Por que temos tantos remakes e sequências de animes atualmente?

Créditos da imagem: Boruto/Studio Pierrot/Dragon Quest/Toei Animation/Yashahime/Sunrise/Reprodução

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Por que temos tantos remakes e sequências de animes atualmente?

Anime do filho do Naruto, remake de clássico dos anos 1990 e continuação de InuYasha... Será a morte da criatividade nos animes?

Fábio Garcia
10.03.2021
09h00
Atualizada em
10.03.2021
09h19
Atualizada em 10.03.2021 às 09h19

Acompanhar Dragon Quest: The Adventure of Dai nas manhãs de sábado é algo que une o fã de anime e mangá do presente com o otaku lá dos anos 1990. Tudo bem que nossa versão do passado precisava encontrar o horário na grade do SBT e o protagonista se chamava "Fly", mas é bastante curioso perceber que um clássico dos anos 1990 voltou décadas depois.

Nos últimos tempos, aumentou a sensação de que o mercado de animes e mangás está sempre requentando e reaproveitando antigos sucessos, com remakes, novas temporadas ou mesmo séries derivadas. Mas por que as empresas apostam em continuações ou novas versões?

Fazendo novas séries

Reprodução/Toei

Existem quatro temporadas para a estreia de novos animes no Japão, uma para cada estação do ano, e a cada três meses acompanhamos uma lista com dezenas e mais dezenas de novas produções que tentam um lugar ao sol. E mesmo com uma quantidade enorme de produções inéditas ou contemporâneas, de tempos em tempos antigas séries do passado são revividas de alguma forma.

Atualmente no Japão (e no Brasil também, por meio dos simulcasts dos streamings) temos alguns exemplos de novas versões de animes do passado. Dragon Quest: The Adventure of Dai nada mais é que o Fly: O Pequeno Guerreiro das manhãs do SBT; Digimon Adventure: é uma releitura do sucesso Digimon, exibido no programa da Angélica; e não podemos deixar de citar Yashahime: Princess Half-Demon, a continuação oficial de InuYasha, com selo de aprovação da autora e tudo mais.

Para Yuri Petnys, líder de marketing da Crunchyroll no Brasil e em Portugal, há uma explicação muito simples para ressuscitarem séries do passado: trazer novidade aos clássicos. "A arte da animação evoluiu a grandes passos nas últimas décadas, e remakes como Dragon Quest e Digimon permitem que estúdios e produtoras apresentem clássicos que marcaram época de uma maneira nova e diferente", explica. O responsável pelo serviço de streaming reforça que essas marcas famosas têm uma força que apela ao mesmo tempo para a "nostalgia das gerações mais antigas e os gostos modernos das novas gerações".

O novo anime de Dragon Quest é um exemplo muito competente de série que consegue unir a nostalgia dos antigos fãs com o interesse de um público-alvo totalmente novo. The Adventure of Dai é uma adaptação do mangá homônimo lançado entre 1989 e 1996 na Shonen Jump, e a história rendeu um anime de bastante sucesso exibido nos anos 1990 (inclusive no Brasil). Por conta de mudanças na grade e perda de patrocinadores, a Toei precisou encerrar a produção do anime na época e isso deixou a trama sem um final. A nova versão, lançada no final de 2020, promete cobrir a história dos 37 volumes do mangá, sendo que somente os dez primeiros tomos foram adaptados no primeiro anime.

Reprodução/Toei

Se o primeiro anime do "Fly" era uma típica produção dos anos 1990, com o mesmo ritmo de um Dragon Ball Z ou Os Cavaleiros do Zodíaco, a nova versão de Dragon Quest conseguiu atualizar o anime de forma a transformá-lo em algo mais palatável para o atual público-alvo mais jovem. A trama de Dragon Quest: The Adventure of Dai está se desenrolando de forma bem mais ligeira se compararmos ao anime antigo, e a Toei não tem economizado nas cenas de batalha, sempre muito bem animadas. A nova trama também tem optado por retirar piadas potencialmente ofensivas do anime antigo, como as que envolvem assédio às personagens femininas.

