Vingadores: Ultimato

Créditos da imagem: Marvel Studios/Divulgação

Filmes

Crítica

Vingadores: Ultimato

Marvel celebra sua jornada no cinema reafirmando todo o mito dos super-heróis americanos - cuidado com possíveis spoilers!

Marcelo Hessel
23.04.2019
19h00
Atualizada em
24.04.2019
18h52
Atualizada em 24.04.2019 às 18h52

[cuidado com possíveis spoilers!]

Vingadores: Ultimato funciona em dois níveis. O mais imediato e esperado, culminação de 11 anos de um Universo Marvel cimentado no serviço ao fã, é o da autocelebração. São três horas de uma variedade ininterrupta de reminiscências de filmes antigos, participações especiais, easter eggs, fan services, resoluções de arco e o que chamaremos aqui de Momentos PQP pensados para recompensar o investimento emocional de um público cativo que ao longo dos anos deparou com filmes de qualidades díspares, dos perenes aos mais episódicos. Nesse nível, Ultimato funciona acima de qualquer expectativa: não só entrega uma experiência catártica maior que Guerra Infinita como ainda firma posições definitivas em relação aos destinos do MCU.

É curioso que a estreia aconteça paralelamente à exibição da última temporada de Game of Thrones, porque são dois casos em que a entrega final de um serviço ao fã, depois de anos de desenvolvimento de personagens, envolve um caráter acima de tudo funcional. Sabemos quem são esses heróis, quais são suas questões não resolvidas, então o que falta contar além do desfecho? Como dar ao público o que ele espera sem que isso soe como uma coisa burocrática? GoT está penando para lidar com essa questão. Já Joe e Anthony Russo fazem um filme que tinha tudo para parecer mais um capítulo final de novela, mas os realizadores se blindam dessa armadilha, primeiro, ao montar um roteiro de ação sem respiros, enxutíssimo apesar da metragem, e segundo, ao DOBRAR a aposta que a Marvel já faz sobre o caráter autoconsciente de seus filmes e personagens.

Sabemos como é: nos filmes da Marvel os super-heróis brincam entre si com piadas sobre ser super-heróis; a autoconsciência é um elemento central do blockbuster desta era do consumo irônico, um antídoto cômico para filmes sobre action figures que se prestam à descartabilidade sem se levar a sério demais. O que os Russo fazem em Ultimato? Transformam a autoconsciência em ponto de virada de trama.
Se antes o Capitão América tinha uma certa autoconsciência de sua condição (daí a piada com a campanha de guerra e o uniforme de pano de O Primeiro Vingador, por exemplo), agora isso fica inscrito no próprio desenrolar da ação: se o Capitão encontrar sua versão do passado, só lhe restará comentar sua própria condição e enfrentá-la. Seu futuro depende da autoconsciência.

(Evidentemente Ultimato bebe demais da fonte de De Volta para o Futuro nesse caso. Inclusive - afinal na pós-ironia isso precisa ser sublinhado - a trilogia é mencionada literalmente, ao lado de outros filmes de viagem no tempo.)

E há o segundo nível: não se trata somente da festa da própria Marvel,  mas também da celebração do mito dos super-heróis como uma coisa essencialmente americana. Mais profundo e insidioso, o americanismo abre e fecha o filme (no começo, uma fazenda, um almoço com hot dogs em família; no fim, o zoom-in de uma casa de subúrbio ao som de um standard de jazz). Há uma variedade de elementos que demarcam esse nível, da escolha das canções (até nos limites do universo se escuta folk rock) aos cenários (vemos o impacto do estalo de Thanos
basicamente em duas metrópoles dos lados opostos dos EUA).

Os elementos principais do americanismo, porém, são os dois temas que estão no enunciado do filme: o do retorno para casa e o da segunda chance. Dos temas tratados no cinema hollywoodiano desde a Era dos Estúdios, nenhum é tão presente quanto esses dois. A questão da segunda chance é evidente: os Vingadores foram derrotados por Thanos, agora buscam vingança; Capitão América e Homem de Ferro tretaram, agora procuram reconciliação. Já o tema da volta pra casa se consuma de formas variadas a partir da premissa que envolve viagem no tempo. Nessa combinação, a autocelebração do MCU soa mais profunda e ideologizada neste filme, e também mais emocional. Se Guerra Infinita levava ao paroxismo o jeito Marvel de fazer blockbuster, Ultimato é a consagração do ideal americano nesse imaginário do pop do século 21, dominado pelo cinema de super-heróis.

Kevin Feige, Joe e Anthony Russo e os demais nomes que fazem a Marvel do cinema hoje atrás das câmeras vieram de uma geração desesperançada, nascida nos anos 1970, mas os ideais que Ultimato carrega consigo são aqueles dos Baby Boomers: a geração anterior, dos filhos nascidos no Pós-Guerra, quando o otimismo político e a bonança econômica permitiram uma explosão demográfica nos EUA. São os anos dos quadrinhos de super-herói como retrato dos ideais americanos - e principalmente os anos que Steve Rogers perdeu congelado na ficção. O núcleo familiar tradicional - de filhos bem alimentados, mães zelosas e pais trabalhadores - está no cerne desse ideário, e se Vingadores: Ultimato é uma celebração do mito dos super-heróis americanos do Pós-Guerra, então faz todo o sentido que seja também uma celebração da família.

A rainha asgardiana que passa a mão sobre a cabeça do filho. Uma impensada regente estabelecendo uma nova estrutura de matriarcado. O homem de negócios prestes a ser pai que se vê preocupado por ser workaholic demais. O símbolo do sacrifício pessoal que pensa duas vezes diante da chance de criar um laço familiar. As irmãs de uma família disfuncional que rediscutem suas funções. Tem pra todo mundo em Ultimato; o MCU tem tantos personagens, ademais, que não fica difícil encontrar um padrão nas subtramas. É fato, porém, que nesse grande capítulo final de novela, feito de acertos de contas, a questão da família é fundamental. Não por acaso, uma das despedidas mais sentidas ao longo do filme envolve um personagem cuja essência é a inviabilidade do laço de sangue. Tem pra todo mundo em Ultimato, sim, mas nem todo mundo pode constituir no fim uma família "tradicional".

Discute-se muito nesta era de incertezas se o papel dos vigilantes na cultura pop, por natureza um papel conservador, se prestaria politicamente a reafirmar esse conservadorismo hoje em dia. A Marvel inclusive sabe trabalhar essa questão em filmes que estão oxigenando o gênero, como Pantera Negra. É possível que muito se discuta ainda sobre Ultimato nesse sentido, mas à primeira vista temos aqui, principalmente, uma pregação para convertidos. Um filme de serviço. Os leitores mais velhos são atendidos, e os mais novos também. Cita-se desde Guerras Secretas (Hulk, escombros) até Império Secreto (um dos Momentos PQP). Até os fãs da Marvel na TV são contemplados. E nenhum momento deixa tão claro isso quanto o instante em que o Capitão América sussura uma palavra no clímax. Ele sussurra, ao invés de gritar, porque autoconscientemente não está falando para outros personagens em batalha, e sim para cada um de nós aqui do lado de fora.

Nota do Crítico
Excelente!