Netflix/Divulgação (Montagem)

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação (Montagem)

Séries e TV

Artigo

Dia do Orgulho: Criadores falam sobre desafios para a representatividade

Falamos com Alice Marcone, de Manhãs de Setembro, e Carlos Montero, criador de Elite

Flávio Pinto
28.06.2021
17h31

No início deste ano, quando a GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, “aliança de gays e lésbicas contra difamação”, em tradução livre), ONG estadunidense responsável por monitorar as formas de retratação de pessoas LGBT em produtos da mídia, revelou seu relatório anual sobre representatividade em séries de TV, o resultado foi abaixo do esperado: pela primeira vez em 5 anos, houve uma queda no número de personagens LGBT na televisão

O estudo, intitulado “Where We Are on TV”, apontou que, em 2020, dos 773 personagens fixos de séries das redes abertas e fechadas, e de plataformas de streaming, apenas 70 se identificavam como um membro da comunidade LGBT. Isso é um pouco mais de 9%. “Esperamos que isso seja apenas um desvio fora da curva, e não o início de uma tendência”, disse Sarah Kate Ellis, presidente e CEO da associação, atribuindo o número ao impacto da pandemia do novo coronavírus em produções de filmes e séries em todo o mundo. 

Porém, mesmo com a diminuição na quantidade das produções, por qualquer motivo que seja, a representação não deveria continuar justa? Para Alice Marcone, atriz e criadora, a presença de personagens que sejam membros da comunidade LGBT já evoluiu bastante, “mas ainda há espaço para mais mudanças”, ponderou ao Omelete. Marcone atribui essa transformação ao crescimento das plataformas de streaming, que vêm empregando talentos para contar novas e múltiplas histórias.

Netflix/Divulgação
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É o que também acredita Carlos Montero (foto), criador de Elite, série da Netflix, que compartilhou a sua experiência com a gigante ao Omelete. Mesmo com muita liberdade criativa, Montero acredita ter sorte, pois “não há pressão por parte deles [a empresa]. Sei que devo ser um dos poucos, mas a Netflix me contratou já sabendo que eu iria abordar a temática em Elite”. 

Mesmo assim, o responsável por dar vida aos alunos do colégio Las Encinas acredita que está em falta com outros membros da comunidade. “Eu pretendo adicionar alguns personagens não binários na série. Mas antes, terei de fazer uma pesquisa para não errar na mão, além de contratar talentos que possam representar o gênero dentro e fora das telas”, afirmou. 

Representar para além de representar 

Netflix/Divulgação
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Alice Marcone (foto), responsável por roteirizar Manhãs de Setembro, série estrelada por Liniker que subverte estereótipos, para a Amazon Prime Video, e De Volta aos 15 para a Netflix, ressalta a importância de que esses personagens tenham histórias desenvolvidas e que retratem as nuances de suas experiências. “Eu sinto que ainda, por mais que haja mais interesse e estejamos caminhando para ter mais personagens, é necessário que eles não sejam apenas arquétipos. A representação tem que ir além da representação. Os personagens não devem ficar relegados somente à temática LGBT”. 

A criadora também bate na tecla que a inclusão deve começar por trás das câmeras. “Muitas vezes, eu me vejo como a única mulher de cor ou mulher trans em uma sala de roteiristas. Ou seja, é comum usarem a minha visão como um caminho para contar a história, mas ela não deve ser a única”, disse ao explicar que somente através de uma equipe diversa é possível encontrar histórias que vão além da superfície.

Felizmente, Carlos e Alice não estão sozinhos. Há outros exemplos de criadores que vêm hasteando a bandeira do arco-íris em produções de sucesso para a TV, como Janet Mock e Steven Canals (responsáveis por Pose), Dan Levy (Schitt's Creek, que assinou um contrato com a ABC Studios, da Disney, para o desenvolvimento de projetos), Michael Patrick King (Sex and the City: And Just Like That...), Greg Berlanti (produtor executivo de praticamente todo o Arrowverse), Chris Van Dusen (Bridgerton), Darren Star (Emily in Paris), Lena Waithe (a Denise de Master of None, que se tornou a primeira mulher negra e assumidamente lésbica a vencer um Emmy de melhor roteiro, pelo episódio "Thanksgiving", da segunda temporada e criadora de The Chi e Twenties), e até mesmo a toda-poderosa Shonda Rhimes que, embora seja heterossexual, é vista pela comunidade LGBT como uma aliada graças a medidas de inclusões em suas séries. 

Apesar de durante muito tempo esses criadores tenham sido relegados ao nicho que representam, o cenário hollywoodiano está acenando para novas propostas e oportunidades aos talentos. Red Sonja, longa baseado na HQ da Marvel Comics, será dirigido por Joey Soloway, diretore não-binário e criadore de Transparent, do Prime Amazon. Na semana passada, Loki assumiu sua bissexualidade e Luca, animação da Pixar, estreou mundialmente. The Acolyte, nova série da Lucasfilm para a Disney+, tem a roteirista lésbica Leslye Headland como showrunner, e assim por diante. 

Em um perfil traçado pela The New Yorker, Ryan Murphy contou à publicação que odeia ter seu trabalho descrito como “camp”, pois, segundo ele, o termo é comumente jogado a criadores e artistas LGBT com o intuito de marginalizar suas ambições e projetos, enquadrando seus trabalhos como “nichados”. Isso poderia até ser em 2018, quando o perfil de Murphy foi traçado pela publicação. 

Puxando pelas palavras de Alice Marcone, é possível apontar que os estúdios estão deixando de "representar só para representar", como se estivessem tentando preencher uma cota invisível. As lésbicas, os gays, os bissexuais, os transsexuais, os queers, os intersexuais e os assexuais agradecem. 

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