"Novo" Oscar? O que mudou com as novas regras e a pandemia

Créditos da imagem: Omelete/Reprodução

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"Novo" Oscar? O que mudou com as novas regras e a pandemia

Membro da Academia, a diretora Laís Bodanzky explica o que mudou de um ano para cá

Marcelo Forlani, Mariana Canhisares e Victoria Frere Milan
01.04.2021
10h42
Atualizada em
13.04.2021
09h18
Atualizada em 13.04.2021 às 09h18

Uma rápida passada de olho na lista de indicados ao Oscar 2021 e você percebe que a 93ª edição não é apenas mais uma na história da premiação. Cheia de primeiras vezes, como a presença de duas mulheres na categoria de direção, o maior prêmio do cinema parece finalmente ter respondido à altura as críticas sobre a falta de diversidade na sua lista, fortalecidas com os movimentos #OscarSoWhite e #MeToo nos últimos anos.

No entanto, esse esforço inédito da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não é o suficiente para falar sobre um “novo” Oscar - ao menos, ainda não. Depois de um ano repleto de adiamentos, cancelamentos, paralisações de filmagens e isolamento, a edição de 2021 se torna um marco histórico sobretudo pela pandemia. Com as aglomerações representando um risco para a saúde de espectadores do mundo todo, a organização da cerimônia não teve outra escolha a não ser se adaptar. Como resultado, a Netflix mais uma vez é o estúdio com mais indicações ao prêmio - 11 a mais do que em 2020.

"A indústria como um todo atrasou seu calendário", lembrou a diretora Laís Bodanzky, membro da Academia desde 2019, em entrevista ao Omelete no podcast Oscar Explicado (ouça abaixo). “E o Oscar, sendo talvez o evento de maior impacto mundial, determinou esse ritmo”. De fato, festivais de cinema do mundo todo, entre os quais aqueles que começam a apontar candidatos em potencial para o Oscar, tiveram que se adaptar ao cenário pandêmico. Enquanto Toronto e Nova York realizaram versões virtuais dos eventos e Locarno foi simplesmente cancelado, Veneza tomou a ousada decisão de manter o formato presencial, mas, claro, seguindo os protocolos sanitários.

Paralelamente, os estúdios precisaram decidir como lançar seus produtos. O que é melhor: atrasar a estreia na esperança de ter os cinemas cheios em um futuro hipotético ou partir para os serviços de streaming? Christopher Nolan, por exemplo, arriscou-se com um lançamento tradicional para Tenet, e sentiu o impacto da pandemia na bilheteria, somando apenas US$ 363,1 milhões globalmente. A título de comparação, o filme anterior do cineasta, Dunkirk, fez US$526,9 milhões, e sequer tinha o mesmo apelo comercial que o thriller protagonizado por John David Washington. Por outro lado, a comédia romântica Palm Springs, que foi redirecionada para o Hulu, virou sensação e conseguiu indicações até nos prêmios dos sindicatos, como no de roteiristas e montadores.

“Foi tudo um pouco irregular. Ninguém sabia se valia a pena esperar ou não. Foi um ano de muita experimentação”, continuou Bodanzky. “Na hora que você não tem mais a sala de cinema, você tem que mudar as regras que estavam estabelecidas há 93 anos. Então, o atraso do Oscar foi importante. É um atraso muito sutil, considerando o tamanho do que a gente está vivendo no planeta.”

Pôster de Palm Springs, chamado de original do Hulu

Hulu/Divulgação

Como resposta ao sentimento de incerteza de toda a indústria, a temporada do Oscar deste ano estendeu seu período de qualificação em dois meses, e mudou um pouco os critérios que tornavam as produções elegíveis. Dessa vez, não foi necessário estar nos cinemas de Los Angeles ou Nova York durante uma semana. Se estivesse em cartaz em uma das seis regiões metropolitanas dos Estados Unidos (que incluem Chicago, Miami, Atlanta e a chamada Bay Area), fosse em um cinema comum ou em drive-in, estava valendo. Além disso, foram considerados também longas que originalmente teriam um lançamento tradicional, mas que ficaram disponíveis primeiro em streamings por causa das restrições da pandemia. Assim, a lista de pré-selecionados da Academia contou com um número recorde de candidatos a melhor filme em 50 anos. No total, foram 366 títulos elegíveis, incluindo tanto Tenet, quanto Palm Springs.

Faltando menos de um mês para a cerimônia, a pandemia segue exigindo maleabilidade da organização do Oscar, mesmo que os Estados Unidos já tenham avançado e muito com a vacinação da sua população. Além da Academia dividir opiniões com a proposta de um evento presencial, reunindo apenas os profissionais que concorrem a estatuetas, e abrir mão de etapas tradicionais da temporada, como o almoço dos indicados, também foi preciso reinventar as campanhas dos candidatos deste ano.

“Os votantes da Academia já tinham a opção de ter acesso aos filmes por link antes. Como não moro nos Estados Unidos e não tinha como participar das sessões presenciais, essa era a minha opção”, disse Bodanzky. “Mas tenho certeza que mudou tudo para os votantes da Academia que moram lá. Muitos dos debates foram para o online, por exemplo”.