Mas nem sempre um remake é a escolha feita quando se quer aproveitar o sucesso de uma franquia. Há uma outra forma de unir nostalgia e modernidade que é bem comum na indústria: a criação de uma sequência.

As continuações

Um anime se encaixa nesse exemplo é Dragon Ball Super (exibida entre 2015 e 2018), a mais recente continuação de Dragon Ball Z. Embora tivesse um forte apelo nostálgico e necessitasse de um conhecimento prévio de uma série antiga com centenas de episódios, a produção conseguiu fazer sucesso tanto com o público nostálgico quanto com pessoas que conheceram Goku e Vegeta por meio dessa nova leva de episódios. Mesmo com as críticas a respeito da animação ou julgamentos sobre a trama "estragar" o que foi estabelecido na série clássica, a exibição do episódio final foi um fenômeno e reuniu milhares de pessoas em vários cantos do mundo para acompanhar o desfecho do Torneio do Poder.

Reprodução/Toei

Mas se Dragon Ball Super continuava diretamente a trama da série original, há também os que arriscam novos personagens em um universo conhecido. Atualmente, são exibidas no Japão duas continuações de antigos sucessos, Boruto: Naruto Next Generation e Yashahime: Princess Half-Demon, os dois mostrando as aventuras de herdeiros dos protagonistas de Naruto e InuYasha, respectivamente.

Boruto expande o universo de Naruto e conta com o forte fator nostálgico de trazer os personagens de Naruto Shippuden em pontas eventuais ou participando de combates complicados demais para o novo trio protagonista ninja. Já Yashahime segue exatamente a mesma cartilha do anime clássico, porém trazendo as filhas gêmeas de Sesshoumaru lutando ao lado da filha de InuYasha contra uma nova ameaça, o poderoso Kirinmaru.

Reprodução/Pierrot

Reaproveitar um mesmo universo por meio de filhos de antigos protagonistas é uma forma de expandir universos ricos da ficção. "É uma oportunidade para que criadores possam construir em cima de universos já estabelecidos, introduzindo novos personagens, contando novas histórias e explorando novos temas num âmbito bastante familiar", afirma Yuri, sobre o poder dessas continuações.

Desastres refeitos

Mas há outros motivos que justificam a produção de um remake, pois às vezes novas séries são produzidas com o intuito de contornar erros cometidos no passado e retrabalhar a marca. Quem se encaixa nesse caso em especial são os animes de Fruits Basket e Shaman King.

Divulgação

Fruits Basket é um exemplo bastante curioso, pois a animação exibida em 2001 conseguiu desagradar sua criadora, a mangaká Natsuki Takaya. O anime produzido pelo estúdio DEEN fez uma livre adaptação de vários eventos do mangá, mudando bastante coisa e não seguindo o estilo da trama nos quadrinhos. O anime foi encerrado com 26 capítulo sem um final, que a autora lançaria somente cinco anos depois. Quase duas décadas depois, o estúdio TMS conseguiu convencer Takaya e lançaram um remake bastante fiel, disponível oficialmente no Brasil pela Funimation e, pela primeira vez, o final será produzido.

Mas a maldição das histórias sem final também assolou Shaman King, inclusive no mangá! A série era publicada na Shonen Jump e logo ganhou uma animação produzida pelo estúdio Xebec, mas o anime foi interrompido no episódio 64, enquanto o autor Hiroyuki Takei continuava lançando novos capítulos semanalmente. Dois anos depois, Shaman King também foi cancelado na Shonen Jump e os fãs só foram conhecer o final verdadeiro da história anos depois, na republicação em formato de luxo, que contou com o desfecho inédito desenhado por Takei na ocasião.

