Thomas Ian Griffith como Terry Silver, em Cobra Kai

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Cobra Kai começa 4º ano com Terry Silver mais humano e foco no futuro

Com elenco jovem envelhecido e conflitos sendo resolvidos, série prepara nova geração

Eduardo Pereira
30.12.2021
17h23
Atualizada em
31.12.2021
12h59
Atualizada em 31.12.2021 às 12h59

Mesmo o mais apaixonado dos fãs de Cobra Kai, série de TV que continua a franquia cinematográfica original de Karate Kid com um misto preciso de nostalgia e modernização, desconfiou do fôlego da trama quando o produtor Josh Heald informou planos de ir além da quinta temporada. Felizmente, logo nos primeiros episódios do quarto ano da produção, fica claro que há de fato espaço para ir além — contanto que se mantenha o investimento narrativo em uma nova geração de crianças karatecas e graças ao retorno de um famigerado personagem clássico.

Mas vamos por partes: ao final da terceira temporada, depois da violência entre adolescentes tomar conta do Valley e chegar até o interior da casa de Daniel LaRusso (Ralph Macchio), os jovens lutadores da região se dividiram entre o dojo do Karate Kid original, o Miyagi-Do, o recém-criado Karate Presa da Águia, de Johnny Lawrence (William Zabka), e o brutal Cobra Kai, tomado por John Kreese (Martin Kove).

Só que, dada a crescente influência do antigo mestre de Lawrence sobre mais e mais jovens da região, o sensei do Presa da Águia decidiu deixar de lado a mágoa contra LaRusso e unir seu dojo ao do antigo rival para enfrentar os Cobras no aguardado Torneio All Valley de Karatê Sub-18. Essa união prontificou Kreese a recorrer a um antigo aliado, e é daí que parte o novo ano da série da Netflix: a volta de Terry Silver (Thomas Ian Griffith), vilão de Karate Kid 3 - O Desafio Final (1989).

De longe o pior filme da trilogia original, o longa que serve de principal fonte para a nostalgia contida nesta quarta temporada de Cobra Kai ficou marcado pelo personagem tão expansivo quanto insólito de Griffith. Caracterizado como um Steven Seagal genérico, incluindo um rabo de cavalo de estética questionável, o ator de Vampiros de John Carpenter (1998) entregou uma interpretação caricata de um magnata que decide interromper sua vida de excessos para torturar psicologicamente um adolescente, LaRusso, em pagamento a uma dívida de guerra que tem com Kreese. Servindo cenas divertidas, mas padecendo de uma falta de profundidade enorme e carregando um cinismo dissonante do sentimentalismo simplório que sempre caracterizou a saga, o personagem fez fãs mais pelo humor involuntário do que pela qualidade — algo que muda radicalmente na série da Netflix.

A reintrodução de Silver é gradativa e, para os padrões da série, vagarosa o bastante para permitir aos showrunners Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg e Heald o enriquecimento do personagem, um ex-viciado em cocaína recuperado que assumiu de vez seu papel de magnata progressista em meio às mais altas rodas da elite liberal americana. Guardando de seus anos de combate apenas as madeixas longas, agora soltas, ele se apresenta como veículo para um comentário autoirônico sobre os absurdos da trama de Karate Kid 3, em recurso que ilustra a inteligência típica da série em seu trato de personagens clássicos: reescrevendo o passado não por meio do confronto ou apagamento, mas da construção respeitosa a partir do que já sabemos.

Experiente e surpreendentemente ágil para executar boas sequências de ação aos 59 anos, Ian Griffith aproveita a chance de revisitar (e melhorar) o personagem ao máximo, entregando de forma surpreendente uma das melhores performances de uma carreira que ficou por um bom tempo paralisada. Não demora para que Silver renasça como uma figura complexa, intimidadora e ainda assim simpática; um vilão irresistível.

Relutâncias à parte, fica claro que o retorno de Silver às cores do dojo Cobra Kai (e ao lado de seu antigo capitão de pelotão, John Kreese) é inevitável. Um tubarão corporativo, o vilão invoca a necessidade de expansão, e a série aproveita isso para justificar a preparação de terreno para o futuro prometido por Heald, concedendo espaço a personagens previamente negligenciados pela trama e introduzindo uma nova geração de entusiastas das artes marciais. Anthony LaRusso (Griffin Santopietro) enfim recebe atenção não só da série, como de seus pais, e é uma surpresa o quão eficiente a fórmula de troca de lugares aplicada inicialmente a Johnny Lawrence e Daniel LaRusso consegue ser para desenvolvê-lo em confronto com o carismático novato Kenny (Dallas Dupree Young). Outra grata surpresa é a introdução de Devon (Oona O’Brien), uma jovem tão brilhante quanto intimidadora e que surge como grande curinga na trama.

É claro que, paralelamente à intensificação do cabo de guerra a quatro mãos entre as duplas Kreese-Silver e Lawrence-LaRusso, os dramas pessoais e conflitos de personagens como Amanda LaRusso (Courtney Henggeler), Miguel Diaz (Xolo Maridueña), Samantha LaRusso (Mary Mouser), Falcão (Jacob Bertrand), Tory Nichols (Peyton Roi) e mais seguem se desenvolvendo com boa dose de surpresas. Ainda assim, a maior delas é o amadurecimento de Robby Keene, que desponta como personificação do conflito da série — e de sua solução. Concentrando em sua experiência de luta o melhor dos estilos Miyagi-Do e Cobra Kai, ele tornou-se inadvertidamente a síntese do equilíbrio a la yin e yang proposto entre Lawrence e LaRusso desde o início da série. E é claro que a qualidade de Tanner Buchanan como performer físico só adiciona ao crescimento de um personagem que surgiu como um vilão antipático e caminha rumo à redenção.

Mantendo aquele típico cuidado pelo passado visto anteriormente na série, mas agora mais preocupada com o futuro, Cobra Kai tem tudo para entregar sua temporada mais original nesse quarto ano, instrumentalizando deslizes passados em prol de novos rumos para uma história que perigava cair na repetição fútil, mas que agora faz dela um recurso narrativo consciente. Nascida da nostalgia, a produção não viveria por muito tempo se seguisse se apoiando mais nela do que em novas ideias, então é reconfortante ver que ela não cederá a esse perigo sem antes impor uma boa luta.

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