Pôster de Apocalypse Now: Final Cut, de Francis Ford Coppola

Créditos da imagem: Apocalypse Now: Final Cut/Divulgação

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Como Apocalypse Now quase levou Francis Ford Coppola ao suicídio

Fotógrafo de set do clássico cult, Chas Gerretsen conta ao Omelete como foi participar de uma das mais infames e complicadas produções do cinema

Arthur Eloi
01.07.2020
19h06
Atualizada em
01.07.2020
19h37
Atualizada em 01.07.2020 às 19h37

Fazer um filme não é tarefa fácil. Garantir que equipes enormes, de diversos setores, trabalhem alinhadas em uma única visão, lutando contra o tempo e imprevistos, requer muito dinheiro, jogo de cintura e ainda mais paciência. É por isso que histórias de bastidores desastrosos que, milagrosamente, resultam em boas obras são tão intrigantes. Mas nenhuma delas desperta tanta curiosidade - e horror - quanto o que aconteceu por trás das câmeras de Apocalypse Now, clássico de 1979 do diretor Francis Ford Coppola.

Logo de cara, o filme tinha um enorme desafio nas mãos apenas por sua temática, que trata das atrocidades cometidas pelo exército dos Estados Unidos no Vietnã, sendo que as filmagens começaram em 1976, apenas um ano após o fim da tão infame guerra. No entanto, o assunto complexo dificilmente foi a única preocupação do cineasta. A realidade do dia a dia no set era muito pior do que o medo da reação pública.

Após ficar milionário com os dois primeiros filmes de O Poderoso Chefão, Coppola botou a mão no próprio bolso para financiar Apocalypse Now. Naquela época o projeto já parecia impossível visto que Coração das Trevas, conto de Joseph Conrad que serve como base para a trama, já havia tentado ser adaptado por Orson Welles (Cidadão Kane) sem sucesso. Com roteiro de John Milius (Conan, o Bárbaro), o diretor levou para o período do Vietnã a trama do livro clássico, que mostra a tripulação de um barco rio abaixo, em busca de uma figura elusiva chamada Kurtz. O cineasta conseguiu um belo acordo com o governo ditatorial das Filipinas e, em fevereiro de 1976, estava pronto para árduos três meses de filmagem no país asiático.

Porém, a realidade foi mais infernal do que o previsto. Histórias sobre o caos dos bastidores de Apocalypse Now já foram amplamente divulgadas ao longo das décadas. Não só a mídia da época cobriu tudo com afinco, como também o assunto foi alvo do documentário O Apocalipse de um Cineasta (1991), rodado por Eleanor Coppola, esposa do diretor, e de Dutch Angle (2019), documentário sobre Chas Gerretsen, fotógrafo de set do longa, que falou ao Omelete sobre a experiência de ver a criação do longa em primeira mão.

Gerretsen, por sua vez, é uma figura tão interessante quanto o assunto que discute. Antes de se envolver com o cinema, o holandês cobriu o golpe de estado no Chile pelo ditador Augusto Pinochet, em 1973, e também a Guerra do Vietnã. “No fotojornalismo eu cobria a realidade, e em Hollywood eu retratava a fantasia”, afirma o fotógrafo. “Cheguei à conclusão que políticos sabem de muito mas não falam nada, enquanto os atores falam demais mas não sabem de nada.

Os dois documentários e o corte especial de 40 anos de Apocalypse Now, chegam ao Brasil pelo streaming Belas Artes À Lá Carte. Rever o clássico em 2020 se torna ainda mais visceral quando se entende seu verdadeiro custo.

O Cheiro de Napalm pela Manhã

Robert Duvall no set de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola
Apocalypse Now/Divulgação

Em uma era pré-efeitos visuais de computador, a ambição de Coppola só podia ser realizada na prática. O diretor recebeu autorização do governo local para bombardear as florestas do país com napalm, líquido altamente inflamável cuja destruição massiva definiu a face da Guerra do Vietnã. O acordo do cineasta com o ditador Ferdinand Marcos também permitiu o uso de helicópteros e militares filipinos no longa, o que se provou uma desafio enorme, visto que frequentemente o exército retirava os veículos para colocá-los em combate em uma guerra civil que se desenrolava na época. Assim, muitas vezes a produção tinha que adiar as filmagens, ou então gastar muito tempo de preparação antes das cenas, já que raramente os mesmos pilotos de um dia voltavam para o seguinte.

Logo de cara, Coppola teve um enorme problema nas mãos. Inicialmente Harvey Keitel (Cães de Aluguel, Pulp Fiction) havia sido escalado para viver o capitão Benjamin Willard, soldado que vê sua sanidade se partindo ao ritmo que mergulha mais fundo nas florestas do Vietnã, em busca de Kurtz. Após ver os primeiros momentos da filmagem, o cineasta rapidamente decidiu demitir Keitel e acionar sua lista de contatos, com nomes como Jack Nicholson e Al Pacino. Nenhum topou - exceto por Martin Sheen, mesmo que ele não conhecesse muito bem o ator além de oi-e-tchau, e um impressionante teste de elenco.