Há muito tempo os fãs pediam um novo anime para Shaman King, mas a série sempre esteve rodeada de problemas. Primeiro o autor Hiroyuki Takei saiu da editora Shueisha e se mudou para a concorrente Kodansha, algo que causou alguns entraves de licenciamento com a marca, e depois os sonhos de um novo anime esbarraram nos desejos de Takei: o autor queria um novo anime que resgatasse todos os dubladores e trilha sonora do primeiro anime, pois ele gostava muito da primeira adaptação.

A situação com Shaman King aparentemente foi contornada, pois um novo anime estreará agora em abril e, de acordo com as prévias, conta com o mesmo elenco de voz e até uma nova música por Megumi Hayashibara, a cantora responsável pelas canções originais e dubladora da personagem Anna. Os fãs agradecem.

Clássicos para as novas gerações

Além dos remakes que tentam "consertar" erros do passado, não podemos deixar de citar que o Japão tem o hábito de ressuscitar seus clássicos com frequência. Alguns animes são considerados não só como parte da cultura otaku, mas também como parte da cultura japonesa em si, e de tempos em tempos essas séries ganham novas versões com o intuito de apresentar os personagens para novas pessoas.

GeGeGe no Kitaro é uma dessas séries clássicas no Japão e foi produzida por Shigeru Mizuki nas páginas da revista Shonen Magazine a partir de 1965. A história ajudou a popularizar as criaturas folclóricas japonesas entre as crianças e mostra as aventuras do jovem Kitaro convivendo com esses seres. Três anos depois, em 1968, GeGeGe no Kitaro ganharia sua primeira série animada e, a partir daí, de tempos em tempos, remakes foram sendo produzidos.

Reprodução/Toei

GeGeGe no Kitaro ganhou uma sequência em 1971, um remake em 1985, outro em 1996, um produzido em 2007 e, por fim, a versão mais recente exibida em 2018. Ou seja, a cada década uma nova versão é feita para apresentar o personagem e seu universo para novas crianças. Por mais que a trama seja levemente atualizada em cada versão (a mais recente teve um episódio sobre um influenciador digital), há um respeito pela "tradição" dos personagens. A música de abertura, por exemplo, é sempre a mesma em todos os remakes.

Outro personagem também considerado clássico que é revivido de tempos em tempos é Astro Boy (Tetsuwan Atom, no original), criado por Osamu Tezuka. O primeiro anime do personagem, produzido pelo próprio criador, surgiu em 1963 e, desde então, ganhou remakes em 1980 e em 2003 (este exibido no Brasil). Astro Boy ainda teve uma versão mais "infantilizada" lançada em 2019 chamada Go Astro Boy Go!, e um anime mais "adulto" de 2017, o Atom: The Begining.

Reprodução

Como se vê, vários motivos podem justificar a produção de novos animes baseados em produções antigas. Há tanto a vontade de aproveitar o sucesso quanto expandir o universo ou mesmo apresentar para novas gerações. Mesmo com tantas produções assim, ainda precisamos lembrar que a esmagadora maioria dos animes lançados a cada temporada são produções inéditas ou contemporâneas, mostrando que ainda há muita criatividade surgindo nas produções japonesas.

Onde ver?

Se ficou interessado em acompanhar os animes citados nessa matéria, todos estão disponíveis para assistir oficialmente no Brasil.

Dragon Quest: The Adventure of Dai, Digimon Adventure:, Boruto: Naruto Next Generation e Yashahime: Princess Half-Demon têm seus episódios lançados semanalmente na Crunchyroll, e este último ainda tem a opção de dublagem em português. No catálogo do serviço ainda é possível assistir a Dragon Ball Super e à versão mais recente de GeGeGe no Kitaro.

Já na Funimation é possível acompanhar Yashahime: Princess Half-Demon e o novo anime de Fruits Basket, os dois em versão legendada ou com dublagem em português.

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