Para o leigo, este pode parecer um mero detalhe, mas essas sessões com a presença dos diretores e do elenco são essenciais para determinar as chances de uma produção sair vencedora do Oscar. De acordo com a diretora brasileira, as assessorias de imprensa convidam para essas exibições os principais especialistas e críticos para garantir que falem do filme. “Você tem que estar em uma mídia que todos os votantes têm acesso, como a Variety e o Hollywood Reporter. Se você não tem uma matéria, você faz propaganda.”

Marcar presença nos veículos especializados é fundamental porque, diferentemente de festivais como o de Berlim, o prêmio da Academia não trabalha com a figura do curador. “O Oscar é uma coleção de pensamentos. O próprio setor analisa e reconhece o que mais se destacou naquele ano”, explicou Laís Bodanzky. “Ou seja, ser uma lembrança fresquinha para aquela pessoa que vai votar é muito importante. [...] Porque é impossível assistir tudo aquilo. Só os finalistas já é muita coisa!”

Ainda que os moradores dos EUA tenham saído em alguma medida prejudicados, Bodanzky vê com bons olhos essa migração para o ambiente virtual. "Nessa reinvenção, acho que o mundo ganhou. Você tem a possibilidade de um público maior assistir, e a Academia quer justamente ampliar seus votantes para o mundo inteiro e melhorar as questões de gênero e raça. Acho uma tendência muito positiva".

Consolidação dos streamings

O abrandamento das rigorosas regras de lançamento da Academia beneficiou também os serviços de streaming. O ranking de indicados deste ano é dominado pela Netflix, com 35 indicações, seguido pelo Amazon Prime Video, com 12. Mesmo a presença de estúdios mais tradicionais, como a Warner Bros. e a Disney, está relacionada a plataformas do tipo. A animação Soul, por exemplo, teve lançamento simultâneo nos cinemas e no Disney+. A mesma estratégia se repetiu com Judas e o Messias Negro no HBO Max.

Porém, esse boom dos streamings na premiação e em outros eventos de cinema não é de hoje, como lembrou Bodanzky. “O Festival de Cannes chegou a dizer ‘não queremos streamings aqui’, só que aí a gente teve Roma que bagunçou a cabeça de todo mundo. É o antes e o depois.”

Cena do filme Roma, do diretor Alfonso Cuarón

Netflix/Divulgação

O longa de Alfonso Cuarón concorreu ao Oscar - e venceu em três categorias - em 2019, mas anos antes a Netflix já estava investindo pesado para ser reconhecida pela Academia. Primeiro, com documentários como The Square e Virunga. Depois, com uma campanha intensa para Beasts of No Nation que, embora não tenha rendido as indicações que esperava, impulsionou os esforços do streaming para ser visto como tão parte da indústria quanto os estúdios centenários com que queria disputar. Como de fato é hoje.

Como espectadora, Bodanzky prefere a sala de cinema. “Confesso que quando vejo um filme em casa, por mais que eu tenha uma TV boa, muitas vezes o telefone toca ou eu durmo em um filme excelente, e eu tenho que começá-lo de novo”, contou. “Já a sala de cinema me deixa num estado de alerta tão interessante que o filme pode ser o mais lento, mas nunca durmo.”

Ainda que reconheça que a forma como você assiste um filme influencia a compreensão do público, Bodanzky acredita que “é um caminho sem volta”. “Por mais que eu acho que a gente ainda volta com as salas de cinema, temos um vírus que talvez nos obrigue a tomar vacina todo ano. Talvez a gente não possa mais se aglomerar como antes pelos próximos dois, três anos. Então a indústria vai ter que se adaptar e aceitar que muitos dos filmes não vão passar nos cinemas. Talvez não vá ser mais um pré-requisito para você entrar no Oscar”.

Por enquanto, tudo é muito especulativo. Mas uma coisa é fato: a pandemia só frisou como é importante para a humanidade ouvir e contar histórias. "Mesmo nesse caos que o planeta está vivendo, o consumo do audiovisual permaneceu. Aliás, cresceu! [Essa necessidade] vem desde os primórdios da humanidade, quando todo mundo se sentava ao redor da fogueira para ouvir as histórias. A gente continua, só que agora nossa fogueira é global e ela vem através de um streaming. Quem diria?".

O que é o Oscar Explicado?

O Oscar Explicado é um projeto original do Omelete, que reúne profissionais gabaritados do cinema nacional para destrinchar a maior premiação do cinema. A primeira temporada discutiu as categorias técnicas da premiação, usando como ponto de partida os indicados de 2020. Agora, adaptando-se à pandemia, a série toma conta do podcast TBT, com episódios inéditos todas as terças e quintas até o dia da cerimônia, em 25 de abril, apresentados por Victoria Milan, Marcelo Forlani e Mariana Canhisares.

Ouça o episódio anterior:

 

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