Eternos não é só lacração e faz da representatividade sua razão de ser

Créditos da imagem: Disney/Divulgação

Filmes

Crítica

Eternos não é só lacração e faz da representatividade sua razão de ser

Marvel usa o sincretismo de Jack Kirby como pretexto para falar de crenças novas e velhas

Marcelo Hessel
03.11.2021
23h26
Atualizada em
05.11.2021
08h17
Atualizada em 05.11.2021 às 08h17

Como nos quadrinhos, a chegada iminente de um Celestial à Terra coloca em risco o futuro da espécie humana, e diante da ameaça colossal os Eternos consideram até evacuar o planeta. “Mas o que vocês sugerem fazer, separar todo mundo em casais e embarcar numa arca gigantesca?”, ironiza Duende (Lia McHugh). A referência bíblica soa como piada mas convém não perdê-la de vista; ainda que os personagens tenham seus nomes emprestados do panteão de deuses greco-romanos, a matriz de Eternos é essencialmente a judaico-cristã.

Talvez essa seja a principal semelhança entre o filme de Chloé Zhao e a HQ da Marvel como Jack Kirby a concebeu, em 1976. No sincretismo de Kirby, os Eternos são menos como deuses olímpicos e mais como arcanjos encarregados de zelar por uma ordem divina que os precede. Não por acaso, o primeiro volume de Os Eternos equipara os vilões deviantes a anjos caídos que ganham chifres quando trocam as profundezas da Terra pela superfície - uma fisionomia oportunamente infernal que, nas palavras do deviante Kro, ajudará a instilar o medo nos humanos e a desconfiança contra os Eternos. 

O filme dilui essa premissa, obviamente cristã, para fazer dos deviantes bucha de canhão nos combates em CGI, bestas famintas com aquele típico aspecto acinzentado e anfíbio que dificulta divisá-los nas rápidas cenas de ação noturnas. Isso não significa que o filme coloca o viés religioso de canto; na verdade, o argumento escrito por Kaz e Ryan Firpo - dois primos que vieram dos documentários e aqui estão estreando em longas de ficção - vai além do que Kirby concebeu nesse sentido, e escolhe dois Eternos para serem nossos Adão e Eva.

Ora, o que Chloé Zhao narra no amor entre Sersi (Gemma Chan) e Ikaris (Richard Madden) é essencialmente uma versão da queda do Paraíso. Logo na abertura do filme, assistimos aos Eternos tomando forma na sua nave, preparando-se para desembarcar na Terra. Da janela, Sersi e Ikaris admiram a beleza azulada do planeta e se cumprimentam com circunspecção, como se fossem a primeira mulher e o primeiro homem. A trama vai e vem saltando no tempo, ao longo de milênios, tendo como balizas a consumação cerimonial desse amor. Isso inclui uma já conhecida transa, e o ineditismo de cenas de sexo no MCU deixa clara a sua importância simbólica para a história de Sersi e Ikaris, desde o início carregada de sacralidade. 

Nada disso escapa à atenção de Chloé Zhao, pelo contrário, é uma quase obsessão: as panorâmicas, os ângulos baixos de câmera e os efeitos de contraluz carregam o mundano de uma espiritualidade solene. Antes de ser um filme que se filia à tendência monocromática de blockbusters pós-Christopher Nolan, como Duna ou 007 Contra Spectre (e aí realmente Zhao se divorcia, na fotografia, das cores psicodélicas de Kirby), Os Eternos está procurando se validar numa aproximação com o cinema de Terrence Malick. É uma manobra mais do que esperta para tentar atribuir pedigree a um filme de gibi, e talvez essa tentativa, realizada não sem forçação, diga muito sobre os clichês New Age de bom gosto, tipo Osklen, do cinema que Malick consumou na década passada, na procura de epifania espiritual em toda e qualquer circunstância mundana.   

Se os tiques de Malick já soam autoparódicos hoje, parece inevitável que essa impressão transpire em Os Eternos, um filme que não tem um diretor de fotografia do calibre de Emmanuel Lubezki para se defender. Na verdade, nem mesmo o diretor de fotografia habitual de Zhao teve vez aqui, porque Joshua James Richards foi rebaixado a operador de câmera e quem assina a fotografia do filme é um dos contratados da Marvel, Ben Davis, em seu quinto longa no MCU. O resultado é um inevitável desencontro visual, atestado em GIFs que já circulam no Twitter para ridicularizar erros de continuidade entre CGI e live-action.

