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Créditos da imagem: Supergirl/CW/Divulgação

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Supergirl entra nos eixos com 100º episódio sobre passado, presente e futuro

Série se arrisca com linguagem divertida em capítulo que se leva à sério apenas na medida certa e serve como boa homenagem ao seriado todo

Camila Sousa
26.02.2020
00h17

Se há um desejo que todo ser humano tem é o de voltar ao passado para corrigir um grande erro. E como grande kryptoniana com coração humano que é, a Supergirl vive este dilema há vários episódios, desde que revelou sua identidade verdadeira à sua amiga Lena Luthor (Katie McGrath). Esse é o ponto de partida de “It’s a Super Life”, o sólido 100º episódio do seriado, que tem uma qualidade muito acima dos capítulos recentes, brinca com sua própria narrativa e ainda é uma bela homenagem à jornada da Garota de Aço até aqui.

[Spoilers de “It’s a Super Life” abaixo]

O primeiro passo do episódio é explicar a nova aparência de Mxyzptlk, vilão vivido aqui por Thomas Lennon, que já foi interpretado por Peter Gadiot na segunda temporada. E já aqui “It’s a Super Life” mostra uma de suas maiores qualidades: se levar à sério apenas na medida certa. Ao invés de tentar fazer tudo ter sentido, o seriado fala sobre a mudança de visual em apenas algumas frases e não tem medo de ser meio boba nesse caminho. O mesmo acontece quando há quase uma quebra de quarta parede (o logo da série aparece dentro da série) e quando Mxyzptlk mostra seu próprio streaming, o Myxflyx, com a mesma fonte utilizada pela Netflix.

Pela primeira vez em muito tempo, Supergirl encontrou uma forma inteligente de colocar humor em sua trama, sem deixar de lado o que precisa ser tratado de forma séria. O humor é gráfico e, mais uma vez, bobo e funciona especialmente com Melissa Benoist, que é carismática e tem um timing cômico perfeito. Fazendo isso, o seriado se aproxima de outras produções da CW como Legends of Tomorrow, que já assumiu sua galhofa e se orgulha dela. Se continuar apostando neste caminho em pequenas doses, Supergirl tem tudo para criar grandes momentos tragicômicos.

É preciso pontuar ainda outro ponto positivo, que é o tempo de tela e a “volta” de alguns personagens, como Mon-El (Chris Wood). As aparições são rápidas, bem contextualizadas e soam nostálgicas para os fãs que lembram de tais personagens em seus auges. Até mesmo os grandes vilões encontram espaço, como Reign e Lockwood. Há também momentos para nomes mais recentes, como Dreamer (Nicole Maines), esquecida nas confusões dos capítulos anteriores.

Ainda em tom de homenagem por ser o 100º episódio da produção, “It’s a Super Life” repassa vários momentos do passado, com Kara em busca da forma perfeita de contar seu segredo para Lena. Essa trama precisaria ser resolvida logo, já que os repetidos lamentos da heroína pela perda da amizade já estavam se tornando monótonos. A Supergirl já perdeu seu grande amor e várias pessoas queridas em sua vida. Por que a insistência com Lena? A razão é um dos motivos que torna a heroína tão humana: a culpa. Desde que a irmã de Lex rompeu a relação das duas, Kara se sente culpada pela reação da amiga e sempre pensa o que poderia ter feito da forma certa.

E a resposta, ainda que óbvia, fecha o ciclo com maestria: nada. Não há nada que a Supergirl pudesse ter feito para que Lena agisse diferente, porque a decisão foi de Lena e não da Garota de Aço. Por mais poderes que tenha, a kryptoniana não pode mudar a decisão de alguém. A percepção final disso encerra o ciclo de lamentos e começa algo novo e extremamente promissor: agora Lena Luthor é oficialmente uma antagonista da Supergirl. Se ela se provará realmente uma vilã, isso só o tempo poderá dizer, mas o momento de colocar as duas frente à frente finalmente chegou, o que é, no mínimo, interessante. A relação de Kara e Lena é uma das mais fortes do seriado até aqui e acrescentar uma nova camada, agora de conflito direto, pode tornar as duas personagens ainda mais completas. Há uma tristeza no coração em ver as amigas uma contra a outra? Sim. Mas como o próprio episódio provou, não havia mais lugar para a amizade das duas. A relação entre elas, com verdades ou mentiras, estava fadada ao desastre desde o começo.

Apesar dessa verdade tão dura, Supergirl escolhe encerrar seu 100º episódio com um tom positivo e otimista que só a personagem poderia ter. O diálogo com Myxflyx e o momento fofo com Alex (Chyler Leigh) e J’onn (David Harewood) deixam claro que o fim de uma amizade é algo doloroso sim, e que pessoas que saem de nossas vidas jamais serão substituídas. Mas isso não quer dizer que não podem existir novas amizades, novas relações de afeto que farão a vida ter sentido de novo. Kara entendeu que não poderia continuar na vida de Lena para sempre, e que também não deveria não a ter encontrado nunca: as duas estiveram uma com a outra pelo tempo necessário, para amadurecer ou transformar algo em suas personalidades.

Agora que a amizade acabou, Supergirl (heroína e seriado) finalmente se abre para o novo, com o coração mais leve e um gancho promissor para o restante desta irregular 5ª temporada.