Pantanal tem muito o que ensinar para esses remakes de anime

Créditos da imagem: Montagem: Urusei Yatsura/David Production, Pantanal/Globo

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Pantanal tem muito o que ensinar para esses remakes de anime

Pantanal conseguiu unir o público antigo com fãs novos, e é um exemplo que deveria ser estudado pelos remakes de anime

Omelete
9 min de leitura
Fábio Garcia
22.06.2022, às 18H24

Urusei Yatsura, Rurouni Kenshin e Bastard não são apenas nomes de animes famosos do passado, são também novas promessas de sucesso no meio otaku no presente. Com remakes dessas franquias chegando logo mais, cada uma delas tentará conquistar tanto o público mais novo como também quem cresceu com as produções originais, lançadas há décadas.

Esse desafio de agradar duas bases de fãs distintas parece complicado, ainda mais vendo o desempenho de remakes recentes como Shaman King e Dragon Quest: The Adventure of Dai que não conseguiram unir gregos e troianos. Talvez toda produção de remake de anime deveria analisar o passo a passo de um remake que deu muito certo, o da novela Pantanal da Globo. Por quê? Bem, este é um dos melhores exemplos atuais sobre como realizar um novo projeto mesclando a tradição com a modernidade.

A origem do remake

Originalmente Pantanal se chamava Amor Pantaneiro e seu projeto foi criado pelo autor Benedito Ruy Barbosa após se hospedar em uma fazenda na região. Encantado pela beleza dos rios e da exuberância dos tuiuiús, Benedito entregou a sinopse de seu projeto para a Globo. Infelizmente esse projeto sobre a mulher que vira onça e da sucuri que encarna um velho coach acabou rejeitado pela emissora por motivos econômicos, pois seria algo caro demais para se produzir. Acreditando no potencial de sua história, Benedito levou sua novela à Rede Manchete e o resto é história: Pantanal foi um fenômeno no começo dos anos 1990 com uma mistura única de sucessão familiar, moda de viola e sensualidade.

A Globo havia perdido a chance de produzir Pantanal uma vez, mas não perderia de novo! Os planos para a produção de um remake na emissora global começaram em 2006, quando a emissora adquiriu os roteiros do novelista. De lá pra cá muita coisa atrasou essa nova versão de Pantanal, passando por problemas de saúde de Benedito, conflitos com a gestão de teledramaturgia da emissora carioca e uma inesperada reprise da novela original pelo SBT em 2008.

Mesmo assim, Pantanal era considerada uma aposta pessoal do novo diretor de teledramaturgia da Globo, José Luiz Villamarim. E assim o remake do folhetim chegou em 2022 com a expectativa de salvar a faixa de horário ocupado por novelas pouco interessantes para o público. As milhares de páginas do roteiro original foram entregues na mão de Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa, para que fossem atualizados para os tempos atuais. A trama original era ambientada no começo dos anos 1990, então eram necessárias mudanças para que a história agora fosse ambientada em 2022, uma época com internet banda larga e drones.

Divulgação/Globo

A adaptação tornou Pantanal em um sucesso absoluto, rendendo pautas em sites e programas de fofoca e muitos memes para redes sociais (você já deve ter esbarrado em algum “reiva” ou “câmbio” nas suas andanças pela internet). O ritmo mais lento da trama pantaneira conquistou os antigos espectadores cansados de histórias rápidas demais, ao mesmo tempo que o lado mais poético da narrativa conquistou também um novo público formado por pessoas nascidas após a exibição da versão original na Manchete. Com isso, Pantanal se tornou um exemplo de remake bem sucedido, o sonho de qualquer produtora de novelas, séries… e por que não de animes também?

