Episódios semanais ou em blocos: o que funciona melhor para animes?

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Mangás e Animes

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Episódios semanais ou em blocos: o que funciona melhor para animes?

Fãs de Jojo’s Bizarre Adventure ficaram um pouco bravos com a morte das “Jojo-feiras” pela Netflix

Fábio Garcia
02.02.2022, às 16H38

Com a mudança no formato de lançamento no ocidente de Jojo’s Bizarre Adventure: Stone Ocean, que deixou de lado o simulcast e passou a disponibilizar um bloco de 12 episódios de uma vez na Netflix, um debate vem tomado o meio otaku: será que é melhor quando o anime chega semanalmente para a gente ou o ideal é lançar de uma vez uma quantidade maior para maratonarmos? Não existe uma resposta correta, mas esse tipo de discussão não é tão inédita no meio do entretenimento.

Semanal vs Bloco

Considerado o “biscoito vs bolacha” das discussões sobre séries, o embate entre o lançamento semanal e o em blocos ganhou força com os serviços de streaming. Percebendo que havia um público interessado em passar horas maratonando séries, Netflix e companhia começaram a lançar temporadas inteiras de uma única vez, indo na contramão do formato televisivo vigente em que as produções eram disponibilizadas periodicamente, de forma diária ou semanal.

Parecia uma nova forma de se consumir séries, e bombar o número de horas assistidas, mas logo perceberam que havia um lado negativo. Enquanto uma produção semanal como Game of Thrones permitia discussões acaloradas em redes sociais sobre os possíveis desfechos a cada episódio lançado, uma série com temporada disponibilizada de uma vez matava esse engajamento pela impossibilidade de todos assistirem no mesmo ritmo. Ter essa discussão ativa durante mais tempo é um dos principais motivos que levaram outros serviços de streaming, como o Disney+ ou o HBO Max, a lançarem séries em um formato semanal.

Tá, mas e os animes? Com cada vez mais serviços de streaming apostando em animação japonesa, as plataformas ainda estão tentando descobrir qual é a forma ideal de lançamento para seus produtos. O serviço oferecido pela Crunchyroll há muito tempo é parecido com o formato das séries da Marvel no serviço da Disney: o “simulcast” disponibiliza aos assinantes um episódio semanal de anime poucas horas após ele ter sido lançado no Japão, e com isso os fãs conseguem acompanhar e curtir suas séries no mesmo ritmo dos japoneses.

Por outro lado, a Netflix introduziu o lançamento de temporadas completas assim que começou a investir mais em animes. Record of Ragnarok teve sua série (mal-)animada disponível mundialmente de uma vez, ao passo que animes de exibição semanal no Japão como Edens Zero e Shaman King foram sendo lançados “em blocos” de alguns episódios.

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Recentemente os fãs ficaram bastante incomodados com o tratamento dado pela Netflix ao anime de Jojo’s Bizarre Adventure, agora um exclusivo do serviço de streaming. Se antes a série tinha um status de simulcast quando lançada pela Crunchyroll, dessa vez os fãs receberam no dia 1º de dezembro um “blocão” de 12 episódios da atual temporada, intitulada Stone Ocean.

Após esse lançamento, o anime começou a ser exibido na televisão japonesa desde o dia 8 de janeiro, mas ainda há uma indefinição sobre a periodicidade dos blocos na Netflix. Não se sabe se o anime será lançado aqui em paralelo à exibição japonesa, ou se um novo bloco será disponibilizado apenas quando acabar a exibição dos 12 primeiros no Japão (lá para abril de 2022). Os fãs estão bem desorientados e lamentando o fim de um velho hábito.

Em vários fóruns de discussão há um luto pelo fim da “Jojo Friday” (“Sextas-feira de Jojo”, em livre tradução, ou “Jojo-Feira” como foi chamado por aqui), um apelido carinhoso dado ao dia em que novos episódios eram lançados. Era o momento em que a comunidade se reunia (virtualmente, claro) para acompanhar o episódio da semana, repercutir os poderes dos Stands nas redes sociais e exaltar as cenas bizarras criadas pelo estúdio David Production.

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Se uma parte do sucesso de Jojo’s Bizarre Adventure está no ritmo alucinante da história criada por Hirohiko Araki e na animação estilosa, a outra parte está na internet e redes sociais. Publicada no Japão desde 1987, foi somente num período com forte interação entre fãs do mundo todo que a obra com homens excessivamente musculosos enfrentando um legado maldito se tornou um grande fenômeno cultural com memes e repetição de poses bizarras.

