One Piece | Yamato mostrou que precisamos de diversidade nos shonens de lutinha

Créditos da imagem: Reprodução/Crunchyroll

Mangás e Animes

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One Piece | Yamato mostrou que precisamos de diversidade nos shonens de lutinha

O que revelou o debate sobre o gênero do Yamato em One Piece

Omelete
6 min de leitura
Fábio Garcia
16.06.2022, às 17H53

Junho é o mês do Orgulho LGBTQIA+ e é a ocasião perfeita para matérias sobre mangás e animes que abrangem os assuntos dessa diversidade. É quando lembramos o sucesso avassalador de Given, comentamos o engajamento dos fãs de Yuri on Ice ou mesmo recomendamos títulos incríveis como O Marido do Meu Irmão e Minha Experiência Lésbica com a Solidão. Neste ano, no entanto, exemplos como a polêmica do Yamato em One Piece me fizeram pensar em seguir por outra linha: como será que está a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero nas séries mais populares do Japão?

Embora seja sim importante prestigiar o nicho das histórias Boys Love e Girls Love (inclusive temos matéria aqui no Omelete sobre o assunto) é importante que as questões envolvendo personagens LGBTQIA+s estejam também presentes em todos os tipos de história, do seinen psicológico ao shonen de lutinha. Além de questionar a ausência desse tipo de personagens nas histórias mais populares dos animes e mangás, também tentamos entender por que uma parcela barulhenta dos fãs reage tão mal com inclusão desse tipo de personagem.

De A Princesa e o Cavaleiro a One Piece…

Divulgação/JBC

Acredite ou não, mas a inclusão de personagens LGBTQIA+s em animes e mangás populares não é um fenômeno recente. Muitas histórias de décadas atrás já debatiam o assunto da diversidade mesmo sem usar as palavras e termos comuns da atualidade. O clássico A Princesa e o Cavaleiro, por exemplo, contava a história de uma princesa que acabou nascendo tanto com um coração masculino quanto um coração feminino. Na época a história prometia apenas discutir de leve a questão do papel da mulher na sociedade, mas hoje em dia conseguimos olhar para a trama sob outros aspectos.

A presença de personagens LGBTQIA+s em animes e mangás sempre esteve à frente do que encontrávamos em animações ocidentais, a ponto de algumas histórias serem censuradas quando lançadas deste lado do globo. É só lembrar que o vilão Zyocite de Sailor Moon foi transformado em mulher na versão latina para não escandalizar o público que veria dois vilões homens apaixonados. Ou mesmo as sailors Haruka e Michiru que foram transformadas em primas na versão americana para não precisarem explicar que eram namoradas.

Mas se esses personagens estavam sempre presentes em histórias, nem sempre eram representações bacanas. Um famoso exemplo de personagem gay em Dragon Ball é o vilão General Blue, uma caricatura de gay misógino que, embora fizesse sentido naquele contexto de anos 1980, hoje em dia tem um gosto um pouco amargo diante toda evolução que houve na questão de como pessoas LGBTQIA+ são representadas na mídia.

Reprodução

Uma forma interessante para observar a evolução dos personagens de minorias em produções mainstream é através de One Piece. A série, publicada desde 1997 no Japão, traz em seu rol tanto personagens antigos com representações caricatas de diversidade como outros mais recentes que se apresentam de forma mais respeitosa com a questão LGBTQIA+. E foi um destes casos contemporâneos que rachou a comunidade fã dos Chapéu de Palha.

Recentemente foram introduzidos dois personagens novos no recém-finalizado arco de Wano, ambos se identificando com outro gênero. Okiku, ou Kikunojo, é uma samurai que atua como uma das Nove Bainhas Vermelhas, batalhão do antigo líder Oden. Embora nascida biologicamente com o sexo masculino, Okiku se identificou como mulher e assim é tratada por todos os personagens da história. O outro personagem (e também a parte mais polêmica da discussão) é Yamato, filho do vilão Kaido. Mesmo nascido biologicamente com um corpo feminino, Yamato quer ser Oden e assim se considera um homem. E aqui encontramos o maior ponto de debate.

