Roma

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Crítica

Roma

Em semi-autobiografia, Alfonso Cuarón faz seu melhor filme ao recriar seus anos de formação sem olhar apenas para si mesmo

Natália Bridi
29.12.2018
11h11
Atualizada em
11.01.2019
00h05
Atualizada em 11.01.2019 às 00h05

Roma está constantemente entre dois caminhos. É pessoal e grandioso, popular e intelectual, tecnológico - rodado em 65mm digital e lançado em uma plataforma de streaming - e clássico, feito em preto e branco com a mesma ousadia dos movimentos cinematográficos das décadas de 1950 e 1960. O título, uma referência a Colonia Roma, bairro da Cidade do México, também remete a Roma, Cidade Aberta, filme-símbolo do neorrealismo italiano assinado por Roberto Rossellini. Ao mesmo tempo, seu realismo é mágico, próximo dos Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez. As rotas são muitas, mas Alfonso Cuarón se mantém firme. Essa é a sua história e também a de Cleo.

Ao revisitar a própria memória, o cineasta escolhe olhar para ela, a empregada de origem indígena de uma família branca de classe média. Resgata, assim, não apenas os seus anos de formação, mas todas as particularidades do passado do país. O México no início dos anos 1970 fervilhava entre revoluções populares, sociais e a influência da cultura estrangeira. Cleo, porém, se mantinha ingênua, centrada nas suas obrigações: lavar o pátio, buscar as crianças na escola, segurar o cachorro enquanto o patrão entra na garagem, lavar a roupa, colocar os pequenos para dormir.

Até que tudo se transforma. A família perfeita desmorona, com o pai que sai de casa, a mãe que não se conforma com o fim do casamento e os filhos jogados de um lado para o outro na confusão dos adultos. Enquanto isso, Cleo se apaixona, engravida, é enganada e deixada à própria sorte. Duas mulheres de diferentes origens compartilham a dor do abandono. Juntas, reencontram a resiliência que segura o mundo frente às paixões autocentradas. Eles buscam realizar desejos, carnais ou revolucionários, elas são obrigadas a escolher o cotidiano - não por si mesmas, pelo bem de outros.

Dessa relação, contrasta também a experiência de Marina de Tavira (Sra. Sofía) com a inocência de Yalitza Aparicio (Cleo) no seu primeiro trabalho como atriz. Tavira dá, em segundo plano, toda as camadas do processo de cura da sua personagem - do desespero do lar desfeito para a raiva, a aceitação e a volta por cima. Já no centro da narrativa, Aparicio reflete a doçura, as dores e os aprendizados de Cleo com uma verdade crua e magnética. As lágrimas que surgem ao testemunhar sua história não são de pena ou culpa, mas de puro afeto. Amá-la é um privilégio que Cuarón compartilha por 2h15min. 

O cineasta, que além da direção e do roteiro também assina a fotografia e a montagem (ao lado de Adam Gough), aplica a mesma admiração na forma como retrata seu país, usando o formato de 65mm para preencher completamente a tela. É como se na vida adulta reencontrasse o olhar da infância, cujo fascínio por cada descoberta aumenta o tamanho e a importância de tudo. Dentro de casa, foca nos detalhes e cria narrativas em torno do mundano - na água que corre pelo pátio, no carro gigantesco que não cabe na garagem, no longo caminho até o tanque de lavar roupas. Do lado de fora, coloca seus personagens em um universo vivo, inusitado, barulhento e em constante movimento, reforçando a sensação de solidão por meio da multidão que os cerca. Em outros momentos, soma a calma interior e o caos externo. Dentro de um hospital, com a câmera parada, reflete o desespero de Cleo: tudo acontece ao seu redor, como um pesadelo de que ela não consegue despertar.

O que Cuarón faz em Roma é raro. São camadas e camadas sobrepostas para reproduzir a complexidade do seu imaginário afetivo e das relações sociais de um país. Entre muitas inspirações, referências e técnicas, sua assinatura está na sinceridade com que olha para si mesmo e para os seus personagens, encontrando beleza e verdade no que muitos menosprezam. Esse é um filme simples e complicado, como a própria vida.

Nota do Crítico
Excelente!