaming por vez pode se sentir sufocado com a sequência impiedosa de novas séries, filmes e documentários chegando a todo momento. Quando a plataforma disponibiliza gradualmente um de seus carros-chefes, cria-se algum ritmo em meio ao caos, e coloca-se todos os espectadores no mesmo patamar para discussões. As surpresas e viradas narrativas ganham muito mais impacto quando podem ser coletivamente sentidas e analisadas ao longo dos dias, antes da próxima dose.

A tendência parece seguir para 2021, visto que o ano já começou com um representante de peso do movimento de exibição semanal: WandaVision. A primeira série de TV da Marvel Studios no Disney+ carrega o fardo gigantesco de expandir o maior universo do cinema para as telinhas, de forma que não só traga de volta o público que consagrou Vingadores: Ultimato como a maior bilheteria de todos os tempos, mas que também demonstre que ainda há histórias a serem contadas após a batalha contra Thanos. O seriado decidiu abordar esses desafios por meio da bizarrice, com Wanda (Elizabeth Olsen) vivendo em uma realidade questionável de dona de casa de sitcom clássica.

Por mais que, após a conclusão da temporada, WandaVision vá continuar na íntegra no catálogo, a transmissão gradual parece mais necessária do que nunca. Cada episódio brinca com diferentes influências clássicas, representando uma verdadeira progressão da comédia televisiva ao longo das décadas. Aqui, um capítulo não serve apenas para contar uma porção da trama, mas também para explorar linguagem e temas únicos. As grandes produções da TV valorizam episódios como quadros em branco, obras únicas que constroem algo maior quando colocadas lado a lado.

Maratonas e Caminhadas

Isso significa que um seriado disponibilizado de uma vez só não pode ser grandioso? Não mesmo. Afinal, isso não impediu a Netflix de ter House of Cards, Ozark, A Maldição da Residência Hill e muitos outros. Mas, além de moldar como o público inicial (e mais vocal) interage com o produto, o formato tudo-de-uma-vez também criou uma demanda por séries sob medida para maratonas. Hits como as já citadas O Gambito da Rainha, Emily in Paris ou então La Casa de Papel e Lúcifer funcionam melhor quando consumidas em grandes mordidas do que em migalhas. E não há nada de errado com isso.

O problema é quando as produções optam por não estruturar a trama em episódios, mas sim em algo mais próximo da narrativa cinematográfica. O formato de três atos funciona maravilhosamente bem ao longo de duas horas. Porém, quando é esticado por mais de dez horas, os furos começam a ficar evidentes. É por isso que há muitos seriados com inícios fantásticos e conclusões marcantes, mas terrivelmente arrastados em seu desenvolvimento, como as várias séries da Marvel na Netflix.

Em artigo de 2015 comentando esse problema em Jessica Jones, o crítico televisivo Alan Sepinwall defendeu que criadores não explorassem episódios como capítulos de um livro, mas sim como obras individuais que se complementam: “Quando o material é interessante e há trama o suficiente para se esticar por seja lá quantos episódios e horas, isso não é um problema. Mas quando a trama não é das melhores, essas barrigas narrativas moldadas como episódios se tornam um saco: são necessárias para entender a trama em geral, mas nada interessantes de se assistir, mesmo como parte de uma maratona”.

A verdade é que não há receita para a grandiosidade. Seriados podem ser excelentes de todas as formas, e cativantes mesmo com seus defeitos e incoerências. Enquanto há muitos méritos criativos para se discutir, a distribuição também tem um peso em como as obras são vistas e consumidas. Com a era de ouro da televisão entrando em sua terceira década, e com as plataformas de streaming mais dominantes do que nunca, é a hora certa de entender que há muito valor em combinar inovação com o que funcionou no passado.

O Ovo de Wall Street, podcast original do Omelete, discutiu a questão do formato televisivo e sua comparação com o cinema no episódio #24. Ouça abaixo!

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