É certo que Sheen, que tinha 35 anos, entregou uma das performances de sua vida, mas não sem batalhar seus próprios demônios. Na época, ele estava fora de forma, fumando três maços de cigarro por dia e com um pé no alcoolismo. Com todo estresse que passou no set - seja pela cobrança ou por riscos, como contracenar com um tigre faminto -, o ator chegou até a ter um infarto durante uma madrugada, o que lhe garantiu três semanas de afastamento. Coppola, por sua vez, se preocupou com a imagem que seria pintada pela mídia. Tendo hipotecado sua casa e bens pessoais para o crescente custo da produção, apenas afirmou: “Isso vai estar por toda a Hollywood em meia-hora [...] Se Martin morrer, diga que está tudo certo até que eu fale que ele morreu.

Mas ninguém deu tanto problema quanto Marlon Brando. Conhecido por viver Don Corleone em O Poderoso Chefão, o ator cobrou US$1 milhão por semana de trabalho para viver o antagonista Kurtz. O acordo inicial foi de três semanas, com parte desse valor adiantado. Como só daria as caras no ato final, era o tempo que a produção precisava para rodar o restante do filme. As filmagens se alongaram mais do que o esperado, e os agentes do ator ameaçaram tirá-lo do projeto (sem devolver a grana, claro). O diretor então deu prioridade para rodar a conclusão, e teve uma enorme decepção. Coppola instruiu Brando a perder peso e ler Coração das Trevas durante o tempo de preparação. Ele não fez nenhuma das duas coisas. Para piorar, como o roteiro era escrito e modificado todas as noites pelo cineasta, o ator sequer quis memorizar as falas, anotando o texto em sua mão e obrigando alguém da produção a segurar cartazes com seus diálogos.

Chas Gerretsen, assim como muitos no set, não tinha uma boa relação com Brando. “Personalidades famosas atraem puxa-sacos que fazem de tudo para te agradar e falar o que você quer ouvir. Quanto mais tempo se é famoso, mais você passa a acreditar que é tão gigante e merecedor das suas riquezas quanto as pessoas falam que você é. Quanto mais dura a fama, em boa parte das pessoas que conheci, pior fica o comportamento”, explica o fotógrafo. “Marlon Brando já era famoso há muito tempo.

O Horror

Apesar das personalidades instáveis envolvidas, e de uma equipe constantemente sob o efeito de álcool e drogas, a produção caminhava. Quem lutava contra era a natureza. Se não bastasse a constante reescrita do roteiro, Coppola teve de lidar com uma chuva torrencial que destruiu boa parte do set. Laurence Fishburne (Matrix), que na época tinha apenas 15 anos, descreveu a tempestade tão forte que as gotas chegavam a machucar. Grande adepto de improvisos e momentos espontâneos, o cineasta incorporou o impacto da água ao filme.

A atmosfera no set era, no geral, bastante profissional”, esclarece Gerretsen. “Mas imagine cerca de 350 pessoas trabalhando em um set de filmagem apertado, nas florestas das Filipinas. Pagsanjan, uma vila pequena, era o único refúgio durante o tempo livre. Doze horas por dia, cinco/seis dias por semana, trabalhando na chuva, com lama até os joelhos. Sol, calor, os insetos, e incerteza de como se preparar para o dia seguinte porque Francis só escreveria as cenas durante a noite.” Segundo o fotógrafo, as condições adversas e a má administração faziam a equipe sonhar com a volta para casa. “Alguns sentiram solidão, outros tiveram colapsos nervosos. Todo final de semana, alguém da equipe viajava até Manila [capital das Filipinas], alugava um quarto de hotel com vista para o aeroporto, para imaginar a sensação de voar de volta para Hollywood.

Foto de Marlon Brando no set de Apocalypse Now, por Chas Gerretsen
Chas Gerretsen/Divulgação

Todos carregavam o peso das condições desastrosas, mas os figurantes e a equipe de locais sofreram ainda mais. Para economizar, visto que Ford Coppola estourou o orçamento de US$20 milhões nos primeiros meses, a produção contratou 600 filipinos. Ao invés de receberem os salários altíssimos e a proteção sindical dos norte-americanos, eles eram pagos cerca de US$1,00 a 3,00 por dia. Não há dúvidas que os locais eram vistos como inferiores, não só pelo pagamento miserável, como também pelo trabalho excessivo. A situação com eles ficou tão absurda que, durante a montagem dos sets, ocorreram mortes, cadáveres roubados foram encontrados, e sacrifícios animais foram gravados.

A filmagem se arrastava por seis meses, e as decisões ruins se amontoavam ao ponto dos próprios integrantes da produção perderem cada vez mais de sua sanidade. Em um ciclo vicioso, Coppola capturava os delírios e improvisos, juntando material para algo desconjuntado, sem nenhum fio narrativo ou sentido lógico. Pior de tudo é que o cineasta não planejou Apocalypse Now como um filme cult, mas sim um blockbuster, repleto de ação, violência, sexo e drogas, mas também significado.

