Daniel Kaluuya se agiganta em Judas e o Messias Negro

Créditos da imagem: WB/Divulgação

Filmes

Crítica

Daniel Kaluuya se agiganta em Judas e o Messias Negro

Mas potencial do drama inspirado em fatos se prende demais ao registro solene

Marcelo Hessel
24.02.2021
18h32

Como não seria diferente em dois filmes protagonizados por dois grandes oradores de movimentos negros americanos, Malcolm X e Fred Hampton, Uma Noite em Miami e Judas e o Messias Negro apostam suas fichas nesse poder de convencimento pela oratória. Respectivamente, Kingsley Ben-Adir (que faz o líder muçulmano no filme de Regina King) e Daniel Kaluuya (que faz o líder dos Panteras Negras no filme sobre o “Messias negro”) chamam para si a responsabilidade de injetar energia no palavrório. 

Ainda assim, são dois filmes que sofrem com a sina do texto literal demais. No caso específico de Uma Noite em Miami, o bom trabalho de câmera só consegue amenizar a teatralidade da adaptação da peça até certo ponto. Já o caso de Judas e o Messias Negro - que conta a história real de Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), militante negro infiltrado pelo FBI para se aproximar de Hampton, espionar e sabotar o movimento dos Panteras - tem mais a ver com solenidade: os excessos literais não estão tanto nos diálogos e mais na cadência do roteiro, que martela lições e mensagens no típico registro de filme autoimportante baseado em fatos.  

É curioso que esses dois filmes cheguem à temporada de prêmios de 2021 como os representantes da safra atual pós-Black Lives Matter. Ambos voltam a uma época de auge de ideais, os anos 1960, para refazer uma noção de solidariedade entre os desassistidos, como se no século 21 nos faltasse justamente essa capacidade de empatia, para reorganizar a coletividade. A história de Fred Hampton com Bill O’Neal é bem pinçada para ilustrar isso, e o paralelo bíblico (que vai até o quase arrependimento numa Última Ceia) não soa um exagero no filme. O Hampton de Kaluuya tem a força de um messias e o Bill de Stanfield tem no corpo encurvado o peso do traidor.

Fica ao longo da sessão, porém, a incômoda sensação de que cada um dos protagonistas está atuando num filme separado. O corroteirista e diretor Shaka King tem dificuldade em explorar o conflito entre os dois e realmente integrá-los, de forma que a jornada de um influencie os desdobramentos do arco do outro. King poderia ter escolhido o modelo do ótimo O Assassinato de Jesse James de Andrew Dominik, em que Brad Pitt é uma figura em cena muito mais elusiva do que material mesmo, para afinal priorizar a história de desgraça do seu invejoso comparsa e algoz Robert Ford. Uma vez que Shaka King opta por dar o mesmo peso tanto a Hampton quanto a O’Neal, o roteiro precisaria amarrar melhor a dinâmica dos dois, e o fardo do texto solene impede que esse conflito tenha mais autonomia em cena.

O resultado é um filme que só parece ganhar vida na base do volume sonoro, tanto nos close-ups de Kaluuya (muito certeiro na consciência corporal e na modulação da voz, que fazem o ator preencher todo o espaço) quanto na música mais insinuada (não apenas nas ótimas canções mas também nos temas compostos por Mark Isham e Craig Harris, que oxigenam a trilha sonora com sua experiência tirada do jazz). Obviamente, se é um filme focado na oratória, isso não seria surpreendente. Inclusive, o que faz de Bill O’Neal mais fraco, entre outras coisas, é sua incapacidade de articular e ventilar seus problemas verbalmente. Ainda assim, mesmo que falem alto e bonito, os personagens de Judas e o Messias Negro parecem mais estar falando para o espectador e não entre si.

Em certos momentos, Shaka King esboça um agigantamento dos personagens (não só verbal mas também nos ângulos de câmera, nas câmeras lentas posadas) e até mesmo J. Edgar Hoover tem seu holofote, nas cenas em que o diretor do FBI passa suas missões aos agentes como se estivesse num palco da Broadway. É uma operação que aproxima o filme de uma veia mais pop, a exemplo dos blaxploitations setentistas (em que os personagens acima de tudo representam figuras míticas, engrandecidas pela ação, pelas frases de efeito, pelos zoom-ins), mas infelizmente Judas e o Messias Negro está preocupado com o bom gosto, com o prestígio, e não se permite abraçar por completo essa operação "vulgar".

A caracterização dos seus personagens então fica num meio termo indeciso, entre o naturalismo de respeito e uma caricaturização que reforçaria sua dimensão de mito. Ironicamente, o único personagem que tem seu potencial de imagem explorado ao máximo é justamente Hoover, que surge monstruoso na maquiagem pesada que cobre a cabeça de Martin Sheen, iluminado sempre num ângulo que o faz parecer maior, volátil, expansivo. Por que o filme se permite trabalhar Hoover dessa forma, enquanto os outros personagens se perdem no meio termo solene? Talvez porque Hoover seja o vilão supremo e ninguém se incomodará com a sua caricaturização; daí vem sua força em cena, no fim, essa assertividade no retrato.

Já no caso de Fred Hampton (cuja família deu o aval pessoal para a escolha de King como diretor), há uma cerimônia a zelar, um velório tardio, uma respeitabilidade que faz o filme manter certa distância segura de seu protagonista. Por mais que Kaluuya pareça crescer em cena - comparar este filme com o trabalho intimista do ator em Corra! é um choque - fica faltando a Judas e o Messias Negro se apropriar afinal dele e da história que conta, e fazê-la mais sua e menos da posteridade. 

Judas e o Messias Negro
Judas and the Black Messiah
Judas e o Messias Negro
Judas and the Black Messiah

Ano: 2021

País: EUA

Classificação: 18 anos

Duração: 127 min min

Direção: Shaka King

Elenco: Jesse Plemons, Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Dominique Fishback

Nota do Crítico
Bom

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