Claire em House of Card/s Reprodução/ Netflix

Créditos da imagem: Claire em House of Card/s Reprodução/ Netflix

Séries e TV

Crítica

House of Cards - 6ª temporada

Nem Frank, nem Claire: série se despede mostrando que seu grande protagonista sempre foi o poder

Rafael Gonzaga
02.11.2018
22h30
Atualizada em
05.11.2018
11h58
Atualizada em 05.11.2018 às 11h58

Era difícil prever o que viria em termos de trama na temporada final de House of Cards com a saída de Kevin Spacey, o protagonista Frank Underwood, após a série quase ficar sem conclusão por conta das acusações de assédio sexual envolvendo o ator. Uma remessa final de episódios sem seu protagonista foi, certamente, a reviravolta mais impressionante que House of Cards vivenciou e, como em todas as outras, mostrou resiliência e capacidade de inventividade na hora de manter a casa em ordem. No quinto ano, Frank parecia estar irremediavelmente embolado em sua trama de mentiras e crimes, mas, no momento final, ele pega as mesmas cordas que o sufocavam e as transforma nas rédeas da situação - a série tenta fazer algo semelhante na hora de transmutar o limão em uma limonada e o encerramento de House of Cards passa a girar ao redor da ausência de Frank.

Frank não sai de cena: sua ausência é o motivador de tudo o que passa a acontecer na série. A quinta temporada plantou o que seria o jogo de gato e rato derradeiro: Frank contra Claire (Robin Wright), os dois peões indiscutivelmente mais poderosos do tabuleiro de House of Cards. Com a saída de Frank da jogada, quem ficou com a função de protagonizar a grande batalha com a viúva Underwood foi o próximo na fila: Doug Stamper (Michael Kelly). Não dá para negar que é interessante ver essas duas figuras despencando no vazio escuro da ausência de Frank - ambos são figuras cujas histórias derivam das manipulações do ex-presidente que, estando morto, cria a necessidade deles encontrarem outro norte ou afundarem.

Claire e Frank não estavam destinados a se enfrentar no momento final só por conveniência, mas porque a ex-primeira-dama e atual presidente nunca foi uma carta fraca - ela só demorou a revelar seus instintos e potencial por conveniência. Em uma batalha, Claire e Frank tinham capacidade de se encarar de igual para igual: os dois eram fiéis apenas a eles mesmos e, no momento em que não eram mais uma dupla, se assumiram inimigos. Aliás, todo mundo é inimigo na temporada final de House of Cards. Apesar de Claire e Doug ganharem os holofotes na reta final, a série apresenta basicamente Claire contra o mundo. A redução dos habituais 13 episódios para apenas oito faz sentido quando se leva em consideração as condições nas quais a temporada final foi concebida, mas faz com que a série pareça um bang-bang com a sucessiva eliminação de desafetos e potenciais problemas para Claire.

Ninguém tinha dúvida de que Robin Wright seguraria bem o monopólio dos holofotes de House of Cards - e, se alguém tinha, é porque não prestou atenção direito no trabalho da atriz até o ponto derradeiro da série. Wright consegue espaço para evidenciar em sua forma mais explícita a evolução de sua personagem na mesma medida que Kevin Spacey conseguiu transparecer com Frank nos anos anteriores. A viúva revela sem a sombra do segundo plano - que já não mais existia há algumas temporadas, mas precisava dessa ruptura mais sólida - toda sua capacidade de ser uma figura maquiavélica e escorregadia. É difícil saber o que se passa em sua cabeça e quantos passos ela está à frente de todos os outros - e não podia ser diferente. Se no começo da série é estranho ver a atriz quebrando a quarta parede recorrentemente, no fim, o público já está confortável com a novidade desse diálogo.

É interessante ver como a narrativa do feminismo é explorada na temporada que marca a ascensão de Claire. House of Cards é uma série sobre como a política é capaz de manipular a realidade de acordo com interesses - o feminismo de Claire é real, mas é condicionado à conveniência das situações. A série acerta ao não transformar House of Cards em uma trama pedagógica sobre os percalços da primeira presidente mulher dos Estados Unidos: ela sublinha sem meias palavras o desrespeito de setores políticos à ideia de uma figura de autoridade feminina, mas não trata Claire como uma paladina da igualdade de gênero. Há uma linha tênue entre os momentos em que a viúva Underwood está sendo genuína sobre suas reivindicações contra o machismo - os flashbacks sobre seu passado e o que sofreu em decorrência dos abusos masculinos são acertados - e os momentos em que a pauta se torna só mais uma carta em sua manga.

Há um problema na última temporada, especificamente antes de Claire e Doug começarem sua queda de braço particular já na segunda metade da remessa de episódios: os irmãos Annette (Diane Lane) e Bill Shepherd (Greg Kinnear). Os dois se tornam a primeira grande adversidade para Claire, que é desafiada a perceber que, na potência capitalista, o presidente tem tanto poder quanto aqueles que acumulam fortunas. Porém, é difícil criar grande conexão com a dupla - principalmente em arcos fundamentalmente ligados aos escândalos familiares dela - levando em conta que há algo maior evidentemente planejado mais adiante. Chega um momento em que é fácil torcer para que os dois percam logo destaque para que as coisas importantes em uma temporada final comecem a acontecer de verdade.

Os momentos finais da série, que giram em torno não só do que vai definir o futuro de Claire, Doug e de quem mais sobreviveu ao tsunâmi Underwood, mas primordialmente do que aconteceu com Frank, não são tão arrebatadores como seria de se esperar da conclusão de House of Cards, contudo. Em dado momento, há certa obviedade na condução dos eventos e isso por si só é um problemão em uma série que sempre se pautou por pegar o espectador desprevenido. A culpa, é claro, não é dos atores - Michael Kelly e Robin Wright fazem um excelente trabalho - e pode ser justificada pelas limitações que ocorreram com a saída de Kevin Spacey. Não deixa, entretanto, de ser levemente decepcionante - a sensação é a de que a série fez o que podia. Um veredito assim chega a ser considerado bom, mas passa longe de excelente.

House of Cards é uma série sobre o ciclo tóxico da jornada do poder: quanto mais poder alguém tem, mais essa pessoa deseja. As ações levam apenas à própria manutenção desse controle, ilusoriamente cada vez mais próximo do que ela entende como poder absoluto - o desejo por isso vai testando cada vez mais os limites de quem é inebriado por essa possibilidade. Foi assim com Frank por muito tempo, depois com Frank e Claire, por fim, apenas com Claire. A temporada final não quebra esse ciclo, pelo contrário, o reafirma. Nem Claire, nem Frank são os protagonistas de House of Cards: o agente central é o conceito abstrato do poder. Os Underwood foram, em seis temporadas, agentes dele e, como o final mostra, a roda não para de girar. Com o tempo, outros virão.

Nota do Crítico
Bom