Os remakes de anime

A vida de um remake de anime é tão dura quanto ouvir "Cavalo Preto" três vezes ao dia. Em março do ano passado escrevi aqui no Omelete um artigo explicando essa onda de remakes e novas versões nos anime. Na época perguntei a Yuri Petnys, líder de marketing da Crunchyroll no Brasil e em Portugal, qual era a explicação para tantas produções do passado serem “ressuscitadas”, e a resposta do profissional foi que agora era possível (graças à tecnologia) “trazer novidade aos clássicos”. A arte da animação evoluiu a grandes passos nas últimas décadas, e remakes como Dragon Quest e Digimon permitiram que estúdios e produtoras apresentassem os clássicos que marcaram época de uma maneira nova e diferente. Sob esse aspecto, a estratégia é a mesma que levou a Globo a produzir Pantanal: apelar ao mesmo tempo para a "nostalgia das gerações mais antigas e os gostos modernos das novas gerações".

Pouco mais de um ano da publicação do texto, a situação de alguns animes citados não foi tão positiva assim. Dragon Quest: The Adventure of Dai é um remake de Fly, o Pequeno Guerreiro, dessa vez mais ágil e trazendo o final inédito da história (o anime original foi cancelado após 46 episódios). Embora tenha uma animação bastante competente e fazendo uso da tecnologia, o novo anime de Dragon Quest parece não ter conseguido chamar a atenção do público mais jovem. Outro exemplo comentado foi o de Shaman King, outro remake lançado com a promessa de um final inédito e canônico. Nem mesmo fazer parte do catálogo da Netflix ajudou, otakus mais novos não debatiam tanto sobre os desdobramentos das lutas de Yoh Asakura e Amidamaru quanto fãs com mais idade.

Há quem critique o ritmo acelerado como o principal pecado desses dois exemplos, algo que faz até sentido. Shaman King tem o roteiro mais frenético que uma corrida de 100 metros rasos, condensando os 35 volumes do mangá em apenas 52 episódios. Para se ter uma ideia da velocidade, o primeiro anime da série de 2001 teve 64 episódios, e isso sem adaptar totalmente o mangá! A velocidade também se faz presente nos acontecimentos de Dragon Quest: os 46 episódios do anime original dos anos 1990 foram contados em 25 episódios do novo anime. Isso porque não estamos nem falando de Sailor Moon Crystal, o remake inspirado na obra original que… bem… é de mediano pra baixo.

Obviamente existem os remakes que não ficaram fadados ao fracasso. O anime original de Fruits Basket era capenga a ponto de ter traumatizado a autora, que só veio liberar uma nova versão décadas depois após ser tranquilizada de que a equipe do original não retornaria nessa nova série. Contando a história com um outro ritmo e tom, o remake de Fruits Basket se tornou um clássico instantâneo e atualmente tem notas altíssimas em sites como My Anime List. E também podemos inserir aqui neste parágrafo o anime Jojo’s Bizarre Adventure, afinal outras tentativas de animar arcos da obra de Hirohiko Araki no passado não conseguiram nem metade do fenômeno do anime de 2012.

Tal qual Pantanal, esses exemplos souberam pegar o material original e retrabalhar para torná-lo mais de acordo com o público atual. Assim como o David Production apostou no estilo e no ritmo para Jojo’s ganhar um aspecto mais moderno (embora ainda parecer uma obra de 1980/1990), o tempo da obra original ainda foi respeitado. O mesmo ocorreu com Pantanal, e o folhetim global teve ainda o cuidado de atualizar alguns perfis que envelheceram mal: enquanto a protagonista Juma (Alanis Guillen) continua igual à antiga, o autor transformou o par romântico Jove (Jesuíta Barbosa) em um jovem coerente com a nossa época, sendo menos desbocado e mais indeciso que sua contraparte da versão original.

Como fazer um sucesso infalível?