O debate sobre o formato de “blocos” para Stone Ocean está longe de ser apenas “reclamação sem fundamento de fãs”. No final de janeiro, um usuário do Twitter fez uma pesquisa no Google Trends e comparou em um gráfico a repercussão na internet da temporada da Netflix com as duas anteriores, Vento Aureo e Diamond is Unbreakable.

Embora o pico de interesse seja o mesmo para as três últimas temporadas, dá pra perceber no gráfico como Vento Aureo e Diamond is Unbreakable têm vários picos de interesses nas sextas-feiras, enquanto Stone Ocean foi despencando no interesse das pessoas por não ter novas histórias de Jolyne Kujo na prisão.

Meios alternativos

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Um dos problemas do lançamento por blocos é permitir que meios alternativos nadem de braçada. Embora Record of Ragnarok e Stone Ocean não sofram com esse problema, afinal o ocidente teve acesso simultaneamente ou antes dos japoneses, animes como Edens Zero e Shaman King foram “prejudicados” pelo formato de lançamento da Netflix. Ambas são franquias de sucesso e tinham bastante expectativa por parte dos fãs, mas o serviço de streaming só as disponibilizou meses após o lançamento no Japão, em um bloco de vários episódios de uma vez.

Embora a Netflix tenha oferecido detalhes como dublagem em português, parte dos fãs optou por “dar seus pulos” e procurar em cantos obscuros da internet uma forma de acompanhar o anime semanalmente com os japoneses, até para não ficar de fora das discussões na internet. Assim, todo o debate que poderia ter surgido acabou diluído entre pessoas que viram através dos “chapéus de palha” e os que esperaram a Netflix lançar.

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Talvez esse fenômeno tenha levado a Netflix a articular uma nova estratégia para lançar animes durante a temporada de outono de 2021. Nesse período, que compreende o final do ano passado, a plataforma licenciou dois animes grandes que os otakus aguardavam com ansiedade, Blue Period e Komi Can’t Communicate, e criou o “quase-simulcast”.

Em resumo, os episódios desses animes foram lançados semanalmente na Netflix, mas com duas ou três semanas de atraso da exibição japonesa. No caso de Blue Period, pouco tempo após a conclusão do anime, a plataforma também disponibilizou uma dublagem para o anime.

Entre os fãs, a recepção foi mista. Ao mesmo tempo que a empresa respeitou o formato semanal de lançamento, houve quem reclamasse da demora para o lançamento dos episódios, afinal outros serviços de streaming trazem episódios com mais rapidez. Nas redes sociais era comum um fã de Blue Period acabar dando de cara com algum spoiler, inclusive este que vos escreve descobriu o resultado do Yaguchi na prova através de otakus que estavam bem mais adiantados que a Netflix.

Mas qual o melhor?

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O formato semanal em simulcast funciona bem com produções que envolvem discussões de fãs e debate contínuo. Attack on Titan cria toda uma expectativa para os capítulos a cada domingo, e nos dias posteriores a internet é inundada por debates, teorias e material produzido por fãs e profissionais. Esse mesmo formato funciona em Demon Slayer, Ranking of Kings ou as temporadas passadas de Jojo’s Bizarre Adventure, todas produções que buscavam surpreender o espectador com ganchos inesperados e reviravoltas. Por outro lado, alguns animes têm uma narrativa mais lenta ou mesmo demoram para emplacar, nesse caso eles são favorecidos por um lançamento em blocos no qual a pessoa dita o próprio ritmo de acompanhar.

Não existe uma forma definitiva (ou “correta”) de se lançar animes, depende de cada projeto. Um lançamento em blocos combina com Tatsu Imortal: Gokushufudou da Netflix, um anime mais descompromissado e curto, mas pode prejudicar um Stone Ocean que necessita estar sempre no holofote. Da mesma forma, simulcasts também não são sempre efetivos, e séries menos aguardadas as pessoas preferem maratonar de uma vez ou deixar acumular alguns episódios.

Há também uma preocupação importante a respeito da “saúde” do estúdio de animação responsável. Um episódio de anime leva algumas semanas para ficar pronto, e o lançamento semanal é uma forma de “aliviar” as pressões e conseguirem entregar tudo bem (quando é um prazo saudável, claro). Para lançamentos em blocos, é necessário que todo o anime seja finalizado ao mesmo tempo, podendo levar a um caos na logística dos estúdios.

No fim, é um grande “depende”. Depende de como os donos da licença querem trabalhar, como é a produção e se vale a pena alimentar a expectativa dos fãs exibindo um pedacinho a cada semana. O caso de Jojo’s Bizarre Adventure: Stone Ocean pode servir para abrir os olhos da Netflix, e quem sabe termos os episódios lançados em intervalos mais curtos em breve?

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