Filmes

Crítica

Mulher-Maravilha 1984

Leve, divertida e esperançosa, nova aventura de Diana é o filme de super-herói que merecíamos em 2020

Natalia Engler
15.12.2020
14h00
Atualizada em
17.12.2020
21h25
Atualizada em 17.12.2020 às 21h25

Pode parecer clichê, mas é de fato um alívio ter um filme como Mulher-Maravilha 1984 em 2020. Neste ano horrível, que nos roubou tantas coisas - de pessoas queridas a atividades cotidianas como ir ao cinema sem preocupação - o longa, dirigido mais uma vez por Patty Jenkins, traz uma mensagem confortante de esperança e crença no melhor que a humanidade pode ser. Mas isto só é um grande trunfo do filme porque se encaixa com perfeição em uma narrativa bem amarrada que explora o simbolismo da personagem e, acertadamente, afasta-se do tom sombrio e niilista que Zack Snyder tentou dar ao DCEU.

Quando William Moulton Marston criou a Mulher-Maravilha em 1941, ele pensou a heroína como um antídoto para o excesso de violência dos super-heróis, que estava na pauta do dia. Para ele, criar uma super-heroína era um modo de associar à ideia de heroísmo valores como altruísmo, empatia, ternura e amorosidade, normalmente desvalorizados em uma cultura que considerava que ser forte era apenas ter força bruta e derrotar inimigos. Diana surgiu então como uma heroína de força sobre-humana que se guiava por esses valores, que não empunhava armas mortíferas e que procurava sempre reabilitar os vilões em vez de matá-los.

É esse espírito que Jenkins evoca ao revisitar Diana (Gal Gadot), agora nos anos 1980. Ela mora em Washington, trabalha no Museu Smithsonian e leva uma vida de quem já vive entre a humanidade há quase 70 anos: como Diana, é um tanto solitária e nostálgica pelas pessoas que já viu partir; como Mulher-Maravilha, encara como algo cotidiano salvar uma corredora de um atropelamento ou crianças de um assalto a um shopping. Diana já não é mais a jovem ingênua do primeiro filme, mas não se deixou tomar pelo cinismo e não perdeu a fé na humanidade, e ainda encara a vida com um olhar amoroso. 

Esse tom - mais leve e menos solene - é um dos acertos do filme, que paradoxalmente consegue ser ao mesmo tempo mais calcado na realidade cotidiana e mais fantástico. Os cenários e situações são familiares - um shopping, um apartamento bagunçado, um conjunto de escritórios, um congestionamento no meio da cidade - e nos permitem vislumbrar Diana não só em ação, mas em momentos de intimidade e vulnerabilidade. A química entre Chris Pine (Steve Trevor) e Gal Gadot dá ainda mais brilho a essas situações, agora com os papéis invertidos - ele é o peixe fora d’água no mundo de 1984 -, e essas interações não são mais meros alívios cômicos pontuais, e sim algo melhor integrado ao espírito do filme. (E isso é tudo que se pode dizer sobre a volta de Trevor sem revelar muita coisa.)

Por outro lado, a ação é dinâmica, divertida e tornada mais fantástica pela facilidade com que Diana explora a vantagem que tem sobre seus oponentes, desarmando-os sem grande esforço com a ajuda do laço da verdade e de sua tiara, o que exige do espectador uma boa dose de suspensão da descrença, mas também traduz uma visão mais ingênua do que é um super-herói. Há também um tom de aventuras como as de Indiana Jones, na busca de pistas sobre a relíquia que move a trama de Mulher-Maravilha 1984.

E é essa relíquia, um misterioso cristal, que tem a função de elevar os obstáculos no caminho de Diana, quando coisas estranhas começam a acontecer a pessoas que tiveram contato com ela, incluindo a própria Diana, sua colega gemologista Barbara Ann Minerva e a estrela de televendas e aspirante a magnata do petróleo Maxwell Lord (respectivamente Kristen Wiig e Pedro Pascal, ótimos nos papéis de antagonistas). Os poderes dessa pedra permitem que Jenkins (que co-escreveu o roteiro com Geoff Johns) apresente e desenvolva as motivações de cada personagem de modo que os espectadores sintam que coisas realmente importantes e muito pessoais estão em jogo para cada um - recuperar um grande e verdadeiro amor, não se sentir mais menosprezada e invisível, conquistar admiração e respeito etc.

A escolha do período também se encaixa bem nessa dinâmica de um clima mais divertido, mas em que há muito a se perder. O visual exagerado, colorido e exuberante dos anos 1980 e da própria fotografia de Mulher-Maravilha 1984 esconde uma realidade de individualismo exacerbado, consumismo em seu ponto mais alto e líderes que ambicionam mais e mais poder. Como Jenkins afirmou em inúmeras entrevistas, é uma época que representa o nosso melhor e o nosso pior, tudo misturado, mas é preciso encontrar algum caminho para a redenção.

Com esses elementos - heroína e vilões com muito a perder, uma atmosfera de aventuras dos anos 1980, a recusa de cinismos, a possibilidade de redenção, além de referências que devem deixar os fãs satisfeitos - Jenkins consegue entregar um filme mais bem resolvido do que o primeiro Mulher-Maravilha (2017), um filme que parece habitar um universo completamente diferente, sem com isso descaracterizar as personagens já conhecidas - talvez porque nos faça sentir que este era o tom que a heroína merecia desde o início.

E essa é a principal razão para a mensagem de esperança ser tão satisfatória: com uma heroína como a Diana que Mulher-Maravilha 1984 apresenta, a mensagem não poderia ser outra.

Mulher-Maravilha 1984
Wonder Woman 1984
Mulher-Maravilha 1984
Wonder Woman 1984

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 135 min min

Direção: Patty Jenkins

Roteiro: Patty Jenkins, Geoff Johns

Elenco: Pedro Pascal, Chris Pine, Kristen Wiig, Gal Gadot

Nota do Crítico
Ótimo

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