Filmes

Crítica

Soul

Mais do que emocionar, novo filme da Pixar cria experiência sensorial e inventiva para discutir questões fundamentalmente humanas

Mariana Canhisares
24.12.2020
10h00
Atualizada em
24.12.2020
14h03
Atualizada em 24.12.2020 às 14h03

Quem eu sou? Para onde vou? Por que estamos aqui? Estas e outras tantas perguntas nos acompanham (ou assombram) desde o princípio dos tempos. Embora respondê-las com palavras seja um desafio para a vida toda, variando conforme a individualidade de cada um, às vezes encontramos em uma imagem ou um som uma pista de como chegar mais perto de uma conclusão. O novo filme da Pixar Soul compreende essa curiosa relação entre a linguagem não-dita e as questões fundamentalmente humanas desde o seu título (em inglês, “soul” é tanto alma, quanto gênero musical). Ao narrar a história de Joe, um músico frustrado, e sua incansável busca para realizar seu sonho, a animação se aproveita disso para introduzir os dilemas da vida às crianças, mas sem deixar de lado o humor e a inventividade que são marca registrada do estúdio.

É importante dizer, porém, que a morte de Joe nos primeiros minutos de filme - isso não é um spoiler! - é de tamanho sarcasmo que não há como olhar para Soul como uma produção exclusivamente infantil. Mesmo com piadas bobinhas e a abundância de trocadilhos, a moral da história é, por essência, para todas as idades. Por isso, quando o músico está diante da tal luz no fim do túnel, literalmente um ponto branco em meio à escuridão, é inevitável sentir um misto de espanto e curiosidade, tenha você 5 ou 80 anos.

Mais do que um humor levemente ácido, a sutileza da construção das engrenagens que movem o universo da animação é um prato cheio para os mais adultos. Por exemplo, enquanto o Pós-Vida é uma grande esteira em direção à luz, na qual as almas pacientemente esperam seu destino, o Antes da Vida pressupõe um salto de fé; quando suas personalidades estão completas, as almas precisam pular no espaço para chegar à Terra, uma viagem igualmente assustadora e empolgante. Quer imagem mais forte para falar sobre o que é viver?

A sensibilidade por trás de Soul fica ainda mais clara quando o caminho de Joe cruza com o de 22, uma alma que nunca conseguiu completar sua personalidade e, portanto, está há séculos “tentando” conseguir seu passe para a Terra. O contraste entre ambos é explícito: o pianista quer mais do que tudo voltar à vida e a amargurada alma não vê propósito na existência. No entanto, juntos é que eles entendem o que é a tal fagulha que todos falam, a única parte de cada alma que não lhes é designada por ninguém - exatamente o que falta à 22.

A dinâmica da dupla é divertidíssima e muito se deve às performances de Jamie Foxx e Tina Fey. Como nomes experientes na comédia, eles aproveitam cada situação apresentada no roteiro, mas sempre dentro do escopo dos seus personagens, ao ponto que você esquece quem são os dubladores. Ali estão Joe e 22, e não duas estrelas de Hollywood.

Mas, verdade seja dita: sem a ambientação criada pela ousadia estética e o uso da música, essa ideia ambiciosa de falar sobre vida e morte não seria tão bem-sucedida. Além de se tratar de um resgate justo de uma tradição técnica, a animação 2D aparece de maneira esperta e surpreendente, dando mais profundidade ao que não é deste plano - isso sem mencionar como o uso da luz faz toda a diferença para realçar a beleza de cada cena.

Agora é a música que te faz mergulhar na história. Em um filme que evoca a relação entre arte e alma logo no seu nome, a responsabilidade de criar os arranjos e a trilha sonora são gigantescas. Logo, é notável como são lindos os trabalhos tanto da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, do Nine Inch Nails, quanto de Jon Batiste - este, especificamente, nas hipnotizantes composições de jazz. Eles carregam o espectador por toda a trama e potencializam a força de cada descoberta e atrito.

Sim, mais uma vez a Pixar recorre à ideia de um personagem que precisa encontrar seu caminho de volta para casa. Contudo, isso de modo algum sugere algum desgaste ou falta de criatividade ao estúdio. Pelo contrário. Soul parece ser seu reencontro com o que faz das suas histórias um sucesso. Além de emocionante, a Pixar entrega uma experiência sensorial e, por que não, transformadora. Afinal, é difícil não se pegar pensando nas suas próprias escolhas depois de acompanhar a vida (e a morte) de Joe.

Soul
Soul
Soul
Soul

Ano: 2020

País: Estados Unidos

Duração: 100 min

Direção: Pete Docter, Kemp Powers

Roteiro: Mike Jones, Pete Docter, Kemp Powers

Elenco: Tina Fey, Jamie Foxx

Nota do Crítico
Ótimo

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