Zack Snyder ao lado de Ben Affleck e Gal Gadot no set de Liga da Justiça (2017)

Créditos da imagem: Liga da Justiça/DC/Divulgação

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De Blade Runner ao Snyder Cut: como o corte do diretor virou tendência no cinema

Estúdios perceberam que há retorno financeiro em dar segunda chance aos cineastas

Arthur Eloi
29.03.2021
19h00

Após ser afastado de Liga da Justiça, em 2017, por causa de diferenças criativas e uma tragédia familiar, Zack Snyder passou a falar extensivamente de sua visão grandiosa para o filme nas redes sociais. Apoiada por uma intensa campanha dos fãs, essa insistência foi bem-sucedida e culminou em Liga da Justiça de Zack Snyder. Enquanto o longa é, sem dúvidas, um dos lançamentos mais importantes e únicos de 2021, o Snyder Cut também é parte de uma tradição dos cinemas pelas últimas três décadas: a de filmes com cortes do diretor.

É certo que o caso de Liga da Justiça é especial, tanto pela conturbada história, quanto pelo enorme apoio do público. Mas o ato de cineastas reeditarem e relançarem suas obras acontece desde os anos 1990 nas mãos de diretores como Ridley Scott, Francis Ford Coppola e, claro, o próprio Zack Snyder.

Para entender de onde surgem essas versões alternativas, é preciso conhecer algumas das etapas da produção de filmes. Com boa parte das filmagens concluídas, o trabalho de montagem e edição começa, normalmente supervisionado pelo diretor e por produtores, que vão discutindo o ritmo e a escolha dos takes para a obra. Com grandes orçamentos e campanhas colossais de marketing, há certa pressão para que os longas tenham boa divulgação e caiam no gosto dos espectadores. Para ter uma noção do que esperar, e para saber qual é o público-alvo, os estúdios costumam realizar sessões de teste para uma amostra variada do público, como bem explica o diretor David F. Sandberg (Shazam!, Annabelle 2) em seu canal no Youtube.

A partir das reações vindas dessa pesquisa de mercado, os executivos podem ou não exigir alterações no filme. Isso significa tanto afinar a edição, remover cenas ou até mesmo gravar material inédito. Enquanto o diretor tem força nas decisões, é muito comum que os engravatados do estúdio - que são, afinal, quem financia as produções - tenham a palavra final no produto que chegará às telonas. Existem casos como o Esquadrão Suicida, de David Ayer, em que o projeto, descrito como sombrio e violento, foi inteiramente reeditado em cima da resposta do público ao tom divertido e agitado do trailer. Ou, então, disputas históricas, como a de Bong Joon Ho com o infame Harvey Weinstein, que picotou Expresso do Amanhã (2013) ao ponto de ficar irreconhecível da versão imaginada pelo cineasta sul-coreano.

É claro que nem todo feedback de sessões de teste ou sugestões de executivos são necessariamente ruins, mas diretores com estilos fortes e autorais são os que mais sofrem com as alterações. A noção de dar uma segunda chance aos cineastas só surgiu quando, nos anos 1990, os estúdios perceberam que havia dinheiro a ser ganho nessa empreitada.

O Cortador de Andróides

Blade Runner - O Caçador de Andróides é o mais influente clássico do cinema cyberpunk. O filme de Ridley Scott também é o grande responsável por lançar o movimento de cortes do diretor. Ainda que tenham alguns exemplos antes, foi aqui que a noção de revisitar trabalhos estabelecidos se tornou uma tendência.

