Se Esse Amor Desaparecesse Hoje aborda romance trágico com o peso que ele merece
Filme coreano da Netflix se aproxima mais dos romances clássicos de Hollywood do que dos k-dramas
Créditos da imagem: Choo Young-woo em Se Esse Amor Desaparecesse Hoje (Reprodução)
Logo no início de Se Esse Amor Desaparecesse Hoje, os estudantes Kim Jae-won (Choo Yooung-woo, de A Fada e o Pastor) e Han Seo-yoon (Shin Si-ah, de Resident Playbook) estão no mesmo ônibus a caminho da escola quando o motorista dá uma freada brusca, e a moça se desequilibra. A diretora Kim Hye-young (Um Amor de Despedida), que não é boba, recorre imediatamente para a câmera lenta, sobe o som de uma baladinha ao piano da trilha sonora, e coloca Jae-won no caminho de Seo-yoon para salvá-la da queda. Acontece que, ao invés de segurá-la pela nuca ou pela cintura como se estivesse dançando tango com ela, Jae-won a puxa pelo rabo de cavalo, impedindo que ela caia, mas deixando os dois em uma posição constrangedora enquanto a comoção dentro do ônibus se dissipa.
Eis aí o meet-cute do casal principal do filme sul-coreano da Netflix, que pode até ter se vendido como um daqueles romances adolescentes em longa-metragem que compactam a experiência dos k-dramas em duas horas, mas mostra já nos primeiros minutos que está indisposto a seguir as convenções deles. Ao invés disso, Se Esse Amor Desaparecesse Hoje aos poucos vai revelando outro pendor, um pouco mais contido na fantasia romântica, mas muito mais entregue às emoções gigantes que tenta conter dentro de sua história. Menos k-drama do que o esperado, enfim, ele é muito mais romance clássico de Hollywood.
A saber: Seo-yoon sofre de uma condição de memória rara, que a faz acordar todos os dias sem lembrança alguma do dia anterior – o seu cérebro ficou preso no dia em que ela sofreu um acidente automotivo, incapaz de formar novas memórias desde então. A salvaguarda da moça é um diário que ela mantém desde o incidente, e que precisa ler todas as manhãs para viver um semblante de vida normal. As coisas se complicam quando ela conhece Jae-won, um rapaz quieto que só a chama para sair a fim de impedir que colegas maldosos pratiquem bullying com um amigo. Os dois decidem dar uma chance para essa relação, mesmo que ambos escondam segredos que a tornam mais difícil do que poderia ser.
O roteiro – trabalhando a partir de um livro japonês, assinado por Misaki Ichijo, que já foi adaptado em seu país natal em 2022 – estrutura esta história em atos bem demarcados, deixando nas mãos da diretora a responsabilidade de manejar os tons de cada um deles. O cortejo entre Seo-yoon e Jae-won vem primeiro, a hesitação do desconhecido dando lugar aos poucos à segurança e ao conforto que encontram um no outro. É uma seção do filme que se apresenta salpicada tanto de cenas idílicas de passeios de verão, iluminados em abundância e pontuados por descontração entre os atores, quanto de momentos íntimos de câmara entre os protagonistas e seus amigos ou familiares, levantando um pouco o véu das dúvidas e silêncios que marcam as suas vivências longe um do outro.
Depois disso, é claro, vem o confronto com as problemáticas estabelecidas na esfera de cada um. Aqui, Se Esse Amor Desaparecesse Hoje abraça a vocação para a pompa emocional, abusando de deixas musicais e flashbacks picotados para vender sua própria história como tragédia romântica na esfera elevada de um Romeu & Julieta. Os truques que a diretora Kim usa nem sempre são limpos, e com certeza há quem vá taxar Se Esse Amor Desaparecesse Hoje como manipulativo, mas a verdade é que tudo o que ela faz é elevar essa história normal, de gente normal, ao palco do extraordinário.
E houve um tempo em que Hollywood adorava fazer isso. Fossem os melodramas de Douglas Sirk dos anos 50 ou os “Oscar bait” dos anos 80 e 90, dirigidos por gente de Barbra Streisand a Gus Van Sant, costumava-se fazer filmes grandes e polidos para contar histórias de amor, de adversidade, de repressão e liberação. Histórias que serviam de conduíte em grande estilo para as angústias do público que também as vivia. Quem diria que este cinema, muito mal falado na sua época, fosse fazer tanta falta hoje em dia.