Divulgação

Quando o Yamato foi introduzido em One Piece, escrevi aqui no Omelete um longo artigo explicando toda a situação (recomendo dar uma lida aqui). Contei como o personagem tinha sua identidade de gênero respeitada por todos os personagens, de heróis a vilões, e até conversei com o tradutor do mangá de One Piece, lançado aqui no Brasil pela Panini, para entender como a questão do gênero do Yamato aparecia na história em japonês. Mesmo sem certezas sobre como Eiichiro Oda iria desenvolver aquela história, uma parcela barulhenta dos fãs de One Piece passou a desrespeitar a forma como Yamato gostaria de ser identificado.

Como se estivessem unidos em uma cooperativa mundial de preconceitos, esses fãs mais revoltados foram atrás de cavar qualquer evidência que considerasse Yamato uma personagem feminina. Vários vídeos, matérias e posts em redes sociais foram feitos usando argumentos como “ela não é homem, ela só acha que é o Oden”, "seu verdadeiro pronome (!?) é Oden" ou “esta página lançada pela Shueisha coloca Yamato como mulher”, isso quando já se sabia que os textos editoriais pareciam seguir uma linha desconexa do próprio mangá.

Montagem/Reprodução

Em meio a muita discussão de fãs, o autor Eiichiro Oda colocou um ponto final na discussão de uma forma inusitada: através de uma cena de banho em águas termais. Assim como em algumas casas de banho do Japão, os personagens foram explicados que não havia um banho misto. Dessa forma, Yamato foi relaxar no banho masculino ao lado de Luffy, Zoro etc enquanto Okiku ficou com Nami e Robin no banho feminino. Parece bem claro o que o autor expressou com isso, não?

A importância dos exemplos

Embora aos pouquinhos, os personagens LGBTQIA+ estão dando as caras em produções recentes. Dois animes grandes do ano passado, Blue Period e Komi Can’t Communicate, chamaram a atenção por personagens com outras identidades de gênero, respectivamente Ryuji Ayukawa e Osana Najimi. Mesmo sem serem protagonistas, são personagens que têm um arco relevante para a história e as questões de como lidam com seus gêneros é bastante respeitosa. A versão brasileira lançada pela Netflix ganha até mais pontos por colocar linguagem neutra quando se refere a Ryuji e Osana.

Montagem/Blue Period/Komi Cant Communicate/Netflix

My Hero Academia também tem dois casos de personagens trans, ainda que secundários: o musculoso Yawara é um exemplo de personagem que realizou uma cirurgia de transição por se identificar como homem. Já Magne, uma das vilãs do arco do acampamento, prefere ser identificada como mulher. Magne inclusive se torna pivô de um conflito envolvendo preconceito dentro da história.

Mas ainda assim, os grandes representantes da diversidade nos shonen de lutinha atualmente são Yamato e Okiku. Inclusive tem sido bastante difícil, como pessoa da comunidade LGBTQIA+, acompanhar discussões recentes a respeito de One Piece. Fãs que fazem vistas grossas para qualquer mensagem mais progressista do mangá de Eiichiro Oda e elaboram mil malabarismos para negar o gênero que Yamato se identifica. E quando acham que não se vale debater isso, uma desculpa bem comum é a de que “não podemos colocar isso em uma obra lida por crianças e adolescentes”, algo que não faz o menor sentido.

Cresci assistindo a shonens de lutinha como Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, acompanhei inúmeras histórias de romance heterossexuais como Kare Kano ou Love Hina, e em momento algum essas tramas me “transformaram” em um hétero. Uma das formas de acabar com o preconceito contra pessoas LGBTQIA+ é fazer com que elas se façam presente, tanto na sociedade como na ficção. É preciso normalizar a diversidade para que se tenha respeito pelas minorias. A reação de alguns fãs ao Yamato é justamente porque ele é um personagem que tirou essas pessoas de sua “zona de conforto”, trazendo à tona alguns preconceitos internalizados por ignorância.

Reprodução

One Piece sempre foi uma série mais progressista e questionadora. Através de suas páginas Eiichiro Oda já debateu racismo, autoritarismo, militarismo, orientação sexual, identidade de gênero, uso político de guerras, importância dos historiadores… Chega a ser surpreendente como uma obra dessas conseguiu reunir fãs que não só ignoram esses pontos como às vezes vão contra algo o defendido pelos protagonistas.

Se os heróis e vilões de One Piece conseguem respeitar uma pessoa que se identifica com outro gênero, acredito que qualquer leitor consiga fazer o mesmo.

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