Episódio S04E07 de Mr. Robot

Créditos da imagem: Mr. Robot/USA Network/Divulgação

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Mr. Robot cria peça teatral para episódio mais chocante da temporada final

Melhor capítulo até agora, série entrega revelações brutais com ainda mais dramaticidade

Arthur Eloi
22.11.2019
18h37

A temporada final de Mr. Robot fica progressivamente mais sombria. Após voltar à realidade com bastante sobriedade, a série agora retoma a experimentação de diferentes linguagens para mostrar Elliot (Rami Malek) em seu ponto mais vulnerável até o momento.

[Cuidado! Spoilers do S04E07 de Mr. Robot]

407 Proxy Authentication Required” traz Fernando Vera (Elliot Villar) finalmente executando seu plano de intimidar o protagonista até conseguir uma parceria. Os objetivos do traficante até então eram nebulosos, mas todas as cartas são colocadas na mesma com um capítulo pesado em diálogos. Com Elliot de refém, o vilão testa seus limites, quase como tateando seu emocional para achar um ponto fraco. Os primeiros momentos são inteiramente dedicados à essa troca de farpas entre os dois mas é quando Vera revela saber sobre a existência do Mr. Robot (Christian Slater), que as coisas tomam um rumo bastante intenso.

O traficante cobra que a outra personalidade do personagem dê as caras. Quando Mr. Robot assume, a negociação se torna ainda mais agressiva. Slater, pela primeira vez em completo controle, brilha e segura o público com facilidade. Seu diálogo, rápido e impactante, reverte a situação e bota Vera para ouvir o que tem a dizer sobre como o sonho do antagonista - de dominar todo o submundo do crime de Nova York - é datado. No mundo do capitalismo moderno, Mr. Robot diz, nem um rei da marginalidade tem o suficiente para bater de frente com as gigantescas corporações e seus interesses obscuros: “Por trás de toda fortuna grandiosa, há crime grandioso. Esse é o lema corporativo dos Estados Unidos”, dispara. O texto de Sam Esmail nunca esteve tão afinado quanto aqui, e as falas do Mr. Robot, que soam bastante como Heisenberg de Breaking Bad, demonstram muito bem isso. Porém, seguindo o grande tema da série, o hacker logo percebe que não está no controle.

Vera já havia deixado claro sua intenção no episódio anterior: destruir Elliot para, então, reconstruí-lo de seu modo. O método ainda não havia sido revelado, e é aí que Krista (Gloria Reuben) entra na jogada. A psiquiatra cedeu (sob ameaça) suas anotações ao criminoso, e ele as usa no momento de maior eficiência. Logo quando a confiança do protagonista está lá em cima, Vera o desarma ao forçar com que Krista simplesmente lhe conte a verdade sobre os seus traumas - o que também envolve o surgimento do Mr. Robot. A figura que divide o personagem é revelada como uma forma de reprimir o abuso físico, emocional e sexual que viveu pelas mãos do pai na infância. A notícia cai como um soco, tanto para Elliot quanto para o espectador: era certo que o protagonista teve péssima criação, mas o peso sempre ia para a mãe, enquanto o pai era mostrado como um porto-seguro (ao ponto da outra personalidade do garoto ter sua imagem). Em questão de minutos a série mostrou a origem, desconstrução e conclusão trágica do Mr. Robot. Acabado pela verdade ter sido dita em voz alta, o mentor imaginário encara Elliot nos olhos e solta antes de se retirar: “Eu já não consigo mais te proteger.

O episódio poderia muito bem ser final de temporada. Vera executou seu plano com perfeição, destruiu o protagonista de dentro para fora, e depois estava lá para confortá-lo e oferecer ajuda em um momento de dor… até que Krista o esfaqueia pelas costas, terminando em um ponto ainda mais inusitado do que antes.

A quarta temporada de Mr. Robot é extremamente cinematográfica mas, para esse episódio em específico, se inspira na linguagem teatral. Isso significa que a ação se passa em poucos cenários, com planos abertos e só alguns quadros de detalhe para enfatizar a reação do elenco. Dessa forma, a série deixa os atores “brincarem” pelo cenário, o que dá maior naturalidade às atuações e resulta nas melhores performances até então. Momentos dramáticos também ganham outro peso. Quando o propósito do Mr. Robot fica claro, o personagem deixa a tela da mesma forma que iria se retirar de um palco. Ou quando Krista é introduzida no capítulo, a câmera se desloca até o outro quarto para enfatizar a construção do local. Sem nem se aprofundar na divisão da trama em cinco atos, até a trilha sonora - normalmente moderna, eletrônica e sufocante - se torna mais clássica, épica e dramática. É uma conversão da linguagem do programa, que mistura o que há de melhor em peças, filmes e televisão.

Falar que “407 Proxy Authentication Required” é o melhor capítulo da fase atual não é exagero, mas serve como prova de que Mr. Robot realmente atingiu outro nível de excelência: na quarta temporada, a mesma frase pode ser dita praticamente toda semana.

Não há previsão de estreia para a quarta temporada de Mr. Robot no Brasil. As três temporadas anteriores estão disponíveis no catálogo do Amazon Prime Video.