Amazon Prime Video

Crítica

The Boys - 2ª Temporada

Série leva a sátira aos heróis a um novo patamar em sua temporada mais madura e relevante

Gabriel Avila
08.10.2020
18h00
Atualizada em
15.10.2020
13h03
Atualizada em 15.10.2020 às 13h03

A primeira temporada de The Boys chegou ao Amazon Prime Video como uma grata surpresa. Uma daquelas obras que você não sabia que precisava consumir até terminar uma sangrenta maratona de oito episódios que adaptavam uma das mais polêmicas HQs da indústria. Após ganhar toda a atenção de quem ama, e especialmente de quem odeia super-heróis, a série deu a si mesma a ingrata missão de manter o alto nível para seus próximos anos. Felizmente, a segunda temporada marca uma evolução para a produção, que entra para a lista de grandes lançamentos de 2020.

Após assistir aos episódios da nova temporada, é justo dizer que The Boys cresceu como um todo. Se inicialmente a graça era satirizar a cultura dos heróis da forma mais violenta e absurda possível, o novo ano apostou todas as suas fichas na história que estava contando ao ir mais devagar na piração e dar mais tempo para que seus personagens e suas respectivas jornadas. Não que a acidez tenha sido deixada de lado, mas houve um novo direcionamento para esses momentos, que agora servem à história ao invés de ser o grande foco.

É possível perceber essa mudança logo no início, que se passa poucos meses após o final explosivo da primeira temporada. Com Billy Bruto (Karl Urban) desaparecido, Hughie Campbell (Jack Quaid) precisa juntar os cacos de sua equipe para destruir a Vought enquanto se escondem das autoridades, que agora os procura. Se antes o foco ficava na relação entre Bruto e seu “aprendiz”, agora Kimiko (Karen Fukuhara), Francês (Tomer Kapon) e Leitinho da Mamãe (Laz Alonso) ganham mais camadas e espaço no decorrer da trama.

Mais do que lamber as feridas ou estabelecer uma dinâmica completamente inédita para o grupo, o enredo caminha de forma natural para explorar tanto suas qualidades, quanto suas fraquezas. Quando a série mostra como a luta de Hughie por independência impacta diretamente na jornada de Billy para aprender a confiar no próximo - que por sua vez faz com que Kimiko quase deixe o time -, há um grande desenvolvimento nesses personagens que potencializa a catarse das grandes viradas.

 

O mesmo pode ser dito sobre o lado dos supers. O grande exemplo talvez esteja na figura do Capitão Pátria (Anthony Starr), que precisa aprender a viver sem a presença de Madelyn Stillwell (Elisabeth Shue). Se por um lado assassinar sua antiga chefe e aliada dá liberdade para que ele aja como bem entende, por outro gera uma desorientação que apenas a liberdade total poderia causar ao homem mais poderoso do mundo. Não por acaso ele decide construir algo de forma 100% independente: uma estranha relação paterna com o jovem Ryan (Cameron Crovetti).

A reinvenção pessoal não para no líder dos Sete. Em primeiro lugar temos Luz-Estrela (Erin Moriarty), que não apenas aprende a jogar o jogo como passa a dar as cartas. É especialmente recompensador assistir à heroína tomando as rédeas de suas relações, indo de sua mãe a Hughie, passando pela recompensadora vingança contra a Vought. Esse amadurecimento ganha ainda mais destaque em comparação à jornada de supers como Rainha Maeve (Dominique McElligott), Trem Bala (Jessie T. Usher) e Profundo (Chace Crawford), que agora procuram redenção por seus pecados - ainda que de formas e por motivos muito diferentes.

Curioso como ambos os núcleos, tanto dos Boys, quanto dos Sete, são fortemente abalados pela Tempesta (Aya Cash). Ainda que de formas diferentes, sua chegada tem forte impacto tanto em Kimiko quanto no Capitão Pátria - alguém que ela abala sem nem mesmo encostar um dedo. É até curioso ver como essa relação se desenvolve, já que ela passa de ameaça a amante em uma rapidez que não apenas faz sentido, como dá à personagem o destaque que ela precisa para a construção de um dos enredos mais relevantes para os tempos atuais.

O criador Eric Kripke afirmou em mais de uma ocasião que Tempesta daria à série a chance de responder à intolerância que infelizmente ainda se faz presente no mundo real. Ao contrário de sua contraparte nos quadrinhos, que se proclama nazista desde o primeiro minuto, a construção da personagem na série é gradual e tão realista quanto uma série de fantasia permite ser. Vivemos em tempos esquisitos em que parte da opinião pública é guiada por uma rajada de memes criadas a partir de páginas que lucram com uma falsa isenção, e a forma didática como a série mostra como esse tipo de influência pode literalmente causar mortes se mostra tão poderosa quanto necessária.

Todos esses pontos altos se devem não apenas ao roteiro afiado da série, mas também à acertada escolha de lançar seus episódios semanalmente. Esse formato de divulgação fez muito bem à narrativa, deixando grandes ganchos que por sua vez faziam com que The Boys dominasse os debates - e os memes - até o lançamento do próximo capítulo. Fora que tirar a ansiedade causada pela necessidade de maratonar uma temporada o mais rápido possível tornou a experiência especialmente divertida.

É claro que nem tudo é perfeito, e a série derrapa ao ancorar alguns de seus eventos em uma enorme forçação de barra. Não é preciso um procurar muito para encontrar inconsistências em certos momentos, o que tira um pouco do brilho de uma história que conquista justamente pela criatividade na hora de criar e resolver alguns de seus problemas.

Ainda assim, seria uma grande injustiça focar nos deslizes quando todo o resto é apresentado de forma tão excelente. Com uma terceira temporada e uma série derivada já anunciadas, o futuro de The Boys não poderia ser mais promissor. Se a produção ainda tinha algo a provar, certamente seu segundo ano conseguiu. Resta esperar pelos próximos passos de Billy Bruto e seus amigos, que seguem expandindo sua influência pela cultura pop explodindo uma baleia por vez.

The Boys já está renovada para a 3ª temporada, que contará com a adição de Jensen Ackles (Supernatural) - saiba mais.

Assista no Prime Video
The Boys
Em andamento (2019- )
The Boys
Em andamento (2019- )

Criado por: Seth Rogen, Evan Goldberg e Eric Kripke

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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