A frustração de ver na tela essas evidências de má direção pode - dependendo da tolerância do espectador - ser compensada ou não pelo texto e suas analogias. Elas nunca ficam literais demais, ainda que se trate de um filme de autores “sensíveis”, egressos do indie, que deixam claro que estão fazendo um filme sobre tato e sensibilidade. Uma forma encontrada em Os Eternos para balancear as coisas, e desarmar um pouco a solenidade, é assumir que Kingo (Kumail Nanjiani) e seu companheiro Karun (Harish Patel) são alívios cômicos de metalinguagem, realizando dentro do filme um outro filme de caráter paródico. O fato de os dois virem de Bollywood - e portanto só o produto estrangeiro ser passível de piada, não o hollywoodiano - é certamente uma hipocrisia mas isso não impede Os Eternos de ficar mais leve, inclusive no lado espiritualizado, com as tiradas tilelês de Karun.

De resto, talvez seja um alívio para muitos saber que a preocupação de Os Eternos com questões de representatividade não é mera lacração. Ao contrário da sinalização de virtude em outros filmes do MCU (o exemplo hoje mais notório é a cena casuística de sororidade e girl power na batalha de Vingadores - Ultimato) aqui a problemática é inerente à história e aos conflitos que os personagens enfrentam entre si. Aliás, Os Eternos parece ser um avanço em filmes de superequipe porque não se trata mais de dar a cada integrante seus minutos contados de glória, e sim de conceber uma trama em que a própria dinâmica entre os integrantes seja chave para a narrativa.

E voltamos a Sersi e Ikaris, porque para além do casal do Éden os Eternos são formados ainda por outras oito pessoas. Uns mais do que outros são evidentes avatares de minorias, mas todos reagem ao fardo de serem imortais testemunhando a morte na Terra sucessivas vezes, ao longo dos milênios. Zack Snyder tem a cultura greco-romana como referência, então nos seus filmes talvez essa situação gerasse insensibilização, fastio. A perda da vontade é a principal fonte de sofrimento que paira sobre o homem na ordem de mundo greco-romana - conta o psicanalista Christian Dunker no livro Reinvenção da Intimidade - enquanto na ordem judaico-cristã o que assola o homem é a perda da fé.

O que vai separar então os super-heróis de Os Eternos é a crença, a falta dela ou a transformação dessa crença em outra coisa. A certa altura fica bastante fácil antever, diante da “morte de Deus”, quem serão os dogmáticos e quem serão os progressistas (uma dica: privilégios heteronormativos). Pesados os prós e os contras do trabalho de Chloé Zhao, é preciso reconhecer que o filme incorpora dilemas de inadequação social de uma forma bastante original, em busca de uma nova representatividade, que não seja panfletária simplesmente, mas que jogue uma nova luz sobre esse gênero desgastado dos super-heróis. A empatia que os deuses encontram aqui com os mortais não é cínica com a de Mulher-Maravilha: 1984, que trata civis como um estorvo. Na verdade, Os Eternos tem muito pouco de civis de fato, de cenas de população, e seu mundo parece esvaziado de gente mesmo nas poucas cenas em metrópoles nos dias de hoje. Isso é compensado porque os próprios Eternos, no seu assentamento, tomam para si as dores e os anseios dos civis, e em boa medida é justamente disso que depende sua relevância e até sua própria sanidade.

Por fim, e feitas essas comparações, não é por acaso que o roteiro mencione Batman e Superman duas vezes; a ideia do filme passa por tecer um comentário sobre o gênero como um todo e não se encerrar numa reiteração de MCU. Hoje, depois de acompanhar um 2021 em que as produções do Disney+ colocaram os personagens da casa no divã, de Wandavision a Loki, parece um passo compreensível para o Marvel Studios. E apesar de seus momentos ocasionais de pompa e autoimportância Os Eternos faz esse juízo sobre o estado do cinema de super-heróis até que de forma graciosa.

Os Eternos
The Eternals
Os Eternos
The Eternals

Ano: 2021

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 157 min

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Patrick Burleigh, Kaz Firpo, Ryan Firpo, Chloé Zhao

Elenco: Richard Madden, Angelina Jolie, Gemma Chan, Brian Tyree Henry, Kumail Nanjiani, Barry Keoghan, Kit Harington, Salma Hayek, Ma Dong-seok, Lauren Ridloff, Lia McHugh, Harish Patel

Nota do Crítico
Bom

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