Depois desses parágrafos, uma pergunta fica no ar: “qual o segredo para um remake dar certo ou não?”. Infelizmente, é impossível saber a resposta. Mesmo tendo colocado o Pantanal da Globo como exemplo de nova versão bem sucedida, a emissora brasileira tem um vasto currículo de remakes fracassados: Saramandaia, Guerra dos Sexos, Meu Pedacinho de Chão, só para citar alguns. Se houvesse uma fórmula certa, seria muito mais fácil conquistar o público, mas o ingrediente do sucesso é subjetivo tal qual as frases do Velho do Rio. Uma produção audiovisual (aí estou falando de série, filme, anime etc) não é algo que existe sozinha no vácuo, é necessário ter uma “conexão” com as pessoas daquele tempo, sem isso não tem como funcionar.

Reprodução

O remake da novela Guerra dos Sexos, lançado em 2012, fracassou porque o tema central da novela dos anos 1980, a disputa entre homens e mulheres no mercado de trabalho, parecia datada perto dos novos debates e anseios que surgiram nesse conflito de gênero. Já nos animes, Sailor Moon Crystal falhou por ignorar o desenvolvimento das heroínas secundárias, algo que o público da atualidade adora acompanhar.

Os remakes de animes de sucesso conseguiram seu lugar ao sol não apenas por terem boas qualidades, mas por representarem o espírito do tempo presente. Trazendo novamente os exemplos de Pantanal e da série atual de Jojo’s Bizarre Adventure, acredito que sejam produções com muito da energia do nosso tempo, isso sem mencionar as tramas ainda atuais. Perceba que ambas as histórias trazem elementos bastante atemporais: Pantanal fala da questão ambiental e é uma grande saga familiar, dois pilares de roteiro ainda utilizados na dramaturgia atual, já Jojo’s Bizarre Adventure se mantém moderno por nos servir uma trocação de soco honesta aliada a um humor afiado, características ainda agradáveis aos olhos do público otaku.

Mesmo o sucesso de um remake sendo mais “aleatório” que proposital, a nova versão de Pantanal ainda é digna de ser analisada sob o aspecto da atualização e respeito à história antiga. Mesmo com um texto fiel ao original de décadas atrás, a inserção comedida de celulares, drones e internet promoveu algumas mudanças na série. Assim, o resultado obtido pela Globo é o sonho de qualquer estúdio de animação que produz um remake de anime, essa coisa de atrair os fãs da versão original e ainda arrebanhar um novo público embarcando na história pela primeira vez.

E se me permitem um momento “vidente”, acredito no potencial de dois projetos próximos: Urusei Yatsura e Bastard. O primeiro porque está sendo feito pelo mesmo David Production de Jojo’s Bizarre Adventure, então é um estúdio que já teve muito sucesso ao atualizar uma trama de décadas atrás. Fico bastante curioso para ver como uma comédia romântica de Rumiko Takahashi, autora conhecida pelas comédias românticas, será adaptada para um público que pensa o amor de forma diferente. Já o segundo chute, o Bastard, é uma aposta pessoal por aliar uma trama cafona a uma ambientação “adultona”, duas características fazem muito sucesso no meio otaku nessa década atual.

Agora é aguardar para ver se esses remakes chegarão perto do sucesso de um Pantanal ou se ficarão esquecidos na mente dos fãs com mais estrada. No fim, a produção de sucesso será aquela que conseguir equilibrar todos os pratos ao mesmo tempo.

Onde ver?

Ficou curioso com os remakes comentados por aqui? Você pode assistir a todos oficialmente no Brasil!

  • Dragon Quest: The Adventure of Dai está no catálogo da Crunchyroll e do HBO Max, apenas com legenda.
  • Sailor Moon Crystal está na Netflix e na Crunchyroll, apenas com legenda.
  • Jojo’s Bizarre Adventure tem suas cinco primeiras partes disponíveis na Crunchyroll, com legenda. Já na Netflix você encontra as partes um, dois, três, quatro e seis na plataforma, tanto com legenda quanto com dublagem.
  • Shaman King está no catálogo da Netflix, com dublagem e legenda. Por sua vez, Fruits Basket está na Crunchyroll, também com dublagem e legenda.

Por fim, a novela Pantanal é exibida todos os dias na Rede Globo, e os capítulos podem ser assistidos no Globoplay.

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