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Filmes coreanos ainda são raridade nos cinemas brasileiros – mas por que?

Omelete fala com representantes do KOFF e membros da indústria sul-coreana para descobrir

Omelete
7 min de leitura
19.08.2026, às 07H00.
Park Ji-hoon em The King's Warden (Reprodução)

Créditos da imagem: Park Ji-hoon em The King's Warden (Reprodução)

Esta reportagem faz parte da KOREA WEEK, semana especial de conteúdo sul-coreano (k-drama, k-pop e mais!) em todas as plataformas do Omelete. Fique de olho na nossa seção KOREA para acompanhar tudo.

O sucesso de “tudo sul-coreano” na América Latina, e especialmente no Brasil, é um fenômeno que sempre intrigou este que vos fala. Com o passar dos anos e do trabalho no Omelete, perguntei a uma série de atores, cantores e artistas num geral qual era o parentesco narrativo entre os dois países, que fazia k-dramas, k-pop e k-movies voarem alto em terras brasileiras. 

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Mas ninguém me deu uma resposta tão completa quanto Joh Keun-shik, diretor executivo da Korean Academy of Film Arts (KAFA), uma das instituições mais importantes dentro do ecossistema cultural da Coreia do Sul: “A Coreia e o Brasil estão distantes geograficamente, mas culturalmente possuem pontos em comum, em um nível que até acho surpreendente. Ambos os países consideram a família e a comunidade importantes, e possuem uma característica cultural de expressar as alegrias e as tristezas da vida com emoções intensas. Penso que este consenso emocional está se tornando a base para que os espectadores de ambos os países aceitem os conteúdos uns dos outros de forma natural”.

É claro que nem tudo são ideais elevados como este da afinidade emocional entre os dois povos: a ideia de fazer filmes e séries que reverberam ao redor do mundo também vem de uma necessidade comercial, como aponta o cineasta Jang Kun-jae, figura carimbada do cinema independente sul-coreano e diretor do emblemático Porque Eu Odeio a Coreia

É difícil recuperar os custos de produção apenas com o mercado sul-coreano, então muitos criadores de audiovisual passaram a adotar, fundamentalmente, a mentalidade de que é necessário expandir-se globalmente”, explica. “Acredito que os k-dramas atraem muito o público brasileiro, especialmente, por apresentarem muitos temas inéditos, um ritmo de desenvolvimento acelerado e uma grande dinâmica emocional”.

Joh também aponta para os filmes “dinâmicos e híbridos” da cinematografia coreana como os mais populares ao redor do mundo. “Desenvolveu-se [na Coreia] um sistema refinado capaz de contextualizar questões sociais realistas e urgentes do país – como a desigualdade socioeconômica, o isolamento humano e os crimes digitais – dentro de narrativas de apelo popular, como thrillers, comédias ácidas e distopias”, diz ele.

Os fãs de títulos como Parasita (2019) e Em Chamas (2018), entre tantos outros, entendem bem essa receita. São narrativas “profundamente enraizadas na realidade local”, mas que trafegam em “emoções de caráter universal”. “Temas como dinâmicas familiares, desigualdade social, senso de comunidade, amor e justiça transcendem fronteiras geográficas, despertando uma profunda empatia ao redor do mundo”, comenta Joh.

A Coreia e o Brasil possuem o ponto em comum de terem tratado seriamente, dentro do cinema, os problemas enfrentados pela sociedade moderna, como mudanças sociais e desigualdade, urbanização e conflitos de gerações”, completa Joh. “Por essa razão, os espectadores brasileiros simpatizam profundamente com as histórias do cinema coreano, e os espectadores coreanos também possuem grande interesse na realidade e na humanidade que o cinema brasileiro mostra”.

O diretor executivo da KAFA, inclusive, acredita que mostras internacionais promovidas nos dois países podem servir como oportunidade para que Coreia e Brasil “se copiem” no desenvolvimento e exportação audiovisual: ”O Brasil é um país com uma rica tradição cinematográfica que o mundo reconhece. Tenho certeza de que, se os cineastas de ambos os países compartilharem histórias e aprenderem juntos, podemos inspirar uns aos outros”.

Cena de Minha Filha é um Zumbi (Reprodução)
Cena de Minha Filha é um Zumbi (Reprodução)

O cinema sul-coreano no Brasil - espaço comercial e circuito de festivais

Os filmes sul-coreanos que chegam ao circuito comercial brasileiro, no entanto, ainda representam uma fração mínima da produção do país – isso apesar de esforços de distribuidoras como a Sato Company (mais ativa no filão, com lançamentos como Ditto: Conexões do Amor e Meu Pior Vizinho), O2 Play (que, junto ao Omelete, vai lançar Minha Filha é um Zumbi nos cinemas nacionais), Paris Filmes (que trouxe A Menina dos Meus Olhos ano passado, e vai trazer Zona Zero este ano) e Pandora Filmes (que distribuiu Na Teia da Aranha em 2025).