Mas isso parecia cada vez mais um objetivo distante, ao ponto que Coppola cogitou várias e várias vezes adoecer propositalmente, ou então cometer suicídio. “É um desastre de 20 milhões de dólares”, afirmou em uma conversa particular com sua esposa, gravada pela mesma - meses antes de estourar esse valor e passar a dever US$27 milhões para a distribuidora United Artists, claro.

Do fracasso, o prestígio

Dennis Hopper no set de Apocalypse Now, por Chas Gerretsen
Chas Gerretsen

Após praticamente um ano de angústia, gasto irresponsável e insanidade, Francis Ford Coppola enfim concluiu Apocalypse Now. Naquele ponto o diretor não só havia apanhado da vida e de sua própria ambição, mas também da imprensa. Durante toda a novela de seu desenvolvimento catastrófico, a mídia cobriu cada erro e fracasso com afinco. Afinal, o longa era o mais caro da indústria até então, e facilmente podia virar o maior desastre da história do cinema.

Em entrevistas, o diretor foi franco com seu erros. “Meu filme não é sobre o Vietnã, meu filme é o Vietnã”, afirmou. “A forma como nós rodamos foi muito parecida com a presença norte-americana no Vietnã. Nós estávamos na selva, havia muitos de nós, tínhamos dinheiro em excesso, muito equipamento e, aos poucos, fomos perdendo nossa sanidade.

Chas Gerretsen entende a comparação, especialmente por ter presenciado a guerra de verdade antes de se juntar à guerra do cinema. “Quando eu estava no Vietnã, entre 1968 e 1972, tudo era possível. Eu acredito que isso vale para todas as guerras. O tratamento inumano à outros humanos, a falta de supervisão da insanidade, miséria, crueldade etc. Se você consegue imaginar algo - e mesmo que não consiga -, alguém provavelmente já imaginou e botou para fora suas mais insanas fantasias”, afirma o fotógrafo. “Às vezes, a guerra pode mostrar comportamento humano extremamente positivo, mas normalmente causa o oposto.

Em 1979, durante a edição do corte cinematográfico, Francis Ford Coppola exibiu uma versão “em progresso” de Apocalypse Now no Festival de Cannes. Havia enorme entusiasmo para ver o tão falado projeto nas telas, e o resultado não decepcionou. Enquanto houve debates acalorados sobre a obra, a impressão foi de que o cineasta conseguiu entregar uma obra-prima sobre os horrores da guerra, e seus efeitos nos soldados. O longa fez mais de US$150 milhões de bilheteria, foi fortemente elogiado pela crítica, venceu dois Oscars (Melhor Som e Melhor Fotografia), e é considerado uma das melhores obras que o cinema já proporcionou.

Apocalypse Now não foi o primeiro filme sobre a Guerra do Vietnã (O Franco Atirador, de Michael Cimino, chegou na frente), mas com certeza foi o grande responsável por moldar a retratação do conflito nas telonas. Sua aura caótica, seu comentário sobre violência e insanidade podem ser fortemente sentidos em sucessores como Platoon (1986) e Nascido Para Matar (1987). Com isso, Francis Ford Coppola enfim pode seguir em frente e continuar sua carreira cinematográfica… certo?

Planos Elaborados

De 1979 para cá, é visível que o diretor não vê a versão cinematográfica como a definitiva. Isso já ficou claro no ano de lançamento, quando enviou para o Festival de Cannes um corte incompleto. Com o passar das décadas, voltou a revisitar seu drama de guerra. Em 2001, por exemplo, relançou um novo corte chamado Apocalypse Now: Redux. A nova edição continha melhorias, e também quase uma hora de conteúdo adicional. Sua recepção não foi tão boa, visto que muitos críticos afirmavam que o material inédito apenas atrapalhava o ritmo tão consagrado do original, como pontua Harris Bomberguy em sua dissertação sobre as chamadas “Versões do Diretor”.

Em 2019, quando a obra completou 40 anos, o cineasta novamente viu a oportunidade de tentar entregar algo mais próximo de sua visão. Chamado de Apocalypse Now: Final Cut, o corte definitivo é, na realidade, menor que o Redux, com “apenas” três horas de duração, e um novo conjunto de melhorias. “Acho que Francis Ford Coppola é perfeccionista”, indaga Chas Gerretsen. “E Apocalypse Now foi sua obra de arte ‘imperfeita’. Ele continua ajustando, ocasionalmente piorando-a. Mas acredito que finalmente, ao encontrar paz interior, ele a tornou melhor”, diz o fotógrafo sobre o corte final.

Muitos artistas de sucesso, se podem ser honestos, vão te dizer que fariam algo de novo se pudesse, para fazer de formas levemente diferentes. Mas publicar novamente um livro ou filme de sucesso não é algo que muita gente tem o estômago, a habilidade ou a paciência de fazer”, conclui.

Apocalypse Now: Final Cut, e também os documentários citados no texto estão todos disponíveis no Belas Artes À Lá Carte, que proporcionou a entrevista com Chas Gerretsen ao Omelete.