Chris Evans e John Hurt em Expresso do Amanhã, filme de Bong Joon-Ho

Créditos da imagem: Expresso do Amanhã/Divulgação

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Expresso do Amanhã | Como Bong Joon-Ho enfrentou Harvey Weinstein nos bastidores

Primeira adaptação de O Perfuraneve é marcada por um intenso conflito entre o ex-produtor e o diretor de Parasita

Arthur Eloi
21.05.2020
12h27
Atualizada em
21.05.2020
17h36
Atualizada em 21.05.2020 às 17h36

A HQ francesa O Perfuraneve ganhou uma adaptação televisiva pela TNT, e chega ao Brasil pela Netflix. A trama, que mostra os conflitos de classe à bordo de um trem que serve de refúgio no fim do mundo, pode não ser tão lembrada pelos quadrinhos, mas sim por Expresso do Amanhã, filme de 2013 de Bong Joon-Ho. Se hoje o longa é um clássico cult do diretor de Parasita, as coisas eram bem diferentes em seu lançamento, já que ele precisou lidar com cortes e inúmeras intrigas com o infame produtor Harvey Weinstein.

Antes de 2013, Bong Joon-Ho já era conhecido entre os cinéfilos que acompanhavam as obras sul-coreanas, por trabalhos de peso como Memórias de um Assassino (2003) e O Hospedeiro (2006). O longa de Perfuraneve seria seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, o que poderia alavancar seu nome para o restante do mundo. A produção tinha toques de blockbuster, e combinava o apelo midiático de Chris Evans - que já era o Capitão América na época - com os talentos de Tilda Swinton e John Hurt. Apostando que seria um enorme sucesso, a Weinstein Company adquiriu os direitos de distribuição do projeto - e foi ai que tudo começou a dar errado.

Segundo Joon-Ho, o infame produtor e chefão da empresa queria picotar o projeto inteiro. As demandas de Harvey Weinstein incluíam cortar 25 minutos do filme, boa parte disso de cenas com diálogos, dar mais destaque para a ação e, claro, para a presença de Chris Evans. “Até aquele ponto, eu apenas havia lançado a ‘versão do diretor’ dos meus filmes. Nunca havia editado algo contra a minha vontade”, relembrou o sul-coreano anos depois à Vulture. “O apelido de Weinstein é ‘Harvey Mãos-de-Tesoura’, porque ele se orgulhava muitos dos cortes que fazia nos filmes”.

A versão de Weinstein, que lhe dava tanto gosto, na verdade havia deixado o filme completamente incoerente, já que atrapalhava o desenvolvimento dos personagens. Isso começou a ficar claro nas avaliações das sessões-teste, banhadas de notas baixas por toda a confusão. Mas será que a recepção negativa fez o produtor reconsiderar suas ações? Muito pelo contrário, essa foi a motivação que ele precisava para cortar ainda mais o projeto. “Parecia uma comédia sombria. Se fosse o filme de outra pessoa e alguém estivesse rodando um documentário sobre os bastidores, seria bem engraçado. Infelizmente era o meu filme”, falou o diretor, amargurado.

O controle que Harvey Weinstein tinha no produto era tão grande que Bong Joon-Ho e Hong Kyung Pyo, diretor de fotografia, tiveram que mentir apenas para conseguir deixar uma cena no filme. Em certo ponto, como forma de botar medo nos revoltados passageiros dos vagões mais pobres, um grupo de operadores estripam um peixe e passam seu sangue em suas armas. O produtor não entendeu o tom do momento e detestou, pronto para cortá-lo. Joon-Ho interveio e falou que o trecho tinha enorme importância para ele, já que seu pai era pescador e estava dedicando aquilo para ele. Weinstein se comoveu, falando que “família é o mais importante” e que manteria a cena. “Eu agradeci, mas era uma mentira da p**ra. Meu pai nem pescador era”, relembra o diretor.

Mas essa vitória era pequena em comparação com o quão indistinguível sua obra estava ficando, ao ponto que Bong Joon-Ho ameaçou tirar seu nome dos créditos caso a versão de Weinstein fosse para os cinemas. Por sorte, o diretor encontrou uma brecha de contrato que o permitiu exibir sua própria versão em sessões-teste. Sem nenhuma surpresa, as notas foram muito mais altas - e isso só enfureceu o produtor.

Como forma de retaliação, Harvey Weinstein relegou a distribuição do filme para uma filial menor de sua empresa, com baixo orçamento de divulgação e alcance. Assim, ao invés de Expresso do Amanhã chegar ao circuito amplo, teve lançamento limitado em poucas telas. A decisão se traduziu em pouco retorno financeiro: nos EUA, o filme fez meros US$4,5 milhões de bilheteria, além de ter estreado por lá meses depois de países como a França e a Coreia do Sul. Bong Joon-Ho não se incomodou tanto: “Talvez para ele fosse algum tipo de punição, mas eu fiquei muito feliz. Consegui o corte do diretor!

Eventualmente, Expresso do Amanhã foi chegando a cada vez mais países - no Brasil, o lançamento ocorreu apenas em 2015 - e conquistando críticos e o público. A bilheteria mundial fechou em US$86,7 milhões, que não é um valor muito expressivo mas o bastante para cobrir o orçamento de US$40 milhões. Além disso, sua disponibilização no streaming e em mídia física o elevou ao status de clássico cult, sempre aparecendo em indicações e também listas de melhores filmes da década passada.

A visão do cineasta para Expresso do Amanhã se provou tão afiada, interessante e bem desenvolvida, que inspira toda a estética e tom da série da Netflix, além de também ter inspirado prelúdios nas HQs que contarão como aconteceu o fim do mundo que coloca o trem para partir.

Hoje em dia, Bong Joon-Ho não tem muito mais com que se preocupar. O diretor teve uma experiência melhor nos Estados Unidos ao dirigir Okja (2017) para a Netflix, e alcançou a fama mundial após a excelente recepção de Parasita, que venceu quatro prêmios no Oscar 2020 - incluindo os de Melhor Filme, e Melhor Diretor para Bong. Harvey Weinstein, por outro lado, teve seu longo histórico de violências sexuais exposto pelos movimentos #MeToo e Time’s Up. O infame produtor foi condenado à 23 anos de prisão por estupro e crimes sexuais. Recentemente, ele também testou positivo para coronavírus. É uma conclusão digna do humor irônico do diretor, uma verdadeira “comédia sombria”, como diz o cineasta.

A nova adaptação de Expresso do Amanhã estreia em 25 de maio pela Netflix. A versão de Bong Joon-Ho já está disponível no catálogo.