No streaming, o cenário é suavizado pela atuação de players como a Netflix, que frequentemente compra produções sul-coreanas para lançar no mercado internacional (vide os recentes Se Esse Amor Desaparecesse Hoje e Wild Sing). Mas o remédio é pouco, especialmente tendo em vista a popularidade desse conteúdo dentro do Brasil – e o fardo de servir a esse público acaba ficando em grande parte com as mostras e festivais de cinema.

Daí nascem eventos como o KOFF - Korean Film Festival, que chega à quarta edição este ano em meio a uma expansão franca e contínua, demonstrando como nenhum outro o potencial inexplorado do mercado. Em 2026, o KOFF abraçará um circuito de sete cidades, entre agosto e outubro, com a exibição de mais de 90 títulos – incluindo The King’s Warden, drama histórico que se tornou o filme mais lucrativo da história da Coreia do Sul este ano.

Márcia Kling (diretora e co-curadora) e Daniel Sobral (produtor executivo) conversaram com o Omelete sobre a dificuldade de estabelecer o cinema sul-coreano como via comercial legítima: “A distribuição comercial envolve riscos financeiros, e muitos exibidores ainda concentram seus investimentos em produções com maior potencial de bilheteria, especialmente filmes norte-americanos. Mas esse cenário vem mudando gradualmente, com o crescimento do interesse do público brasileiro pela cultura coreana”.

Nós percebemos um interesse cada vez maior das distribuidoras brasileiras em adquirir filmes sul-coreanos desde o surgimento do KOFF”, continua a dupla. “Ao mesmo tempo, ao longo dos últimos anos, o festival consolidou uma relação direta com distribuidoras na Coreia do Sul, tornando esse processo de negociação cada vez mais eficiente. Em muitos casos, as tratativas realizadas diretamente com os detentores dos direitos na Coreia têm se mostrado mais ágeis e assertivas do que negociações intermediadas por distribuidoras de outros países”.

Kling e Sobral ainda apontam que os desafios enfrentados pelos filmes sul-coreanos no caminho para a distribuição no Brasil são diferentes daqueles enfrentados por grandes produções de Hollywood. “Na maioria das vezes, esses filmes [estadunidenses] já possuem representação comercial no Brasil, e os filmes já estão traduzidos e prontos para serem compartilhados com o público. Muitos filmes sul-coreanos não têm isso, o que exige negociações diretamente com empresas estrangeiras e uma articulação constante entre produtores, distribuidores e agentes internacionais”.

Construir relações de confiança e parcerias de longo prazo com o mercado audiovisual sul-coreano tem sido fundamental para garantir uma programação de alta qualidade e ampliar o acesso do público brasileiro ao cinema coreano”, completam. “O festival tem contribuído para formar público, apresentar novos realizadores e demonstrar que existe uma demanda consistente por uma programação mais diversa. Nesse sentido, KOFF atua como uma ponte entre o mercado audiovisual sul-coreano e o público brasileiro”.

O estabelecimento de um escritório em Seul, capital da Coreia, foi fundamental na consolidação dessa via: “Isso demonstra o compromisso de construir uma relação de longo prazo com o mercado audiovisual sul-coreano. Toda a comunicação é realizada em coreano, respeitando as particularidades culturais e comerciais do país. Além disso, contamos com um representante local que mantém contato direto com as distribuidoras, realiza reuniões presenciais no mesmo fuso horário e apresenta o nosso trabalho a eles. Essa proximidade fortalece a credibilidade do festival e facilita o acesso a obras de grande relevância artística, muitas delas ainda inéditas no circuito internacional”.

E essa alimentação do mercado pela via do circuito de mostras e festivais (a Mostra de Cinema Coreano no Brasil, realizada anualmente pelo Centro Cultural Coreano em São Paulo - CCCB -, é outro evento importante do circuito) pode cultivar uma visão mais saudável do público sobre a produção cinematográfica sul-coreana – um desafio que o KOFF tem enfrentado desde a sua incepção.

No início, a principal questão foi mostrar ao público brasileiro que o cinema sul-coreano vai muito além dos títulos que alcançaram sucesso internacional”, dizem Márcia e Daniel. “Existia uma percepção muito limitada da produção coreana, normalmente associada apenas a dramas e obras de época  com uma atmosfera lúdica e poética. Desde a primeira edição, buscamos apresentar um panorama mais amplo, com produções de diferentes gêneros, estilos e olhares, evidenciando a diversidade e a riqueza da cinematografia sul-coreana”.

Na próxima matéria da Korea Week: a estratégia dos serviços de streaming para trazer os k-dramas para o Brasil!

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