Cenas de La Casa de Papel e O Milagre na Cela 7 e mascote do Big Brother Brasil

Créditos da imagem: Netflix/Globo/Divulgação

Filmes

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Como a quarentena derrubou o mito do “guilty pleasure”

Período de isolamento social provou de uma vez por todas que ninguém deve sentir vergonha de gostar das séries e filmes que assiste

Nicolaos Garófalo
07.05.2020
18h59
Atualizada em
08.05.2020
00h59
Atualizada em 08.05.2020 às 00h59

Na cultura pop, o termo “guilty pleasure” (“prazer com culpa”, em tradução livre) é usado para definir produções que, apesar de execradas por crítica e boa parte do público, têm um lugar especial no coração do espectador. Reality shows, comédias românticas “água com açúcar” ou séries cujo único grande atrativo é a beleza do elenco são, na maioria dos casos, assistidos em segredo, com uma parcela dos fãs sentindo vergonha de admitir sua admiração por essas produções. Por isso, é interessante reparar que séries e filmes que seguem esses moldes dominam a indústria, arrecadando bilheterias impressionantes e movimentando semanalmente uma audiência sólida.

Em uma situação normal, fãs dos chamados guilty pleasures raramente admitem seus prazeres, temendo retaliação de indivíduos mais “iluminados” que buscam significado até nas mais inocentes das produções. Com a quarentena, no entanto, fãs do mundo todo deixaram a culpa de lado e dominaram as redes sociais com postagens exaltando seus programas e filmes favoritos.

O período de isolamento social não só comprovou a força de produções chamadas de “alienadoras” pelos mais céticos, como também ajudou aqueles que as assistiam às escondidas a saber que não estão sozinhos. Mais do que isso: eles (nós) são a maioria.

No Brasil, por exemplo, existe uma clara distinção entre a repercussão que a 20ª edição do reality Big Brother Brasil, da Rede Globo, tinha antes e depois da quarentena. Embora não chegasse perto de ser ignorada, a produção explodiu em números de audiência e votos após o início do isolamento social. Além de registrar a terceira maior média de público nos últimos dez ano, o BBB20 ainda bateu o recorde mundial de votos do público da franquia Big Brother, ultrapassando o 1,5 bilhão de interações no paredão que eliminou Felipe Prior em 31 de março.

A Netflix também registrou números impressionantes em algumas produções que, em um cenário diferente, poderiam passar batidas pelo público. Filmes produzidos fora de Hollywood como O Poço e Milagre na Cela 7 dominaram por semanas as listas de mais vistos da plataforma, que também viu a audiência de seus reality shows originais The Circle e Brincando Com Fogo se tornarem sensações nas redes sociais.

Com exceção talvez de O Poço, que traz uma crítica social mais profunda, todas as produções citadas acima tinham a fórmula para se tornarem novos guilty pleasures. A realidade, no entanto, foi completamente diferente e, um de cada vez, os programas e filmes simplesmente dominaram toda e qualquer discussão sobre entretenimento dos últimos dois meses de quarentena.

No exterior, o fenômeno foi parecido. Embora La Casa de Papel seja gigante no Brasil desde sua primeira temporada, o desempenho da série não se repetia, por exemplo, nos Estados Unidos. A quarta temporada da produção espanhola surpreendeu no país de origem da Netflix ao registrar 65 milhões de reproduções. Embora bem-avaliada pelo público, a série nunca foi completamente aceita pela crítica, que sempre pontuou o clima novelesco e as atuações irregulares ao abordar o programa.

A curiosa série documental norte-americana A Máfia dos Tigres também apresentou números impressionantes durante a quarentena. Lançada em março, a história sobre um dono de zoológico condenado por encomendar o assassinato de um ativista dominou por semanas as publicações de entretenimento e conquistou personalidades como Ryan Murphy, Rob Lowe e a banda Offspring. Potencializada pela chegada de 15 milhões de novos assinantes durante esse período de isolamento social, a série bateu incríveis 64 milhões de espectadores.

O fim da culpa

Além dos números recorde de audiência apresentados por programas normalmente mal avaliados por especialistas, essas produções tomaram proporções gigantescas nas redes sociais. O BBB20, por exemplo, foi citado (mesmo que na ignorância) por Mark Hamill, de Star Wars, e Viola Davis, vencedora do Oscar por Um Limite Entre Nós, muito por conta da interação com fãs no Twitter. De maneira similar, um dos momentos mais chocantes da quarta temporada de La Casa de Papel, que perdeu um personagem querido, foi amplamente reproduzido nas redes sociais.

Essa comoção do público demonstrou que, durante esse isolamento, os guilty pleasures são tudo, menos razão para culpa. Muito pelo contrário: se tornou não só uma maneira de se “desligar” dos tenebrosos acontecimentos do mundo e de se reconectar, mesmo à distância, com uma comunidade virtual formada por outros fãs assumidos.

Séries cômicas ou fantasiosas, que geralmente trazem uma carga reflexiva menor que alguns dramas mais “intelectuais”, tornaram-se opções acessíveis para quem quer se afastar deste cenário assustador da pandemia. Dan Goor, produtor-executivo de Brooklyn Nine-Nine, ressaltou a importância de entreter o público em momentos de diversão “pura”.

Diferentemente do período pré-pandemia, essa “alienação” se tornou parte importante da rotina do público no isolamento e passou a ser vista como escape psicológico em um cenário em que a pressão sobre a saúde mental foi potencializada. A capacidade de imergir nessas produções “ruins” virou um exercício de relaxamento.

Entre todos os problemas enfrentados nos últimos meses, existe um alívio em se libertar da culpa que acompanha o guilty pleasure. Por mais paradoxal que pareça, o isolamento social uniu o público em uma comunidade orgulhosa de sua capacidade de se desligar do mundo e provou, de uma vez por todas, não existe absolutamente nada de errado em amar séries e filmes ruins. Aliás, em tempos em que toda notícia parece pesar em nossa consciência, qualquer momento de leveza merece ser celebrado, não importa o que digam os críticos.