Pouco antes da estreia em 1982, a Warner Bros. estava com um certo pé atrás pelo projeto: após reações mornas nas sessões de teste, os executivos tinham certeza que a trama era muito complexa para o público entender. Como resultado, cobraram que o cineasta escrevesse uma narração para Rick Deckard (Harrison Ford) explicar e descrever os eventos. Tanto Scott quanto Ford se opuseram, optando por gravar cenas adicionais para manter alguma sutileza. Mas o diretor não teve o privilégio de aprovar a versão final de seu filme, e se viu obrigado a seguir as ordens e ainda ter que incluir um final feliz para sua obra. Dessa forma, o belíssimo mundo futurista de Blade Runner e a icônica trilha sonora de Vangelis tiveram suas estreias ofuscadas por um monólogo condescendente, lido por um Harrison Ford extremamente entediado. O filme teve desempenho medíocre nas bilheterias, e só foi salvo do esquecimento quando ganhou prestígio cult ao ser lançado em VHS.

Alguns anos depois, em 1989, o arquivista Michael Arick estava pesquisando os arquivos da Warner Bros. quando se deparou com a versão de Blade Runner que supostamente assustou o público da sessão de teste. Sem narração alguma, o filme tinha ares mais poéticos e espaço para a trilha, o néon e a melancolia criarem algo único. O estúdio percebeu que havia demanda por essa versão alternativa, e topou exibi-la em diversos festivais e cinemas. Para diferenciar da anterior, batizou de Blade Runner - O Corte do Diretor - mesmo que sem envolvimento algum de Ridley Scott, que só viria a criar seu corte 100% autoral em 2007. Assim, o termo nasceu como uma ferramenta de marketing, mas uma que serve aos interesses dos estúdios e dos cineastas ao mesmo tempo.

A tendência só pegou mesmo por causa do home video. O lançamento em mídia física, seja VHS ou DVDs para compra ou locação, dava a oportunidade dos cineastas colocarem o que não passou nos cinemas, do público ver material adicional de seus filmes favoritos, e também das distribuidoras lucrarem em cima de obras já consagradas. Ao longo dos anos, filmes como Aliens, o Resgate, Cruzada (novamente de Ridley Scott) e toda a trilogia O Senhor dos Anéis, cujas novas versões foram batizadas de “edições estendidas” ou “edições especiais”. Enquanto a nomenclatura varia do gosto de cada diretor, o propósito e a execução são bem parecidos.

É claro que nem sempre a versão do cineasta será a definitiva. É o caso de Apocalypse Now que, desde o seu lançamento em 1979, passou por diversas reformulações por Francis Ford Coppola. As mudanças, que adicionam arcos narrativos inéditos e ultrapassam as três horas de duração, acabam diluindo muito o ritmo e o impacto da narrativa original. Falando ao Omelete sobre o corte final Apocalypse Now Redux (2020), Chas Gerretsen, que foi fotógrafo de set do clássico, comentou o apego de Coppola com o filme: “acho que Francis Ford Coppola é perfeccionista. E Apocalypse Now foi sua obra de arte ‘imperfeita’. Ele continua ajustando, ocasionalmente piorando-a. Mas acredito que finalmente, ao encontrar paz interior, ele a tornou melhor.

Mas o exemplo mais infame continua sendo as edições de George Lucas na trilogia original de Star Wars. O diretor conquistou o mundo com sua saga espacial, mas rapidamente passou a cortá-la, adicionar material em computação gráfica e conexões com a trilogia dos prequels, além de até mesmo mudar o sentido de algumas cenas. Se Han Solo atirou primeiro é uma discussão que só surgiu graças a uma dessas intervenções desnecessárias de Lucas. Na contramão do Snyder Cut, esse é um caso em que até hoje os fãs pedem para assistir a versão que foi para os cinemas ao invés do corte do diretor.

Com o home video perdendo força para o streaming ao longo da última década, versões do tipo se tornaram um pouco mais raras. Ao mesmo tempo, os diretores agora têm mais espaço para falar publicamente sobre o que ficou de fora de seus filmes - e ainda apontar dedos para os responsáveis. Liga da Justiça de Zack Snyder pode se encaixar em uma longa história de cineastas que conseguiram demonstrar sua visão numa segunda tentativa, e também pode criar um público sedento por obras com menos interferência de engravatados.

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